Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leituras. Mostrar todas as mensagens

8.09.2011

American dream ou de ratos e homens



Voltei a "Ratos e Homens" quando ele se cruzou no meu caminho, na última prateleira de uma cinzentona biblioteca universitária.

Já o havia folheado anos antes quando, contrariado, tive de passar os olhos pelo "A Pérola". Por essa altura intrigou-me o título, menos as primeiras 2 ou 3 páginas do romance, deixando-o.

Steinbeck já se havia apresentado anos atrás com "Viagens com Charley" e com "A um Deus Desconhecido" em que me surpreendeu a espiritualidade que a sua visão da natureza comporta, menos evidente no seu companheiro Charley, mas explícito na árvore decepada de Wayne, comprovando, aos meus olhos adolescentes, a existência de uma alma colectiva desprovida de intenção.

Com "Ratos e Homens" a luz brilha em Lennie. O sonho americano é aqui retratado como ele é realmente: um sonho de vida, de futuro, de prosperidade, inúmeras vezes incumprido na realidade dura do trabalho braçal.

Mas é muito mais do que isso.

É a chusma de gente que sonha com os milhões do totoloto, é o taxista que junta para comprar uma terra na aldeia, é o varredor que espera encontrar a fortuna entre o restolho, é o advogado que almeja singrar, sou eu que sonha fazer a diferença.

"Ratos e Homens" não representa um qualquer passado longínquo ou uma realidade geográfica. Representa o homem como ele é: sonhador, e o seu resultado habitual: o fracasso.

O realismo de Steinbeck é assim, espiritual, mas muito cruel. O realismo de Steinbeck, não é dele, é da condição humana.

A não perder.

7.21.2011

libralhada da boa

Terminei o "Último Cabalista de Lisboa". Foi só à segunda que o acabei, depois de perder um exemplar autografado no comboio para o Porto (que mil sodomitas esconjurem diariamente o tipo que me levou o livro!).
De facto, o livro é brutal! A partir de um escrito de quinhentos da autoria de Berequias Zarco, Zimler traz-nos à memória a barbárie cristã que foi assolando os séculos da sua hegemonia europeia.
Os relatos dos massacres de Lisboa e da vida do povo urbano de então, são reveladores de uma sociedade impreparada para a diferença e em busca de um bode expiatório para a sua rusticidade.
De facto esta ideia já me havia assolado quando li a “Crónica de Almançor” por António Saldanha, um calhamaço impensável que relata a vida de um cativo-livre em Marrocos durante quinhentos-seiscentos.
Também me veio à memória um estudo que fiz há alguns anos sobre os "Processados nas Inquisições de Coimbra, Évora e Lisboa", com discriminação do número de judeus considerados culpados nos processos da inquisição.
Na altura analisei apenas os inquiridos do Nordeste Trasmontano (equivalente ao distrito de Bragança) entre 1541 e 1755 (apurado a partir do Inventário dos Processos da Inquisição de Coimbra, entre 1541 e 1755 e das listas das Inquisições de Évora e Lisboa, apresentadas por Francisco Manuel Alves, na sua obra, Os Judeus no Distrito de Bragança, t. V das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, entre 1551 e 1755, estas, contudo, não exaustivas para o período em causa, elaboradas a partir da Colecção Moreira, da Biblioteca Nacional).
Quando terminei a análise quantitativa dos dados, lembro-me de ter pensado que a indústria das sedas e dos curtumes (a que se dedicavam parte dos judeus de Trás-os-Montes), hoje inexistentes, poderiam ter sido uma alavanca importante para colocar o nordeste no mapa económico português e que o êxodo em massa motivado pelos cerca de cinco mil inquiridos, foi um dos factores do marasmo em que ainda hoje vive o interior norte.
Revejo o Último Cabalista de Lisboa como um retrato do que fomos, reflectindo um país tacanho e rude, que nos trouxe até aqui.
Mas seremos diferentes!? Estaremos imunes ao poder da massa!? Pegaríamos hoje em machados, foices e martelos e faríamos os mesmos massacres de outrora!?
Penso que não, o poder do sofá é grande, mas a nossa língua comprida continua a culpar outros pela falta da chuva, pelo empréstimo chorudo que fazemos, pelo trabalho que nos dão, pelo abuso que é deixarmos as fronteiras livres a quem connosco quer partilhar a vida.
Pelos vistos continuamos tacanhos, rudes, brutais como outrora, mas com o rabo almofadado pelo feitiço da novela, do cochicho, da maledicência que ao português tão bem sabe.
Afinal, poderá não ser um livro sobre quinhentos, mas um retrato actual do Nós interior, pessoal e inominável, escondido apenas para não levantar suspeita.

7.04.2011

Leão, o Africano



Numa pujante auto-biografia possível, Amin Maalouf recria o imaginário do mundo árabe de seiscentos, num breve tratado de história diplomática euro-magrebina, levando-nos a viajar com Hassan al-Wazzan entre Granada, Fez, Cairo, Roma e outras tantas.
De realçar as passagens fantásticas sobre costumes muçulmanos e vida nas cidades, bem como sobre a centralidade do corão nas sociedades do mundo árabe.

Não sendo uma obra-prima da literatura é muito bem escrito, com apontamentos históricos muito bons, em suma, um livro muito porreiro.

3.29.2011

libralhada da boa

"Nos tempos antigos. quando pessoas e animais partilhavam a terra, um ser humano podia transformar-se num animal se assim quisesse, e um animal podia transformar-se num ser humano. Às vezes eram pessoas e às vezes animais e não havia diferença alguma. Todos falavam a mesma língua" cita um velho anarquista angolano num refrescante milagrário pessoal.



E que bom seria sermos falcões ou doninhas se assim o quisessemos...

8.06.2010

A Árvore Generosa ou "Da forma da Arte"

Da arte descomplexada, verdadeira.

De como ser matemático [arte = forma + conteúdo]

De como a literatura não ser densa, bizarra ou alternativa.

De como os clássicos o serem, sem rodeios, nem pudores livrescos.

De como ser intemporal.

De como ler sem complexos.

De como ser cão, burro ou árvore, como nós, sem palavriados recriadores da verdadeira criação, nem discriminação da espécie (esta é intrincada, mas sentida).



A Árvore Generosa [Shel Silverstein] [Espantosa edição da Bruaá Editora]
Platero e Eu [Juan Ramón Jimenez] [Edição de bolso da Biblioteca Editores Independentes]

10.20.2005

Livro (sugestão)

"A aventura humana tem uma finalidade.
Não acontece ao homem o que ele merece, mas sim, o que se lhe assemelha.
O mundo não é absurdo e o espírito humano não é de forma alguma inapto para compreendê-lo.

Pelo contrário, pode ser que o espírito já tenha compreendido o mundo, mas ainda não o saiba.
O homem é feito de mistérios e visões. O mundo exterior é pouco instrutivo, a menos que seja visto como um reservatório de símbolos com significações escondidas
É evidente que o homem não tem conhecimento de si próprio à altura do que ele "FAZ".
E se não o tem é porque a organização social o priva, baseado em idéias caducas.
No entanto, tudo nos incita a pensar que as coisas se modificarão rapidamente. Que a agitação das massas, a formidável pressão das descobertas técnicas, o movimento das idéias, a mudança dos antigos princípios, levará o homem a sentir nascer em si mesmo a "Nova Alma" e descobrirá a liberdade de "Poder ser Causa".
Deus criou-nos o menos possível. A liberdade de "Poder ser Causa", quer que o homem se refaça a si mesmo.
Temos a liberdade de vir a ser, no centro de uma eternidade que É, visão do destino humano ligado à totalidade do universo.
Não é a primeira vez que na história da humanidade, a consciência humana é obrigada a passar de um plano para outro. E a passagem é sempre dolorosa.
Inteligência total, consciência desperta, o homem se dirige para as conquistas essenciais, no seio deste mundo em pleno renascimento.
Começamos a perceber, e para sempre, que para o homem reconhecer, amar e servir apaixonadamente, o universo, de que ele é o elemento mais importante, é a única razão aceitável."
Louis Pauwels - Jacques Bergier in "O Despertar dos Mágicos"

Aqui está a eterna sugestão no que toca a livros. Estou nos copos.... livros? - olhem leiam o... e pronto, nunca escapa, sempre presente, mas e então, não é por isso que somos marcados por algo, pela perpetuação da sua influência em nós manifestada nas mais simples das nossas acções.

"Este livro não é um romance, embora a intenção seja romanesca. Não faz parte da ficção cientifica, embora nele se deparem mitos que sustentam esse género. Não é um conjunto de factos estranhos, embora o Anjo do Bizarro se sinta à vontade nele."

É um livro poderoso, revelador, principalmente pela forma não facciosa de como os dados são fornecidos e tratados - "«Havia uma quantidade de disparates no livro do Pauwels e Bergier.» Eis o que dirão. Mas se tiver sido este livro a provocar a curiosidade de aprofundar o assunto, o nosso fim terá sido atingido."

É, para mim, exemplificativo dos MEUS amigos, andamos por aí, à procura, e tentamos não descurar nada, é o Quiosk... desfrutem... Ni!

"«Olha, há um tesouro na casa ao lado.
- Mas não há casa alguma aqui ao lado.
- Então construiremos uma!»"

P.s. Só arranjei foto da capa da edição francófona.

9.07.2005

Do Amor e outros Demónios

A lápide saltou em pedaços à primeira pancada do alvião e uma cabeleira viva, de uma intensa cor de cobre, espalhou-se pela cripta. Estendida no chão, a esplêndida cabeleira media vinte e dois metros e onze centímetros.

É o mote do excepcional livro de GG Márquez, publicado pela primeira vez em 1994 com o título Del Amor y otros Demonios.

Desenrola-se à volta de um amor impossível entre Delaura, clérigo da confiança do Bispo de Cartagena das Índias e Sierva María, uma pequena mestiça possuída pelo demo...

É uma empolgante história de amor. Do inquieto fulgor raivoso inicial, vão-se configurando sentimentos límpidos entre duas personagens puras, cujo único erro foi viverem no tempo errado... o tempo dos homens cegos! Cegos para o amor, para a verdade e para a pureza de sentimentos de um ardente Delaura e de uma inocente Sierva, esquecidos por todos... pelos homens, pelos deuses e por todos os outros demónios...

7.19.2005

"O teu rasto de sangue na neve" revisitado

Após uma longa ausência por motivos de alegria maior, cá estou de novo, para mais uma posta em bom português!
Ontem à noite, refastelado por entre uma luminosidade que oscilava entre o laranja decorativo e o ocre incandescente, entrei pelo mundo da cinematografia europeia e assisti ao milagre da vida, ou antes ao "A Vida é um Milagre" de Emir Kusturica.
Com sentido humanista, relata a efervescência dos Balcãs, na Bósnia de 1992, visto pelos olhos de Luka, um engenheiro ferroviário sérvio e sua comandita.
Onde outrora Muçulmanos e Sérvios conviviam pacificamente, estala a guerra e com ela, libertam-se os ódios...
Porém, nem tudo são espinhos, por meios transviados [ao meu gosto], o amor nasce por entre os escombros, ainda que pertencendo a barricadas opostas.
Chamou-me a atenção a cena em que Sabaha - Muçulmana - é atingida e Luka - Sérvio - arrasta-a pela neve à procura de ajuda...
O seu rasto de sangue mantém-se durante toda a cena, como se Kusturica, lendo "O teu rasto de sangue na neve" [conto de G. G. Márquez em Doze Contos Peregrinos] quisesse recriá-lo no cinema, apesar de o inverter no take final [de forma magistral para quem conhece o conto, mas de forma previsível para todos os outros], não fora o objectivo da película servir de plataforma de entendimento entre as facções beligerantes, demonstrando que a convivência é pacífica quando impera o Amor.
Quanto a mim um filme a não perder, pela música, pela fotografia, pelo humor brejeiro balcânico e pela genialidade de realização.

7.11.2005

O critério das moscas

Conto de Luís Manuel Ruiz, vencedor do Primeiro Prémio Novela Curta da Universidad de Sevilla, editado em Portugal pela Quarteto Editora, levanta o véu ao mundo intrincado da ciência histórico-literária do Renascimento, vista pelos olhos de Matías Belaval, um professor universitário que sofre de amnésia após um suposto acidente de viação.
A obsessiva procura do passado por entre ocultismo, misticismo e morte, desemboca no auto-conhecimento de um indivíduo infeliz na sua existência, onde apenas o critério das moscas faz algum sentido...
Interessante...

6.27.2005

O Aroma da Goiaba





Ao grande Judas devo o prazer de ter, diante mim, mais um livro do Gabito!


Desta vez, a Dom Quixote edita um conjunto de entrevistas publicadas em 1982 de Plinio Apuleyo Mendoza ao seu amigo Gabo.

Com esta compilação de entrevistas, buscam a génese de contos e romances que transformaram Márquez no ícone de muitos seres pensantes...

Cá vai o teaser para quem o apanhar!


Si formalmente El olor de la guayaba es una prolongada conversación del escritor y periodista Plinio Apuleyo Mendoza con su viejo amigo Gabriel García Márquez -lo que da ocasión a éste para desgranar con vivacidad sus remembranzas, juicios, opiniones y convicciones- sus contenidos van mucho más allá: en El olor de la guayaba bien pueden encontrarse las claves de un proceso, creador y creativo, de singular riqueza. De la mano de Mendoza, García Márquez desvela el mundo que refleja su obra -hasta transfigurarlo- con la magia de la palabra: la calidez y el color del Caribe, el universo mítico de sus pobladores, la extraña mentalidad de sus extraños prohombres y caudillos. Una obra en la que el compromiso con la emoción y el compromiso con la razón se dan la mano, para ofrecer la más sugerente aproximación a un ser que de puro complejo puede permitirse el lujo de ser nítido.

4.13.2005

O poder autoritário do binómio 0_1

Recensão crítica à obra de Pierre Lévy, Máquina Universo: criação, cognição e cultura informática.

A era tecnológica em que vivemos, realidade perversa que auxilia e limita o Homem, apresenta-se como uma verdade inegável do nosso tempo. A ferramenta informática, organizadora laboral e relacional da comunidade global, possibilita também o controlo da informação e das pessoas em contexto social. Vivemos, pois, sob o efeito big brother – como se de um grande irmão controlador da vida dos “manos” se tratasse. A não bastar, se nos dá a ilusão do conhecimento universal, dá-nos também a solidão, única forma de tratar a informação.

Neste contexto de mudança, a própria realidade sensorial e espacial sofre transformações irreparáveis, muitas vezes negada pelo ser humano. É a luta desigual da terceira vaga informacional vs a resistência à mudança humana. É, em suma, a era tecnológica em acção.

O autor define o computador como reestruturador completo da aprendizagem e da imagem. De facto assim é, se vivemos uma era informática em que o acesso à informação se define de forma completa – tudo respira informação –, a resistência pessoal às clivagens do conhecimento não conseguem acompanhar a evolução natural de um produto construído e transformado, que acelerou o conhecimento de nós mesmos e do nosso contexto, colocando-nos num patamar egocêntrico de conhecimento – o Homem domina o Saber.

De forma autoritária, o computador assume o seu papel de redefinidor de formas, de conceitos estéticos e, até, artísticos, de tal forma que a vida ocidental gira à volta dele. É neste sentido que vislumbrámos um mundo transformado em linguagem assembler (binária), em que tudo é passível de ser transformado em consequências infinitas de zeros e uns, para melhor ser compreendido e passível de ser difundido. É a era global a funcionar na sua plenitude, ainda que dividida por uma barreira desenvolvimental – o hemisfério norte económica e socialmente desenvolvido e o hemisfério sul, a quem é vedado o desenvolvimento sustentado e consequente acesso à informação.

Em suma, o autor define a mutação antropológica da era tecnológica, segundo dois conceitos: necessidade - científica: de formar, de conhecer e de difundir; e liberdade - cultural: de criar, recriar, aceder e compreender a diferença em tempos de cólera obsessiva pela normalização, também ela necessária, a nível do acesso à informação, mas recusável, no que concerne ao seu conteúdo.