3.03.2006

Espaços esquecidos

Zobaida é uma cidade tanto fantástica quanto fantasmagórica.

Feita para ser um labirinto da luxúria tornou-se, com o tempo, numa pálida imagem do que foi quando idealizada.

Tal como esta, a vontade de reviver é tão pujante que os limites para a sua reconstrução são facilmente ultrapassáveis.

Neste processo de passagem de obstáculos há recordação viva, esquecemo-nos que o passado não se repete, ou antes, repete-se, por vezes, mas segundo novos padrões, deixando apenas uma pálida imagem do que foi e, por isso, impossibilitando o retorno da tal emoção à tempos sentida.

Neste processo reedificativo, desvanecem sonhos, azedam desejos, aligeiram-se vontades. Permanece apenas a sensação de vazio e a certeza da frustração por não voltarem outros tempos memoráveis.

Assim nasce o esquecimento.

3.02.2006

Espaços apalavrados


Do gesto à palavra vai um processo de aprendizagem da verbalização de um acto.

Permite ramificar ideias, comparar e discutir, mas inviabiliza a pureza da comunicação e a duplicidade do que é dito, pois aos gestos correspondiam vários ideias, às palavras - a dureza da honestidade e a sua (in)compreensão.

É que as palavras têm o dom de limitar a imaginação, dão-lhe balizas.

Quando não utilizadas, permitem uma maior veracidade. É como se o silêncio fosse de ouro e permitisse o entendimento pleno do que foi expressado e do que podia ter sido dito.

Porém, quando nos limitamos à construção frásica, condensamos sentimentos, vontades, dúvidas e gestos à rudeza de um símbolo, ou conjunto deles.

Digamos que a escrita esgota sentidos, enquanto que a não comunicação abre valas para o desconhecido.

Contudo, o som organizado também se esgota. Desta feita, a única opção lógica será comunicar verbalizando o que é pretendido de forma mais ou menos aclarada.

Trata-se de um ciclo vicioso o de apalavrar sentidos, que acaba na monotonia e recomeça na esperança.

3.01.2006

Qé que estás dezendo!?

- O mito é um modelo arquitepo.
- A questão começou a aparecer, se a Terra não fica no centro, como é que podemos ser inseridos na nossa nova Terra?
- O mito é uma realidade extremamente complexa que pode ser aportada e interpretada em prespectivas mílipicas e complementares. O mito porcura maneira de dar sentido ao que se não compreende.
- Com a teoria de Descartes é que apareceu a moeda, a escrita e o calendário, tudo baseado na razão.
- (...) ou seja, se um terramoto destruisse algo, o homem diria por exemplo que era um Deus que o estava a punir por trabalhar pouco, e todos trabalhavam muito mais.
- A importância do contributo de Freud para o estudo do homem é que ele estudou a consciência do homem ou seja psíquica do homem. Ele diz que o universo é una universal.

2.24.2006

Espaços memoráveis

A memória é volátil, altera-se com o passar dos acontecimentos.

Deambula por entre factos e contextos e é mutável por eles mesmos. Tantos por uns que se lhe sobrepõe em importância social, quanto por outros mais confortáveis para a evolução da civilização.

Quando pessoal, a memória esvai-se com o tempo. Porém, quando colectiva, mantêm-se para além dos intervenientes e das vontades, esfumando-se ora quando saturado pelo manuseamento, ora quando tornado irrelevante ou obsoleto pela pertinência.

É uma forma estranha a da lembrança. O que vemos é nosso, não é o que foi e nunca tornará a ser o que era, contudo, mantêm-se inalterada em momentos virtuais, ainda que irreais na materialidade.

Interessante o processamento da memória, sempre selectivo, tanto para a permanência, quanto para a dissolução na bruma cerrada do tempo. Ideias, pessoas, vidas pululam o próprio passado, mas essas mesmas são efémeras. Apesar de deixarem um rasto de vida, esvaem-se pela calada, quando ansiamos pelo seu regresso.

Eufémia é assim, esquece a memória que a criou, contorce-se com a catadupa de acontecimentos que a originou e reformula-se com o presente visível, ilusório, em que vive.

2.22.2006

Qué que estás dizendo!?

Perlustrando patética petição produzida pela postulante, prevemos a possibilidade para pervencê-la porquanto perecem pressupostos primários permissíveis para propugnar pelo presente pleito pois prejulgamos pugna pretárita perfeitíssima.
Enviado por JP Miranda

2.21.2006

dilemas existenciais

a minha rua tem paralelepípedos feito de paralelogramos.

seis paralelogramos formam um paralelepípedo.

mil paralelepípedos formam uma paralelepipedovia.

uma paralelepipedovia tem mil paralelogramos.

então uma paralelepipedovia é uma paralelogramolândia?

Enviado por JPMiranda

2.20.2006

Pensamentos transviados!

A boa caricatura é a auto-caricatura, uma vez que é a única incapaz de ferir susceptibilidades.


MESQUITAS, Grande (O). (2006). Conversas matutinas. Porto: Ed. Ribeira, p. tantas (adapt.)

2.15.2006

Corrente de cuscos!

Cu(s)cando um pouco sobre mim por solicitação imperial , cá vou eu , quioske, impessoal e intransmissível!

5 traços de personalidade

- Ideólogo (as postas brotam mas não passam de pescadas);

- Lamacento (uso sempre as palavras erradas para dizer o que quero);

- Positivista (vejo sempre o lago positivo da coisa, mesmo que seja muito má);

- Curioseiro (gosto de saber tudo o que se passa à minha volta, menos aspectos pessoais);

- Alternativóide (sou como sou, diferente, se não gostam das minhas calças brancas com bolas rosa choque, tanto melhor, menos um que tenho de aturar).


5 hábitos estranhos

- desifecto sempre a sanita antes de me sentar, quando não posso, não sento;

- amontoou papelada por todo o lado e de anos há (ou à!?) muito idos;

- deixo sempre (ou quase) o melhor para o fim;

- acabo no último dia, à última hora, 1 minuto antes da data limite;

- quando estou nervoso, coço a orelha como se não houvesse amanhã!

2.14.2006

Teorias profundas

A caminho da labuta, em conversas animadas pelo sono que desprega tarde as pestanas, cedo os elementos nos presenteiam com um perfume acre acastanhado.

Começa, então, a congeminar-se uma teoria explicativa do observável, antes olfactável: o cheiro a merda!

Digo para comigo que o problema é da chuva, ou melhor, da falta dela, é que as fezes a caminho da estação de tratamento vão resvalando na tubagem, como não chove, vão deixando resquícios à sua passagem!

Ora com o acumular dos arranhões e com a falta de água, vai-se libertando, progressivamente, o dito aroma.

Bom, tudo pareceria verosímil, se a Gaja Boa não tivesse, logo de seguida, replicado nos seguintes moldes.

Manifestou ela alguma estupefacção pela minha teoria parcamente defendida é que, de facto, o problema não tem a ver com a chuva ou falta dela, ao invés, está relacionada com a ingestão de poucos líquidos por parte da população.

É que como não se molha, mas gela-se, as pessoas têm menor vontade de ingerir líquidos e mais para comidas quentes, logo, de maior grau de dificuldade digestiva.

Portanto, defecam bananas com casca em vez de o fazerem sem ela.

Com o tempo e com o percurso, vão deixando esses tais resquícios que, com o acumular dos ditos arranhões, vão aumentando o valor nutritivo do aroma em causa.

Ora, se chovesse, era outra coisa, mesmo que a lasca fosse rija, a água amolecia-a, não permitindo tal concentração nas tubagens.


Como é bom utilizar o método científico antes do pequeno almoço!

2.11.2006

Wondering Wondering hopeless Dawn

Mais uma passagem pelo estreito, o meu barco de pesca range com mais persistência a cada nó de impeto somado... a pesca está fraca, mas não me importo. Neste mundo de insólitos e indignos, brilho em cada porto, quase elevado ao estatuto de celebridade nos sorrisos e no trato, e pergunto-me se serei digno. A aura de aventureiro, de prescutador de segredos inusitados, navegante das alvas argos aladas persegue-me em cada olhar, em cada mordomia e protocolo coloquial, e pergunto-me se serei digno...
Resta-me o conforto da verdade da minha veracidade, trato o peixe acima de mim, e hoje a pesca nem foi má... acho que já me sinto melhor. Insólito? Talvez. Indigno? "Not in a million years!"

"Out here in the perimeter there are no stars, out here we are stoned, imaculate."

Ni!

2.06.2006

Dupla personalidade


Continuo a não compreender!
Nuns às bolinhas, noutros liso;
À esquerda ou à direita;
Verde ou preto;
Arial ou Book Antigua!?
Como em tudo, há sempre uma outra máscara que podemos colocar. Após longos dias de postagem tripla, o Quioske ganhou vida própria e aparece com o vestido que melhor lhe assenta.
Bem haja amigo Quioske por tal altruísmo!

2.05.2006

Placa giratória

O brasileiro radicado na Suiça senta-se ao meu lado: - Pô, aqui sozínhus... fodê, melhó bebê juntos..." o silêncio do meu sorriso admite aquilo, tal como o olhar lânguido do barman do hotel ao polir um copo, silêncio só quebrado pelo martelar de uma sinatrada ao piano.
Mas logo a matraca baiana dispara temas como trabalho, surf, batucada, "pô" praqui, pô, fodê pra lá, as frases atingem-me como um martelo pneumático no asfalto da minha alma já amaciada pelo fluir de "finos" sem conta, tão sem conta que nem o barman sabe já em quantos vai, talvez por isso só me ter cobrado dois, e depois sou eu que estou bêbado. Bah, acho que na realidade ele curtiu-me, do género, "caralho, este gajo bebe, e diz umas merdas"... agora, que merdas, não me lembro. Os minutos seguem-se ao ritmo do swing e das jolas, até que num repique, a bateria baiana, sem nunca perder o compasso, penetra nos meandros da identidade, da pertença, das raízes, e aí desperto, e reparo pela primeira vez neste indio de tez escura, de olhar despreocupado, mesmo quando refere as coisas deveras introspectivas, neste viajante, que apesar da distancia cultural e vivencial, desenhou a ponte que liga todos os seres vivos... lutar por uma existência que se resume a conquistarmos um espaço onde somo desejados, queridos, não julgados e amparados, o espaço a que possamos chamar lar.
O músico arruma o estaminé, o brasileiro não pára, volta ao "surfi", ao samba. Nesta placa giratória de gentes espero o momento de ser catapultado para mais um destino, mais um fado.
Mando vir mais uma cerveja... a segunda, pelos vistos.

Ni!

2.02.2006

Declaração pública

Em virtude da declaração pública do dia de ontem referenciada como "p-u-t-a q-u-e o-s p-a-r-i-u" vimos por este meio fazer um pedido público de desculpas à blogger pelo referido.

Uma vez que o layout se mantém com a mesma codificação, apenas maçariquices pessoais poderão ter despoletado tal mal entendido.

Pelo sucedido, retracto-me do que foi dito, agradecendo os comentários expostos e os votos de confiança inclusos, mordiscando até, uma tentativa gorada de sublevação popular ao designar o sistema virtual em que nos colocámos como, passo a citar: É o fascismo pá!.

Uma vez que conhecemos as tentativas anárquicas de levantamento de rancho da dita blogueira, vimos, desta forma, alhear-nos das suas intenções malévolas de fazer rebentar um motim contra o bem-aventurado (cujo nome não podemos mencionar).

Começamos, pois, a considerar a hipótese já levantada pelas entidades competentes, de estar a ser urdido um conluio entre alguns elementos subversivos, com vista a fazer alguns inocentes postadores se rebelarem contra a situação.

Passo, pois, a mencionar alguns desses malfeitores que, na sua intolerável pertinácia, insistem em ultrapassar as reais determinações emanadas para o bem comum da nação.
São eles:

bugo hrito - ancião japonês (antigo soldado da II GG, escondido nas florestas do monte Fuji);
avin - judeu ultra-conservador (os seus cachos de cabelo colados ao chapéu, dão-lhe um ar jovial e respeitoso, porém, esconde a sua faceta de apostador compulsivo. à noite, é considerado o maior especialista em corridas de camelos em feiras populares);

farael - extremista palestiniano (fakir malabarista, gosta de dormir apoiado numa só perna);

jlack bak - sueco pacato (tem estranhos hábitos flatulênticos, de intensidade extrema - muito perigoso);

roonj_mita - turquemenistã anarca (fugitiva em paradeiro incerto por ser responsável pelos rebentamentos no gasoduto europeu);

emia - finlandesa de carrapitos (líder do grupo radical cinzeiro luminoso);

calegius - russo boiardo (perseguido pelos mencheviques quando da revolução, vive, actualmente, disfarçado com uma cabeleira loira, postiça);

aonsfalto - islandês ressabiado com o frio constante que sente em tais latitudes;

danpora - paquistanesa ninfomaníaca (ganhou esta faceta por só ter conhecido homens de bigode, confirmadores das más línguas que por aí se dizem)

tiguel merceleiros - português barrigudo e luzidio (pelo excesso de enchidos e de vinho carrascão, apresenta-se como um possante português de bigode retorcido);

sepe pantiago - nepalês aparentemente calmo (responsável pelo assassínio da família real nepalesa, é louco pela auto-flagelação);

drefdy - tirolês eremita com dupla personalidade (sempre quis ser um pinguim, para poder voar);

navaleiro que diz ci - marroquino pescador sibilante (faz todas as semanas a viagem pelo estreito de Gibraltar, é mau pescador mas rico comó car....).

Quem os identificar, por favor contacte as entidades competentes no sentido de não importunarem que, na sua inocente perspicácia, pretende dominar o mundo.

1.25.2006

O que se diz por aí!

M473M471C0 (53N54C1ON4L):

4S V3235 3U 4C0RD0 M310 M473M471C0.

D31X0 70D4 4 4857R4Ç40 N47UR4L D3 L4D0 3 P0NH0-M3 4 P3N54R 3M NUM3R05.

C0M0 53 F0553 UM4 P35504 5UP3R R4C10N4L.

540 5373 D1570, N0V3 D4QU1L0...

QU1N23 PR45 0NZ3...

7R323N705 6R4M45 D3 PR35UNT0...

M415 L060 C410 N4 R34L 3 C0M3Ç0 4 F423R V3R505 D3 4M0R C0M R1M4 ...

0U 4T3 53M R1M4 N3NHUM4!

Enviado por J.P.Miranda

1.24.2006

Pensamentos transviados

Ora um sistema criado com espírito de infalibilidade e rigidez, perante tal estado de coisas, ou havia de transigir ou de cair - e de ambas as maneiras a perda era inevitável, pois transigir era já negar a sua própria razão de existir. Transigindo na execução mas não na essência, tornou-se paradoxal e o sistema caiu pelas duas vias.


TENREIRO, A. Guerra. Douro: Esboços para a sua História Económica - Conclusões. Separata dos Anais do IVP. Porto: IVP, 1944. p. 32.

1.20.2006

Conversas em família

Diz o mano:

Dizem que a profissão mais antiga do mundo foi a prostituição.

Não posso concordar. Até porque não havia dinheiro quando a vida em sociedade começou e, se para o homem bastava dar com uma moca na cabeça da mulher e arrastá-la para a sua caverna, porque carga de água haveria de pagar?

Dizem então que a primeira profissão deve ter sido um dos trabalhos mais básicos, como agricultura ou caça.

Embora concorde que tenham sido das primeiras profissões, a original não foi, até porque no início não havia ferramentas para agricultura nem armas para caçar.

Sugerem então que tenha sido o ensino.

Mas para ensinar é preciso aprender. É a história de quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Neste caso, o estudante ou o professor? Ninguém nasce ensinado, logo teria de estudar primeiro.

Mas no início não acredito que o homem tenha partido para esta actividade assim de arranque.

Temos de nos colocar na pele desse primeiro homem para perceber.

Então, o homem social nasce. Um homem qualquer, chamemo-lhe Adão, só, sem saber o que fazer.

Qual a sua primeira iniciativa? Obviamente, coça os tomates!

Assim sendo, a primeira profissão do mundo foi claramente... funcionário público!

Digo eu:

Caro Mano,

Muito me apraz que reflictas sobre estes problemas existenciais, que tanto têm ocupado a Humanidade desde que se construiu como tal!

Devo porém, reflectir sobre o que disseste colocando outras questões, paralelas, que poderão ajudar na tua busca pela profissão um.

Antes de mais, concordo com a acepção que fazes sobre a prostituição, de facto, assim é, qual dinheiro, qual troca directa, qual quê? Sarrafada na tola e lá está um naco de carne ao alto para aliviar tensões!

Quanto à agricultura ou caça, parece-me complexo pensá-la como a 1ª profissão de facto, porque, para isso, seria preciso saber o que plantar ou construir instrumentos de caça. Neste caso, a labuta inicial seria obra de um engenheiro agrónomo, de um metalúrgico ou carpinteiro, o que me parece elaborado demais para períodos tão recuados!

Quanto ao professor ou aluno... Nada a dizer, correctíssima a dissertação!

Então, pensemos, estou só, abandonado, sem ninguém para me auxiliar ou para me ensinar algo, sem um naco para me aliviar da lufa-lufa do dia-a-dia, sem instrumentos para caçar ou capacidade para plantar algo, sem dinheiro para gastar ou, que seja, sem uma cervejita, sequer, para matar o secão!

Que faço?!

Pois muito simples, dedico-me à mesma amiga que, tu crês, deu origem à primeira profissão! Porém, não a uso lânguida e pacientemente para coçar, ao invés, uso-a de forma enérgica e sábia... de forma a criar movimento e vida!

Lá está meu irmão, a primeira profissão foi pessoal e intransmissível, chamaram-lhe de friccionista, exactamente o que alguns fazem, entre baba e papelada, ainda hoje, contemplando o presuntito que deambula de mão em mão!