3.14.2006

Espaços subtis

Estranhos espaços os que habitámos! Como se estivéssemos confinados à presença assídua de uma gaiola geográfica que nos imprime uma estada.

Somos, por isso, o reflexo de um contexto, antes, de um estado de graça colectivo que nos indica uma conduta, um rumo a seguir. Como se não tivéssemos direito a opinar sobre onde, quando e como trabalhar o nosso destino.

Moldados pelos que nos rodeiam, vivemos um mundo concreto, num espaço designado, com barreiras mentais profundas, aplicadas a nós e aos que connosco vegetam.

Três vezes realidade é o caminho que o grupo nos indica.
Vives aqui, com isto e aquilo e sem mais aquele objecto porque não é para ti, é para o outro!

Designámos pertences e sentimentos como se fossem todos iguais, quando não se aplicam, damos-lhe um exemplo prático e torna-se, desde logo, parecido com, logo, explicado.

É explicado, logo existe!

Tens fé, logo pensas no bem comum!

Acreditas no milagre, logo és crente!

Tudo é real e toda a explicação é válida, mesmo que o fenómeno não esteja explicado.

A irrealidade, não tem espaço, não existe, não pensa, não vive! É a estultícia de que falava Erasmus e quem a elogiar, não é estulto, é estultíssimo!

Então, se fomos designados para determinado local, não teremos nós o direito libertário de sermos irreais, de idealizarmos, de vivermos algo que vai para além da prisão última que é a consciência!?

Voto contra o destacamento por conveniência, dos lugares onde se vive!

Voto na liberdade de não existir!

Voto pela qualidade da vida irreal e da possibilidade de voar sem levantar!

Exijo viver como quero, sem paredes e sem ser obrigado a seguir o bom caminho que nos leva à velhice!


Assim se vivia em Armilla, antes de ser destruída pela vã lucidez da humanidade.


3.13.2006

Pensamentos transviados

O movimento blogueiro é realmente interessante!

Leva-nos a viajar por outras realidades que, qual necessidade voyeurista, nos faz conhecer outras pessoas sem as vermos realmente e conhecendo apenas a sua melhor máscara. É o que alguém designa por amigo virtual!

Lemos e comentamos a sua actividade periódica, sentimos necessidades, vontades e desejos escondidos por entre palavras, tantas vezes, inusitadas.

Noutros casos, ao viajar por mundos diferentes, criámos resistências por se dedicar a interesses diversos dos nossos, impedindo-nos de comentar e de voltar.

Porém, outros há que, apesar da pertinência e extrema generosidade, apresentam-se desprovidos de comentários, apesar de serem estes os que necessitam de maior atenção.

Falo do blog P'los Animais, cujo número de comentário é, em média, reduzido ao número redondo que nada diz.

Talvez reflicta o quanto desconfortável é ver a miséria humana na sua faceta mais original: a do desprezo para com outros seres semelhantes, de carne trémula, cujos direitos são semelhantes aos nossos, mas que, tantas vezes, são considerados inferiores.

Talvez reflicta uma vontade de viver realidades cor de rosa, sem pensarmos na nossa realidade insana.

Talvez reflicta a insensibilidade que, pelos mass media vemos, todos os dias, enquanto mastigamos mais um chocolatito vendo o mundo esvair-se lá fora.

Há tempos, postamos algo sobre o parasitismo humano... realmente confirma-se.

Não se enganem, ele começa em mim!

3.10.2006

Espaços apalavrados - reloaded

Espaços apalavrados, imaginados ou mimetados, todos eles têm o valor que lhe queiramos dar!

Uns, sob a forma de caracteres, propiciam a descodificação, outros, gesticulados, são interpretados segundo os olhos que o bebem.

É que a mensagem que todas as coisas emanam, reflecte uma ideia, transmitem algo, não que ela seja inteiramente a mais correcta ou verdadeira. Por vezes, mensagens há que transmitem um valor errado outras, na sua inverosimilhança, enviam o sinal correcto.

É o tal sinal tresmalhado que enviamos nos momentos piores e que é inacessível à massa. O mesmo que, no discurso, permite perceber anseios e vontades escondidas por detrás de palavras inauditas, essas mesmas que, por ventura, estão por detrás no monitor.

Assim é Hipácia, a cidade irreal, em que tudo tem um valor simbólico, nenhum valor factual.

3.03.2006

Espaços esquecidos

Zobaida é uma cidade tanto fantástica quanto fantasmagórica.

Feita para ser um labirinto da luxúria tornou-se, com o tempo, numa pálida imagem do que foi quando idealizada.

Tal como esta, a vontade de reviver é tão pujante que os limites para a sua reconstrução são facilmente ultrapassáveis.

Neste processo de passagem de obstáculos há recordação viva, esquecemo-nos que o passado não se repete, ou antes, repete-se, por vezes, mas segundo novos padrões, deixando apenas uma pálida imagem do que foi e, por isso, impossibilitando o retorno da tal emoção à tempos sentida.

Neste processo reedificativo, desvanecem sonhos, azedam desejos, aligeiram-se vontades. Permanece apenas a sensação de vazio e a certeza da frustração por não voltarem outros tempos memoráveis.

Assim nasce o esquecimento.

3.02.2006

Espaços apalavrados


Do gesto à palavra vai um processo de aprendizagem da verbalização de um acto.

Permite ramificar ideias, comparar e discutir, mas inviabiliza a pureza da comunicação e a duplicidade do que é dito, pois aos gestos correspondiam vários ideias, às palavras - a dureza da honestidade e a sua (in)compreensão.

É que as palavras têm o dom de limitar a imaginação, dão-lhe balizas.

Quando não utilizadas, permitem uma maior veracidade. É como se o silêncio fosse de ouro e permitisse o entendimento pleno do que foi expressado e do que podia ter sido dito.

Porém, quando nos limitamos à construção frásica, condensamos sentimentos, vontades, dúvidas e gestos à rudeza de um símbolo, ou conjunto deles.

Digamos que a escrita esgota sentidos, enquanto que a não comunicação abre valas para o desconhecido.

Contudo, o som organizado também se esgota. Desta feita, a única opção lógica será comunicar verbalizando o que é pretendido de forma mais ou menos aclarada.

Trata-se de um ciclo vicioso o de apalavrar sentidos, que acaba na monotonia e recomeça na esperança.

3.01.2006

Qé que estás dezendo!?

- O mito é um modelo arquitepo.
- A questão começou a aparecer, se a Terra não fica no centro, como é que podemos ser inseridos na nossa nova Terra?
- O mito é uma realidade extremamente complexa que pode ser aportada e interpretada em prespectivas mílipicas e complementares. O mito porcura maneira de dar sentido ao que se não compreende.
- Com a teoria de Descartes é que apareceu a moeda, a escrita e o calendário, tudo baseado na razão.
- (...) ou seja, se um terramoto destruisse algo, o homem diria por exemplo que era um Deus que o estava a punir por trabalhar pouco, e todos trabalhavam muito mais.
- A importância do contributo de Freud para o estudo do homem é que ele estudou a consciência do homem ou seja psíquica do homem. Ele diz que o universo é una universal.

2.24.2006

Espaços memoráveis

A memória é volátil, altera-se com o passar dos acontecimentos.

Deambula por entre factos e contextos e é mutável por eles mesmos. Tantos por uns que se lhe sobrepõe em importância social, quanto por outros mais confortáveis para a evolução da civilização.

Quando pessoal, a memória esvai-se com o tempo. Porém, quando colectiva, mantêm-se para além dos intervenientes e das vontades, esfumando-se ora quando saturado pelo manuseamento, ora quando tornado irrelevante ou obsoleto pela pertinência.

É uma forma estranha a da lembrança. O que vemos é nosso, não é o que foi e nunca tornará a ser o que era, contudo, mantêm-se inalterada em momentos virtuais, ainda que irreais na materialidade.

Interessante o processamento da memória, sempre selectivo, tanto para a permanência, quanto para a dissolução na bruma cerrada do tempo. Ideias, pessoas, vidas pululam o próprio passado, mas essas mesmas são efémeras. Apesar de deixarem um rasto de vida, esvaem-se pela calada, quando ansiamos pelo seu regresso.

Eufémia é assim, esquece a memória que a criou, contorce-se com a catadupa de acontecimentos que a originou e reformula-se com o presente visível, ilusório, em que vive.

2.22.2006

Qué que estás dizendo!?

Perlustrando patética petição produzida pela postulante, prevemos a possibilidade para pervencê-la porquanto perecem pressupostos primários permissíveis para propugnar pelo presente pleito pois prejulgamos pugna pretárita perfeitíssima.
Enviado por JP Miranda

2.21.2006

dilemas existenciais

a minha rua tem paralelepípedos feito de paralelogramos.

seis paralelogramos formam um paralelepípedo.

mil paralelepípedos formam uma paralelepipedovia.

uma paralelepipedovia tem mil paralelogramos.

então uma paralelepipedovia é uma paralelogramolândia?

Enviado por JPMiranda

2.20.2006

Pensamentos transviados!

A boa caricatura é a auto-caricatura, uma vez que é a única incapaz de ferir susceptibilidades.


MESQUITAS, Grande (O). (2006). Conversas matutinas. Porto: Ed. Ribeira, p. tantas (adapt.)

2.15.2006

Corrente de cuscos!

Cu(s)cando um pouco sobre mim por solicitação imperial , cá vou eu , quioske, impessoal e intransmissível!

5 traços de personalidade

- Ideólogo (as postas brotam mas não passam de pescadas);

- Lamacento (uso sempre as palavras erradas para dizer o que quero);

- Positivista (vejo sempre o lago positivo da coisa, mesmo que seja muito má);

- Curioseiro (gosto de saber tudo o que se passa à minha volta, menos aspectos pessoais);

- Alternativóide (sou como sou, diferente, se não gostam das minhas calças brancas com bolas rosa choque, tanto melhor, menos um que tenho de aturar).


5 hábitos estranhos

- desifecto sempre a sanita antes de me sentar, quando não posso, não sento;

- amontoou papelada por todo o lado e de anos há (ou à!?) muito idos;

- deixo sempre (ou quase) o melhor para o fim;

- acabo no último dia, à última hora, 1 minuto antes da data limite;

- quando estou nervoso, coço a orelha como se não houvesse amanhã!

2.14.2006

Teorias profundas

A caminho da labuta, em conversas animadas pelo sono que desprega tarde as pestanas, cedo os elementos nos presenteiam com um perfume acre acastanhado.

Começa, então, a congeminar-se uma teoria explicativa do observável, antes olfactável: o cheiro a merda!

Digo para comigo que o problema é da chuva, ou melhor, da falta dela, é que as fezes a caminho da estação de tratamento vão resvalando na tubagem, como não chove, vão deixando resquícios à sua passagem!

Ora com o acumular dos arranhões e com a falta de água, vai-se libertando, progressivamente, o dito aroma.

Bom, tudo pareceria verosímil, se a Gaja Boa não tivesse, logo de seguida, replicado nos seguintes moldes.

Manifestou ela alguma estupefacção pela minha teoria parcamente defendida é que, de facto, o problema não tem a ver com a chuva ou falta dela, ao invés, está relacionada com a ingestão de poucos líquidos por parte da população.

É que como não se molha, mas gela-se, as pessoas têm menor vontade de ingerir líquidos e mais para comidas quentes, logo, de maior grau de dificuldade digestiva.

Portanto, defecam bananas com casca em vez de o fazerem sem ela.

Com o tempo e com o percurso, vão deixando esses tais resquícios que, com o acumular dos ditos arranhões, vão aumentando o valor nutritivo do aroma em causa.

Ora, se chovesse, era outra coisa, mesmo que a lasca fosse rija, a água amolecia-a, não permitindo tal concentração nas tubagens.


Como é bom utilizar o método científico antes do pequeno almoço!

2.11.2006

Wondering Wondering hopeless Dawn

Mais uma passagem pelo estreito, o meu barco de pesca range com mais persistência a cada nó de impeto somado... a pesca está fraca, mas não me importo. Neste mundo de insólitos e indignos, brilho em cada porto, quase elevado ao estatuto de celebridade nos sorrisos e no trato, e pergunto-me se serei digno. A aura de aventureiro, de prescutador de segredos inusitados, navegante das alvas argos aladas persegue-me em cada olhar, em cada mordomia e protocolo coloquial, e pergunto-me se serei digno...
Resta-me o conforto da verdade da minha veracidade, trato o peixe acima de mim, e hoje a pesca nem foi má... acho que já me sinto melhor. Insólito? Talvez. Indigno? "Not in a million years!"

"Out here in the perimeter there are no stars, out here we are stoned, imaculate."

Ni!

2.06.2006

Dupla personalidade


Continuo a não compreender!
Nuns às bolinhas, noutros liso;
À esquerda ou à direita;
Verde ou preto;
Arial ou Book Antigua!?
Como em tudo, há sempre uma outra máscara que podemos colocar. Após longos dias de postagem tripla, o Quioske ganhou vida própria e aparece com o vestido que melhor lhe assenta.
Bem haja amigo Quioske por tal altruísmo!

2.05.2006

Placa giratória

O brasileiro radicado na Suiça senta-se ao meu lado: - Pô, aqui sozínhus... fodê, melhó bebê juntos..." o silêncio do meu sorriso admite aquilo, tal como o olhar lânguido do barman do hotel ao polir um copo, silêncio só quebrado pelo martelar de uma sinatrada ao piano.
Mas logo a matraca baiana dispara temas como trabalho, surf, batucada, "pô" praqui, pô, fodê pra lá, as frases atingem-me como um martelo pneumático no asfalto da minha alma já amaciada pelo fluir de "finos" sem conta, tão sem conta que nem o barman sabe já em quantos vai, talvez por isso só me ter cobrado dois, e depois sou eu que estou bêbado. Bah, acho que na realidade ele curtiu-me, do género, "caralho, este gajo bebe, e diz umas merdas"... agora, que merdas, não me lembro. Os minutos seguem-se ao ritmo do swing e das jolas, até que num repique, a bateria baiana, sem nunca perder o compasso, penetra nos meandros da identidade, da pertença, das raízes, e aí desperto, e reparo pela primeira vez neste indio de tez escura, de olhar despreocupado, mesmo quando refere as coisas deveras introspectivas, neste viajante, que apesar da distancia cultural e vivencial, desenhou a ponte que liga todos os seres vivos... lutar por uma existência que se resume a conquistarmos um espaço onde somo desejados, queridos, não julgados e amparados, o espaço a que possamos chamar lar.
O músico arruma o estaminé, o brasileiro não pára, volta ao "surfi", ao samba. Nesta placa giratória de gentes espero o momento de ser catapultado para mais um destino, mais um fado.
Mando vir mais uma cerveja... a segunda, pelos vistos.

Ni!

2.02.2006

Declaração pública

Em virtude da declaração pública do dia de ontem referenciada como "p-u-t-a q-u-e o-s p-a-r-i-u" vimos por este meio fazer um pedido público de desculpas à blogger pelo referido.

Uma vez que o layout se mantém com a mesma codificação, apenas maçariquices pessoais poderão ter despoletado tal mal entendido.

Pelo sucedido, retracto-me do que foi dito, agradecendo os comentários expostos e os votos de confiança inclusos, mordiscando até, uma tentativa gorada de sublevação popular ao designar o sistema virtual em que nos colocámos como, passo a citar: É o fascismo pá!.

Uma vez que conhecemos as tentativas anárquicas de levantamento de rancho da dita blogueira, vimos, desta forma, alhear-nos das suas intenções malévolas de fazer rebentar um motim contra o bem-aventurado (cujo nome não podemos mencionar).

Começamos, pois, a considerar a hipótese já levantada pelas entidades competentes, de estar a ser urdido um conluio entre alguns elementos subversivos, com vista a fazer alguns inocentes postadores se rebelarem contra a situação.

Passo, pois, a mencionar alguns desses malfeitores que, na sua intolerável pertinácia, insistem em ultrapassar as reais determinações emanadas para o bem comum da nação.
São eles:

bugo hrito - ancião japonês (antigo soldado da II GG, escondido nas florestas do monte Fuji);
avin - judeu ultra-conservador (os seus cachos de cabelo colados ao chapéu, dão-lhe um ar jovial e respeitoso, porém, esconde a sua faceta de apostador compulsivo. à noite, é considerado o maior especialista em corridas de camelos em feiras populares);

farael - extremista palestiniano (fakir malabarista, gosta de dormir apoiado numa só perna);

jlack bak - sueco pacato (tem estranhos hábitos flatulênticos, de intensidade extrema - muito perigoso);

roonj_mita - turquemenistã anarca (fugitiva em paradeiro incerto por ser responsável pelos rebentamentos no gasoduto europeu);

emia - finlandesa de carrapitos (líder do grupo radical cinzeiro luminoso);

calegius - russo boiardo (perseguido pelos mencheviques quando da revolução, vive, actualmente, disfarçado com uma cabeleira loira, postiça);

aonsfalto - islandês ressabiado com o frio constante que sente em tais latitudes;

danpora - paquistanesa ninfomaníaca (ganhou esta faceta por só ter conhecido homens de bigode, confirmadores das más línguas que por aí se dizem)

tiguel merceleiros - português barrigudo e luzidio (pelo excesso de enchidos e de vinho carrascão, apresenta-se como um possante português de bigode retorcido);

sepe pantiago - nepalês aparentemente calmo (responsável pelo assassínio da família real nepalesa, é louco pela auto-flagelação);

drefdy - tirolês eremita com dupla personalidade (sempre quis ser um pinguim, para poder voar);

navaleiro que diz ci - marroquino pescador sibilante (faz todas as semanas a viagem pelo estreito de Gibraltar, é mau pescador mas rico comó car....).

Quem os identificar, por favor contacte as entidades competentes no sentido de não importunarem que, na sua inocente perspicácia, pretende dominar o mundo.

1.25.2006

O que se diz por aí!

M473M471C0 (53N54C1ON4L):

4S V3235 3U 4C0RD0 M310 M473M471C0.

D31X0 70D4 4 4857R4Ç40 N47UR4L D3 L4D0 3 P0NH0-M3 4 P3N54R 3M NUM3R05.

C0M0 53 F0553 UM4 P35504 5UP3R R4C10N4L.

540 5373 D1570, N0V3 D4QU1L0...

QU1N23 PR45 0NZ3...

7R323N705 6R4M45 D3 PR35UNT0...

M415 L060 C410 N4 R34L 3 C0M3Ç0 4 F423R V3R505 D3 4M0R C0M R1M4 ...

0U 4T3 53M R1M4 N3NHUM4!

Enviado por J.P.Miranda

1.24.2006

Pensamentos transviados

Ora um sistema criado com espírito de infalibilidade e rigidez, perante tal estado de coisas, ou havia de transigir ou de cair - e de ambas as maneiras a perda era inevitável, pois transigir era já negar a sua própria razão de existir. Transigindo na execução mas não na essência, tornou-se paradoxal e o sistema caiu pelas duas vias.


TENREIRO, A. Guerra. Douro: Esboços para a sua História Económica - Conclusões. Separata dos Anais do IVP. Porto: IVP, 1944. p. 32.

1.20.2006

Conversas em família

Diz o mano:

Dizem que a profissão mais antiga do mundo foi a prostituição.

Não posso concordar. Até porque não havia dinheiro quando a vida em sociedade começou e, se para o homem bastava dar com uma moca na cabeça da mulher e arrastá-la para a sua caverna, porque carga de água haveria de pagar?

Dizem então que a primeira profissão deve ter sido um dos trabalhos mais básicos, como agricultura ou caça.

Embora concorde que tenham sido das primeiras profissões, a original não foi, até porque no início não havia ferramentas para agricultura nem armas para caçar.

Sugerem então que tenha sido o ensino.

Mas para ensinar é preciso aprender. É a história de quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Neste caso, o estudante ou o professor? Ninguém nasce ensinado, logo teria de estudar primeiro.

Mas no início não acredito que o homem tenha partido para esta actividade assim de arranque.

Temos de nos colocar na pele desse primeiro homem para perceber.

Então, o homem social nasce. Um homem qualquer, chamemo-lhe Adão, só, sem saber o que fazer.

Qual a sua primeira iniciativa? Obviamente, coça os tomates!

Assim sendo, a primeira profissão do mundo foi claramente... funcionário público!

Digo eu:

Caro Mano,

Muito me apraz que reflictas sobre estes problemas existenciais, que tanto têm ocupado a Humanidade desde que se construiu como tal!

Devo porém, reflectir sobre o que disseste colocando outras questões, paralelas, que poderão ajudar na tua busca pela profissão um.

Antes de mais, concordo com a acepção que fazes sobre a prostituição, de facto, assim é, qual dinheiro, qual troca directa, qual quê? Sarrafada na tola e lá está um naco de carne ao alto para aliviar tensões!

Quanto à agricultura ou caça, parece-me complexo pensá-la como a 1ª profissão de facto, porque, para isso, seria preciso saber o que plantar ou construir instrumentos de caça. Neste caso, a labuta inicial seria obra de um engenheiro agrónomo, de um metalúrgico ou carpinteiro, o que me parece elaborado demais para períodos tão recuados!

Quanto ao professor ou aluno... Nada a dizer, correctíssima a dissertação!

Então, pensemos, estou só, abandonado, sem ninguém para me auxiliar ou para me ensinar algo, sem um naco para me aliviar da lufa-lufa do dia-a-dia, sem instrumentos para caçar ou capacidade para plantar algo, sem dinheiro para gastar ou, que seja, sem uma cervejita, sequer, para matar o secão!

Que faço?!

Pois muito simples, dedico-me à mesma amiga que, tu crês, deu origem à primeira profissão! Porém, não a uso lânguida e pacientemente para coçar, ao invés, uso-a de forma enérgica e sábia... de forma a criar movimento e vida!

Lá está meu irmão, a primeira profissão foi pessoal e intransmissível, chamaram-lhe de friccionista, exactamente o que alguns fazem, entre baba e papelada, ainda hoje, contemplando o presuntito que deambula de mão em mão!

1.18.2006

Notícias do passado



Em 1723, uma companhia comercial foi criada, visando, principalmente, o comércio esclavagista e o contrabando de produtos trazidos por embarcações estrangeiras.

Organizada com a protecção da coroa, sob o influxo da onda das companhia que então inundava a Europa, foi chamada de Companhia do Corisco, ilha encostada à colónia espanhola de Muño, em África. De capital francês e parte da administração francesa, a companhia teve curta duração.

Até Março de 1778, Portugal continuou a contratar indigenas da costa africana, a partir da ilha de Corisco, tendo como interlocutores comerciais a França, com quem contratou a entrega de mais de 49.000 negros da Guiné; com Espanha, formalizando 13 tratados comerciais e com Inglaterra, 2 tratados.

A Companhia, destinada a arrebanhar mercadorias pelo saque e homens pelo rapto, tinha como principais colaboradores os corisquenhos, que também possuiam escravos próprios, geralmente pamues e nvikos, sendo célebre o escravo liberto raza pamue, chamado Bakele.

1.13.2006

O Perfume

O olfacto é um dom para quem o tem e uma benção para quem não o possui!

De facto, assim é. É óptimo sentirmos o olor alheio quando de bom tom, aquecido em dias frios e refrescante nas manhãs quentes!
E que dizer do senhor cavalar que, em jejum, trás consigo o esplendoroso rasto a solfamida corporal, vulgo Patchuli!? Tem, portanto, possibilidades dúbias.

Assim acontece com quem se cruza com o improvável, todos os dias!

Em plena actividade matutina senti uma fragrância que, há muito, se tinha evaporado do meu imaginário.

Menina sorridente, maior em idade e pouco mais, tem o estranho hábito de trazer agarrado a si o tristonho e enfadado tresande a naftalina. Esse cheiro esbranquiçado e roliço cuja configuração é consentânea com os gases libertados.

Motivado, por ventura, por um qualquer insuspeito baú, é o cheiro que melhor lhe assenta em humildade e simpatia, confirmada pelas rendinhas que enverga.

Não se veste bem, não se pinta, não é atraente, não tem vivacidade carnal, não cheira a vida, é uma preposição de mulher, é o que é, sem rodeios.

Assim se vive, em volta da naftalina!

1.12.2006

Em flagrante...

O espírito renascentista

O Renascimento dá início à época moderna. A sua vigência e propagação pela Europa, fundamenta-se em dois aspectos fundamentais que importa, agora, ter em consideração.

Por um lado o espírito fervoroso que caracterizou a vida medieval até então, entra em declínio. O humanismo e os valores profanos surgem, agora, ao contrário do que acontecia no passado, como valores inegáveis do intelectual moderno, motivado por um quadro geral de restauração da cultura greco-romana em ruptura com a Idade Média. Tudo o que é humano passa a ser tido em conta e, até, em certos literatos, concebido como o cerne da existência, tal como defende Pico della Mirandola em A dignidade do Homem de 1487: "nada é mais admirável do que o Homem".

Por outro lado, em contraste com o sacerdotalismo medieval, assiste-se à afirmação da supremacia do poder civil sobre as autoridades religiosas e ao fortalecimento do poder real, abrindo portas ao absolutismo que, mais tarde, será apanágio das monarquias europeias. Em Portugal, D. João II (o príncipe perfeito) encarna o reforço do poder real e o desprendimento de limites morais.

Noutro plano, mas não de menor importância, inicia-se a saga dos Descobrimentos, tarefa de cunho universal e planetário, em que os portugueses desempenham papel primordial. Com as descobertas, vêm os progressos das técnicas e da mentalidade científica: a cartografia, a ciência náutica, a astronomia, as ciências naturais e, com eles, mudanças profundas a nível cultural, económico e social.

Surge, então, o capitalismo moderno, o início do processo de globalização do comércio, com novos produtos e novos mercados, deixando de ser limitar à Europa e, por isso, requerendo outras iniciativas de âmbito nacional tendentes à protecção da manufactura interna, reforçando, desse modo, o poder centralizado.

Será esta ambiência de mudança e valorativa do Homem, que levará à reforma protestante e à resposta católica com a Contra-reforma, acontecimento que conduzirá, de novo, a civilização ocidental para o culto do divino em detrimento da relevância humana.

É um mundo em mudança que surge por volta de 1400, é uma sociedade mais distante do medievalismo rural e mais próximo do modernismo comercial. Para isso, contribuiu esta teia de factos e vontades rompendo com o passado próximo e consolidando as formulações do passado longínquo.

Como refere Cabral de Moncada, "depois da Grécia e depois do Cristianismo, nenhuma outra revolução na história do espírito europeu teve até hoje consequências tão transcendentes como o Renascimento". (Filosofia do Direito e do Estado, p. 94).
adaptado de AMARAL, Diogo Freitas do (1999).
História das Ideias Políticas.
v.I. Coimbra: Almedina, 193-195.

1.11.2006

O ressurgimento clássico, por volta de 1400

As soluções artísticas respondem sempre a uma fundamentação histórica do contexto em que surgiram. São, portanto, o resultado da conjugação de factores que justificam o aparecimento de determinada solução artística, em dado espaço.
Relativamente à génese do Renascimento, também factores sociais, económicos e políticos contribuiram para a sua (re)invenção, em Florença, por volta de 1400. Investigações com não mais de duas décadas, relatam circunstâncias especiais que propiciaram o seu aparecimento nesta cidade-estado.
Por volta de 1400, o estado florentino enfrentava uma séria ameaça à sua independência. Milão, cidade em ascensão, tenta dominar toda a Itália, tendo já subjugado as planícies da Lombardia e boa parte das cidade-estado da zona central da Toscana.
A bem sucedida resistência aos intentos do duque de Milão, na área militar, diplomática e intelectual, por parte dos florentinos, propiciaram a elevação de um espírito patriótico que será mantido pela própria populaça, proclamando-se defensora da liberdade contra a tirania do invasor.
Era uma guerra de propaganda, portanto, chefiada, em ambos os lados, por humanistas herdeiros de Petrarca e Boccaccio. O Louvor da cidade de Florença de Leonardo Bruni é disto exemplo, colocando em foco o ideal petrarquiano de um renascimento dos ideiais clássicos.
De facto, esta obra é de vital importância para compreendermos a percepção ideária da opinião pública florentina. Indaga sobre as razões da subjugação, sem custos, dos outros estados da panínsula itálica, ao invés da resistência por si protagonizada, encontrando a resposta no mérito das instituições, nas realizações culturais, na situação geográfica, no espírito do povo, até, nas raízes etruscas da sua pátria.
O orgulho patriótico e o apelo passado implícitos nesta imagem de Florença como a "Nova Atenas", terão despertado um profundo entusiasmo na cidade, lançando-a numa febre construtiva, segundo um novo ideário, de acordo com os cânones de proporção clássicos.
O concurso de 1401-02 para as Portas do Paraíso, do Baptistério, em que ideiais arcaizantes levaram, ainda, vantagem sobre as representações escultóricas individualizadas e de inspiração clássica de Ghiberti, foi o lançamento de um extenso programa de decoração escultórica prosseguido em diversas igrejas, enquanto se dava andamento aos planos para a construção da cúpula do Duomo, que será protagonizado por Brunelleschi e cuja camapnha durará mais de trinta anos, até 1436.
O entusiasmo e fervor patriótico da época, foi, portanto, o ténue motor que levou ao surgimento de uma arte representativa do espírito magnânimo, mas ordeiro, clássico, pelo que a aplicação das suas soluções dogmáticas, surgiu como natural, dentro de uma espírito civil de superioridade intelectual, cultural e, por isso mesmo, civilizacional.

In JANSON, H. W. (1992). História da Arte. 5ª ed. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 391-392.

continua...

Princípios formais do Renascimento

O movimento artístico que designamos por Renascimento, nasceu na Península Itálica, em Florença, nas primeiras décadas do século XV.
De momento, iremos apenas abordar a questão dos seus princípios formais, deixando a justificação do seu aparecimento, para notícia posterior.
Este movimento, complexo e variado, estabeleceu novos princípios de representação, novos métodos de trabalho das formas e, sobretudo, tipificou formulações originais, tanto ao nível da (re)criação de cânones, quanto ao nível da proporcionalidade como medida de todas as coisas.
Tais concepções formais, provêm de duas fontes primordiais: por um lado, a reutilização, após quase um milénio de interregno, das concepções clássicas - motivado pela descoberta de vestígios arqueológicos gregos e romanos, como é exemplo conhecido o levantamento do conjunto escultórico de Laoconte -, por outro lado, inicia-se, de forma corrente, a aplicação, às artes maiores, da perspectiva, descoberta técnica cujas regras de desenho e matemáticas permitem reproduzir o aspecto real da sobreposição dos objectos no espaço.
A requalificação dos ideias gregos e romanos, viu na arquitectura, que dispunha de monumentos clássicos visíveis como fonte de inspiração, um campo privilegiado de difusão, apoiando-se em leis construtivas e decorativas estritas, reproduzindo e reavivando os conceitos clássicos.
O segundo elemento, a perspectiva, foi apenas o mais visível de uma série de descobertas artísticas revolucionárias, como a pintura a óleo, a preparação dos frescos através de cartões, a redescoberta das estátuas equestres, o achatamento dos baixos relevos, os tirantes metálicos nas abóbadas, entre outras. Quanto à perspectiva, permitia um maior realismo na representação, propiciando, novos conhecimentos científicos por parte do executante, sendo, por isso, o percursor da emancipação social e profissional do artista.
De artesão afecto a uma guilda medieval, torna-se indivíduo criador, artista com uma percepção da realidade e sua compreensão pessoal, apesar do respeito pelos cânones representativos. Porém, não demorará muito até que estes mesmos padrões comecem a ser postos em causa, em detrimento de outra realidade idegável, a construção mental do objecto que viam...
continua...

1.09.2006

Monopólios

São chatos os gajos... Vivemos pra negociar, comprar, vender, emprestar, cobrar...
Desculpe, eu só gostava de ser atendido, pensava eu...
Afinal sou mais uma vítima desse jogo... Já não conta o que se vende, o que se empresta e o que se cobra. Não... aquele gajo que espere... que aqui só conta quem joga... as ruas, as estações, as companhias hão-de existir sempre...

Mas, desculpe, excelência, eu só queria ser atendido...

que fazemos nós? revoltamo-nos? insurgimo-nos contra isto? ou alapamos o cu 3 horas à espera para pedir por favor para nos arranjarem mais do que 4 canais para entreter os putos quando os pais querem dar uma queca?

Pensamentos transviados!

Tudo é relativo. O tempo que dura um minuto depende do lado da porta do WC em que se está!

1.05.2006

Transeuntes anónimos

Todos os dias cruzamo-nos com pessoas e lugares anónimos que assim permanecem, para sempre. Outros ficam pela sua simpatia e pela partilha de algo que, para nós, ainda que insignificante, despertam sentimentos.

Este amigo é um dos que, no anonimato da multidão, nunca passa despercebido. É desavergonhado, metediço, oportunista e obcecado por bolas, mas nunca esquece os amigos, quando passa por eles, virtude difícil de se encontrar nos dias introspectivos que correm...

1.04.2006

A escrita e a leitura

Abri sem assunto definido.
O que escrever... como saciar esta vontade de ordenar palavras, fazendo algum sentido e com conteúdo!?
Bom, o assunto custa a pensar e custa ainda mais a sair, porém, a escrita é isso mesmo, a vontade de refazer outra realidade, paralela ou consentânea com o dia-a-dia. Aliás, a prosa não é mais do que isso, a mistura insana ou racional de sensações, ideias, valores ou hábitos que, no seu conjunto, e quando fomentadas da forma correcta, permitem a criação literária.
Ouvi, algures, que em Portugal não se critica o que outros escrevem, não se indica o erro. É melindroso referir a fraca qualidade de outro e ainda mais a nossa.
De facto assim é. Parte de mim e sei que outros o fazem comigo. É como se uma força estranha, mas superior, nos vedasse o acesso à avaliação real do que lemos por aí.
É como se o receio de maltratar o ego do outro passasse por ocultar o que não apreciámos, o que achamos repetitivo ou, simplesmente, o que não gostamos.
É um escudo invisível de defesa, talvez para que não façam o mesmo connosco. É o horror à avaliação, à crítica, à réplica, impedindo-nos, tantas vezes, de sermos verdadeiros, até connosco.
Assim são, também, os dedos que vão dando vida, a conta gotas, ao virtual Quiosk.

1.03.2006

Festibidades

Porque o Natal é quando um Homem quer e porque motivos para festejar há todos os dias, o virtual Quioske deseja a todos boas festas, pelo corpo todo!

12.21.2005

O Amor

Definir o amor, não é fácil: é pessoal e intransmissível.

Tudo o que é escrito, é redutor. Apenas simplifica o seu verdadeiro significado - algo sem chama - mesmo que nos faça corar ou lacrimejar, há medida que os olhos vão absorvendo os elos da mensagem.

Formalmente, a palavra Amor, tem vários significados, dos quais destacamos:

sentimento que predispõe a desejar o bem de alguém; sentimento de afecto ou extrema dedicação; apego; sentimento que nos impele para o objecto dos nossos desejos; atracção; paixão; inclinação; relação amorosa; aventura; adoração; veneração; sensação semelhante à provocada por droga; estado de embriaguez; prazer total; felicidade na presença do enamorado e tristeza na sua ausência...

- Bom, o que é então o amor!?

Será esse sentido de obsessão, essa dedicação cega pelo outro, compreensão total, paixão desenfreada, um charrito de vez em quando!?

- O que raio é o amor!?

Não sei.

Reduzir a palavra a todas aquelas significâncias de compreensão, respeito, carinho, é reduzí-la aos seus sinónimos, algo que é parcial e não completo.

Porém, definí-la como uma dor que aperta o coração e deixa marcas eternas é dizer que, quando se ama, esse sentimento é irrepetível.

- Então o amor será o quê, precisamente?
Talvez um contentamento descontente que só se sente no final da vida, uma espécie de infusão final que nos dá alento para enfrentar a morte... Então a palavra é para a vida ou para a morte, e que dizer dos que nem sequer pensam nisso, nunca amaram!?

Parece acertado pensarmos se amamos ou não quando no leito final, mas o que podemos fazer, aí, para remediar isso!? Nada, apenas constatar... Será o Amor tão malévolo que apenas o podemos consentir e nunca o concertar!?

Perguntas e mais perguntas fazem pensar no sentido da vida, mais do que no sentido do Amor, afinal, pelas várias significações, ela não é mais do que um sinónimo de vida, de impulso vital, quando constatado, quando sentido, quando diferenciado, quando inspirado, quando definido por dicionários, poemas, romances, frases, palavras...

Amor é Amor, sem significado simplista nem consciência de sentimento, é impulso biológico, impulso de luz, tal como a vida, é o sentimento na sua pureza natural, na sua essência mais espiritual, na sua faceta mais inocente e verdadeira.

12.16.2005

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa

12.14.2005

Pensamentos transviados

Não obstante a minha impertinente moléstia das hemorróides, que me embaraçou no passado responder à estimadíssima carta de vossas senhorias, e tem sido tão forte e continuada, que há mais de dez dias me não deixa sair de casa (...)

MANSILHA, João (frei). Correspondência avulsa à Companhia - 23 de Janeiro de 1771.

12.13.2005

Suspiro!

Sem tempo para grandes empreendimentos aplicáveis ao meio físico, resta-me pensar, e mesmo isso por vezes é conflituoso, pois a balança anseia equilibrio, e na falta do (re)confortante tempo a coça-los, ou a bebê-los, elevo o "prato" do mesmo na inocuidade, e lá vou enchendo o "prato" oposto, pensando, nem que seja só nisto.
Este "prato" (cheíssimo) passou a ser o do dia, mas de variedade imensa, sinto-me envelhecer, o tempo que disponho é maioritariamente a pensar preocupadamente e não despreocupadamente como antigamente, como no tempo do "que se foda", "hoje não vou", as variáveis preocupantes acumulam-se, e mesmo sendo de índole alegre e predominantemente "despreocupada", as preocupações potenciam o "g" na equação P=m.g.... foda-se
Faltam-me pessoas, As pessoas... mas eu não tenho receio, confiante de que emergirei sempre sob a aura da minha alegria e despreocupação, pois vale a pena, eu valho a pena para essas pessoas, e elas valem a pena para mim.
Aos meus amigos e irmãos... Ni!

Antes e Depois

Ao vasculhar velhos papéis, deparei com uma pequena relíquia que me pareceu mais contemporânea do que, à partida, pareceria.

É uma singela ficha de leitura sobre as origens da Revolução Francesa de 1789. Preconiza o contexto (entre 1787-1789) que terá levado ao enlace revolucionário, a nível financeiro, económico, social e político.

Apesar do risco de anacronismo, penso ser interessante reflectir sobre a efervescência da altura e sobre a que vivemos nos dias de hoje, uma sociedade mais civilizada, conformada e (des)interventiva, mas preocupada com o amanhã e em busca de novos ideais, à altura, solucionada com a bombarda ideológica – a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Na segunda metade do século XVIII, em pleno cenário francês, sentia-se um clima de crispação generalizado, movido por um vazio de poder efectivo sobre os velhos levantadores de massas - a nobreza e o clero.

Estes, tinham grande relutância em ver os seus privilégios diminuídos pela imposição de novas contribuições à coroa. É que, há altura, falava-se na criação de impostos sobre a propriedade, posse exclusiva das elites.

A sociedade, dominada por corporações burguesas que exerciam pressão sobre a decisão real, pretendem tornar-se hegemónicas, numa corte nobilitada que, a todos o custo, tenta manter a sua posição monopolista conselheira, ao fazedor de leis.

Um novo mundo dá, agora, os primeiros passos: o latifúndio dá lugar à força do comércio e, nesse sentido, a burguesia, proveniente do Terceiro Estado, vê o seu poder justificado pelo apoio popular.

Os anos agrícolas, fracos, não respondem ao aumento do número de bocas a alimentar, levando à fome e ao desconforto e com isso, aumentando a instabilidade e debilitando a noção do poder como disposição divina.

Como contraponto, o atraso industrial e comercial em relação aos insulares, não permite a competitividade dos seus negociantes. No caso vinícola, o crescente comércio dos vinhos de embarque do Alto Douro, em Inglaterra, irá sobrepor-se aos líquidos franceses, em anos climatéricos difíceis para a pureza do néctar.

Os acordos com os Estados Unidos da América independente, no sentido de abrir os portos das Antilhas aos seus produtos e o Tratado de Édem com Inglaterra, veio piorar a situação, uma vez que o mercado transatlântico não se fidelizou aos produtos e o autóctone, viu-se a braços com uma inundação de artigos britânicos de melhor qualidade e preços mais competitivos.

As falências, o desemprego, os baixos salários levam à indignação popular, primeiro passo para extremarem-se posições. Da motivação à destruição é um passo e, no clima de conflitualidade que se vivia na época, as injustiças saltam à vista.

Cresce a contestação à intocável hierarquização desigual das ordens sociais, o poder, mal distribuído, é contestado, os poderes instituídos impedem a modernização, o regime feudal nos campos, impede a liberdade de plantio...

A Revolução Americana de 1775, era a inspiração e tida como uma lufada reformista aos conspiradores que viam no Antigo Regime e no absolutismo, um entrave ao avanço comercial, científico e cultural do país, bem como ao acesso ao poder a que aspiravam.

A massa popular jovem, mais interventiva, via-se desempregada e revoltada com a inércia social que não entendiam. Foram precisamente elas as manipuladas para levar a revolução a bom termo. R.Rémond, designa-as como os motores da revolução.

Por seu turno, a carcaça autoritária, preocupada em manter o poder a todo o custo, repele os intentos renovadores, aumentando, assim, a instabilidade e gerando hostilidade.
Luís XVI joga pelo seguro, colocando-se fatalmente, ao lado da nobreza... Irá custar-lhe a cabeça...

Gira e torna a girar a vã estória dos nossos actos!

12.12.2005

Delicatessen!

Nice Legs

Machadadas democráticas

Em visões televisivas dominicais, fiquei a saber que o canal do Estado apoia dois candidatos à Presidência da República.
Um, com maior projecção, martela na esquerda, tentando dividir votos pelos 4 magníficos e, com isso, mantendo uma confortável vantagem do salvador em relação aos demais.
Outro, às segundas, trina baixinho em favor do ancião, chamando a si votos dos indecisos da esquerda e, com isso, tentando uma segunda volta difícil de acontecer... é que os portugueses ainda não se livraram do síndroma sebastianista!
Assim sim, há imparcialidade no canal público, é só escolher os comentadores correctos...
Mais a mais, que dizer dos outros candidatos renegados pelos media!? Verdadeira machadada democrática, isso sim!

12.07.2005

Bojardas!

Ontem, em audições radiofónicas, sintonizei a Prova Oral, na Antena 3. Programa sobre blogs, especialmente sobre mais um que publicou.

Aproveito este nosso cantinho recôndito para bojardar algumas considerações existenciais que me assomaram naquele momento.

Antes de mais, é de bom agoiro a profusão de livros tendo por base as inúmeras arestas existentes, parece-me ser sintomático de uma lufada de ar fresco na poeirenta papelada que começava a cair em desuso.

Nova interessante e pertinente, também, o facto destes formatos estarem na moda e de já prognosticarem o seu fim... é que no início do século XX fez-se o mesmo em relação à arte e ela aí está, a clamar por atenção.

Porém, nem tudo são rosas... Pseudo-intelectualóides alternativos [obrigado Gaja Boa pela dica] dizem que não têm tempo para ler outros blogs da pseudo-comunidade. Manifestam a sua falta de disponibilidade para se divertirem ao ler um ou de reflectirem ao passar os olhos por outro... É triste a realidade desses que não têm tempo para, sequer, navegar dois minutos por outros locais onde nunca passaram e onde sabem que não voltarão!

Será que esses ditos pseudo têm tempo para respirar, é que quem escreve por cá e não visita outros similares ou divergentes, não deve ter tempo sequer para os lavar no bidé (ou bidet?)!

E que dizer daquela mania imberbe dos que pretendem ser, pela publicação de uma resma, escritores? Será que nunca provaram canja de galinha!? Será que ainda não perceberam que, para se ser escritor, precisam de consultar o dicionário da língua portuguesa!? Será que têm a veleidade de se auto-carimbar sem referências!? E que dizer do sentimento dilacerante de, ao ler os verdadeiros, perceberem que nunca conseguirão escrever assim!? Não lhes dói ou não sentem o toque!? São insensíveis à dor!? E consciência, existe!? E pudor, sabem o que é!?

Isto tudo para dizer que tem sido por aí publicada muita barbaridade, numa política pouco qualitativa de edição, que me parece enganosa e capaz de desacreditar o livro como espaço de boa escrita - literária ou não.

O descrédito é geral, mantém a venda dos clássicos, é certo, mas coloca os novatos promissores, numa posição inglória (essa mesmo!?) pelo mediatismo e pela sobrevivência literária...

Que sirva a quem de direito, porque isto de bojardar é para quem quer, não para quem pode!

12.02.2005

Olhos matinais

Em plena padaria, pela manhã, a tomar o pequeno almoço ensimesmado na minha meia de leite, começo a aperceber-me da existência de sussurros e murmúrios à minha volta.

Os ouvidos, como que fechados ao som exterior, começam a adaptar-se à azáfama que percorre o exíguo espaço.

"Aaaaaaí! Eu vi logo que era o meu bruninho!! Eu disse para comigo, aquele é o meu bruninho!!! Aí que lindo que ele está!!! É o meu bruninho!!!! Dá cá um beijinho bruninho!!!"

Salto a pensar que a senhora se preparava para lambuzar a cara do coitado do rapaz que as estava a servir.

Os dentes amarelecidos por resmas de cigarros que trincou, o fumo cuspido enquanto fala, a subir pelas narinas, dá-lhe um ar dragonesco. Do outro lado, um cheiro acre a perfume bolorento, faz-me notar na cabeleira loira da senhora que toma o seu galão, ondulante e, concerteza, habitada por aqueles pequenos e estranhos homenzinhos de chapéu bicudo vermelho!

Em frente, um sujeito de bigodaça proeminente, começava já a puxar do maço, pronto para me atafulhar de fumo logo pela manhã...


Fujo, fujo como se não houvesse amanhã! (Mas paguei a conta!)

Há dias que começam mal, ou então, vemos o mesmo cenário com outros olhos, todas as manhãs...

11.29.2005

Saudoso tasco

É com grande preocupação que escrevo este texto. Ao longo dos últimos anos temos vindo a perder um dos maiores icones nacionais, o tasco. Sim, aquele local de cheiro ácido, entranhado daquela imaculada imundice, em que pontas de cigarro pintavam o chão. O tasco do homem calvo, bigode farfalhudo e nariz vermelho, vestido com um avental que um dia tinha sido branco e que mostrava as marcas do seu esforço em preparar sandes de rojão. Gajos como eu, passamos a vida a ouvir falar desse local mitico onde os nossos pais e avós moldaram a sua virilidade e figado sob a força do vinho martelado. E agora, que me sinto homem suficiente para debater a politica raesense (tino um grande abraço) vejo-me vitima da gasolinização. Vá-se lá perceber estes tempos modernos que revolucionaram os hábitos e costumes portugueses. A ventoinha de pás verdes e aros de metal substituida por um ar acondicionado. As mesas quadradas que tantas cartas e dinheiro viram bater deram lugar a uma mesa alta e redonda sem o conforto das cadeiras de madeira tosca desgastada pela força do uso. O tasqueiro tirou o avental e vestiu um pólo cinza com letras laranjas.
Este lugar estranho, limpo e luminoso, remeteu o tasco português para os livros de história.
Espero com isto, que os jovens e adultos portugueses, quando se encontrarem na gasolineira mais próxima possam perceber que um dia existiu um lugar que eles podiam chamar seu.

Já somos uma banda larga!

Banda Larga para todos!

Estamos em desenvolvimento, somos agora três, LOSTSOUL, novo Team Member, chegou para postar!

11.28.2005

Pensamentos transviados

A todos vós meus irmãos, comunico que devido ao surto epidémico que está a assolar o mundo, este ano, na quadra natalícia, não haverá missa do Galo.

BENTO XVI (2005). Discurso domingueiro.

Vaticano: Plenos Pulmões e Pantufas PRADA.

11.25.2005

O Castelo de Noudar


O relâmpago flamejante na planície cerrada, surpreendia a solidão e dava alento para mais um dia no deserto de palavras que implicava a estada em tal latitude.

Pela manhã, os bons dias eram oferecidos a todos, por esvoaçantes que, sem receio, deambulavam pelas muralhas avulsas esquecidas de todos.

Alguém se havia lembrado delas, no início do século, pelo que havia sido classificada Monumento Nacional. A partir daí, abandonada, apenas o balir e o latido acompanhavam a lenta degradação das estruturas.

A população que encerrava, havia partido há muito, sem saudades do regresso, tal a lonjura da civilização. O motivo, diz-se, terá sido um epidemia que dizimou a população e que a fez procurar outras paragens.

Situado na terra de ninguém, entre Portugal e Espanha, era posse obrigatória para quem quisesse dominar a região, pelo que as batalhas sucederam-se, até à assinatura de paz em 1668. Bom, não terá sido bem assim, em 1894, a contenda entre os beligerantes, foi sanada por acordos carimbados a sangue, irmanando, para sempre, o que era de cada um.

O castelo, isolado, deixou de ser preciso, deixou de ter significado, pelo que o esquecimento natural de quem vive o dia a dia o tornou cada vez mais distante e inacessível.
Vive, actualmente, da sua paisagem, do isolamento, do peso do passado ainda por explorar. O ambiente sinistro marcado por fantasmas de outrora aí tombados, pairam errantes por entre o vento que gela os corpos à sua passagem.

A paisagem verdejante acalma o espírito, pintalgada de vida e de cheiros ondulantes, é toda ela dinâmica com a brisa que sopra, trazendo sons longínquos e imperceptíveis ao ouvido, mas reconhecidos por quebraram o silêncio avassalador que impregna o ar.

Num espaço esquecido, tudo é volátil, apesar do vento levar a mensagem da sua existência, a corrente de pensamento, longe de imaginar a sua existência, e de se dedicar a assuntos da memória, deixa-a escapar, até à ruína...

Assim vai o nosso património.


Fotografias gentilmente cedidas por Raquel Neves.

11.18.2005

Pausa por uns dias!

Rumo ao obscurantismo, cá vou de novo, voltarei em breve!

Chegado de Valhalla...



Chegado de Copenhaga, onde contrai, uma gripe, ou se não daí, talvez de uma rameira viciosa com quem me cruzei, "either way", aqui fica o principal foco de interesse desta minha curta estada em København, a Gliptoteca Ny Carlsberg, exacto, o da brewsky!

Depois de uma noite debatendo-me com os demónios gripais, lá ganho coragem para deambular pela cidade, e então, munido de um copo de café a ferver como única arma para enfrentar o monstro de 4 graus célsius, lá vou à Ny Carlsberg Glyptotek.

Nem de propósito, neste curto período em que me encontro em Copenhaga, está patente uma colecção de peças do período Amarna (Egipto), que por acaso é dos aspectos que mais me atrai na historia social e artística egípcia, por razões que poderei explanar noutra altura. Como tal fiquei encantado e com o dia ganho. Por outro lado, devido a obras, parte do museu está interdito obrigando a direcção à solução chamada "Gliptoteca compacta" exibindo as peças de maior relevo. Seja como for, fica aqui a impressão extremamente positiva de um museu excelente, com um espólio espectacular, do qual destaco a ala impressionista bem dotada de Manets, Gauguins e Rodins, para além das esculturas clássicas e pré-clássicas, Francesas e Dinamarquesas, aliás, a base do espólio dos Jacobsen (patronos) e razão do nome Gliptoteca (Colecção de Escultura).
Edifício espectacular, pessoal de simpatia extrema, muito agradável, a ver! ... Ni!

Novas entradas

Em viagens pelo mundo blogueiro, novas entradas de qualidade chegam ao nosso recanto mal amado.
1 entre 1000's é a face do Entetantuus, em movimento desde Julho de 2005. Na sua postada inicial, coloca algumas questões existenciais, logo respondendo-se com o seu mau feitio: será que vou ser uma ovelha negra nestas estradas cibernauticas???... Sinceramente não contem com isso, tenho mau génio mas nada incontrolável!
Cultossaurus, manietado por Raddagast, imberbe, dedica-se ao outro lado da arte, àquela obscura e indefinida, tantas vezes renegada pelos puristas, antes neo-academistas.
Ambos, a não perder!

11.17.2005

A vila

O ar rarefeito e frio dá vontade de abraçar os cobertores e de lá não sair. Cá fora, o ar cortante é a única companhia da vila deserta. De quando em vez um sussurro por entre o casario amontoado perturba o silêncio.

A casa, gélida como o exterior, vazia como as quingostas apertadas, oprime qualquer vontade criativa... Não apetece sair, nem entrar, passear ou relaxar, apetece apenas não estar, não fazer, partir e não voltar àquela terra maldita que a todos dá um ar taciturno e triste.

Cá fora, em tascos típicos mas limpos, a população, envelhecida, junta-se para falar sobre o breu que faz ou para contar o que já havia ouvido vezes sem conta. A praça da Liberdade, o centro quadrangular, está deserto, apenas da Associação Recreativa e do Café Central se ouve o difuso ruído de uma qualquer discussão em torno de velhos hábitos.

Pela manhã, o frio continua, as pessoas, activas na sua indolência, atarefam-se com o nada que têm para fazer.

Gente embrutecida e enfadada com o marasmo da vila, não tenta mexer ou mudar o que quer que seja, apenas ir vivendo, sem esperança no futuro, sem ambições excêntricas que as gentes da cidade têm, nem com vontade de mudar o mínimo pormenor da sua passagem já delineada, mesmo antes de nascer.

Aqui se sente a força do destino. A languidez domina as acções, tudo mexe de vagar tentando não alterar a ordem instituída. Caiadas de branco com lista inferior amarela, o casario idêntico define bem a forma de estar dos conterrâneos.

A paisagem tranquila e majestática, pintalgada por pontos esvoaçantes, faz-nos sentir a força do pensamento e da inércia de não querer deixar de a ver. Chaparros corajosos pontilham o solo, dando guarida aos poucos bovinos que se protegem das pingas verdejantes. A vida começa a despontar, após a manta tórrida que cobriu a paisagem durante a estiva.

Terra esquecida pelo país e pelos próprios habitantes, é um lugar de ninguém. Do país, longínquo, apenas ouvem falar das cidades, de uns tais bairros e aglomerados que nada têm a ver com a sua realidade caseira, ouvem algo sobre problemas sociais e crises existenciais que não se adaptam à sua verdade, essa de solidão e de sorriso difícil.

Realidades distintas estas do quadrado pequenino à beira mar plantado, farto em pensamento, parco em acções...

11.11.2005

Finalmente chegou a avó Micas

Chegou a avó Micas!

Mulher madura, de convicções fortes e contestatária, é uma mulher de outros tempos. Vem da longínqua Macondo, a terra da solidão empedernida que predestina uma vida lânguida e taciturna aos seus habitantes.

No corpo trás as marcas de outras batalhas, guerras entre mulheres à cata do melhor macho, aquele rechonchudo que dominava a aldeia.

É coxa. Conseguiu essa proeza ao encavalitar-se num escadote, tentando chegar às romãs luzidias que esperavam ser colhidas. Conseguiu, portanto, conciliar o seu nome com uma realidade: todas as Micas são coxas.

De facto assim é, coxeia ligeiramente pela fractura mal tratada e calcificada que lhe ficou, para sempre, como sinal de uma juventude de traquinices e de amores mal resolvidos, que lhe deram um olhar triste e um clamor constante por tempos que não voltam.

Outra das suas particularidades é a enigmática orelha ratada. Muito se conjectura sobre ela e muitas estórias circundam esse sinal. Uns dizem tratar-se de um sinal místico, colocado para marcar, para sempre, a figura maligna que a queriam ter feito, por cobiça... mas o seu temperamento dócil deitou por terra todas essas cochicharias.

Esse mesmo bom feitio foi alvo de outra teoria. Dizia-se que um dos seus inúmeros amantes, no calor da acção, terá arrancado parte da sua orelha. Mas nunca se viu um curativo, uma mazela recente no seu abanico.

A própria, em tempos, teorizou sobre isto, dizendo que se lembrava de, à nascença, em pleno berço, sonhar com a passeata de um roedor: levou-a a andar em carroceis fantásticos, quando nunca os tinha visto, e que lhe tinha oferecido um gelado dessa mesma máquina de fazer gelo que Melquíades havia trazido, muitas décadas antes, para outra povoação, com o mesmo nome, mas do outro lado da terra.

Nunca se soube que era feito do recorte que faltava, o que é certo é que ainda lá estão marcados como serra, dando-lhe um ar misterioso e estranhamente sensual, apesar da idade.

Noutros tempos foi elegante e esbelta. Assediada pelos jovens das aldeias vizinhas, acedia aos seus recônditos desejos, sem pudores e sem medos da condenação social que olhares invejosos lhe faziam.

Hoje, velha e encarquilhada, apenas os jovens lhe dirigem a palavra para ouvir a sua voz ritmada e trinante da experiência acumulada ao longo de muitos anos de tropelias sexuais. Rapazes filmam na memória as histórias, para mais tarde recordar no recanto do seu quarto, raparigas coram e fazem o mesmo, sem pudores, falando do seu corpo, das suas vontades e dos cuidados necessários à fornicação prolongada no tempo.

A avó Micas é assim, livre e vivida, como poucos conseguiram ser na aldeia que prendia vontades e soltava enxofres sedativos para tranquilizar os seus habitantes.

Está lá em casa, para animar as hostes!

11.09.2005

No comment

Espaços sob a égide do desejo

Alguém dotado intelectualmente, propunha, à tempos, a existência de padrões que dirigiam a vida das pessoas, como se uma espécie de predestinação cíclica deixasse antever uma conduta ou uma linha de actuação - pelo menos, assim entendi as suas palavras.

De facto, outras ideias emergem.

Quanto a mim, as referências são a base da existência humana. Somos o que comemos! Alguém dizia com autoridade.

De facto, assim é. São os referenciais que nos transformam no que realmente somos, não um ou outro acto, mas o conjunto de coisas que, ao rodear-nos, nos foram moldando, continuamente.

São elas que determinam o dia-a-dia social, mesmo que a justificação para actos não seja visível.

Esta problemática, actual, leva-nos a questões de fundo no que se refere à sociabilidade e à forma com a interacção grupal acontece.

Qual a fora correcta de agir em sociedade!? É uma questão sem resposta (daquelas a que um demagogo responderia: - Ainda bem que me faz essa pergunta!).

Apenas podemos dizer que todas são possíveis, desde que os desejos sejam realizados de forma sustentável, com a obrigatoridedade de ser intenção do indivíduo cumpri-lo e não deixá-lo no assento etéreo onde subiu!

É que há desejos, que ninguém quer destruir pela execução! Lá está, é Zenóbia!

Zenóbia

11.08.2005

Distraídos Ilustres

Tucherel esqueceu-se, um belo dia, do seu próprio nome.

Beethoven fazia demoradas excursões pelas florestas e frequentemente deixava lá a roupa.

Munster, tendo posto à sua porta um letreiro dizendo que o dono da casa estava ausente, deixou-se estar ali muito tempo à espera do seu próprio regresso.

Conta-se que Serpa Pimentel, chegando uma vez a casa molhado até aos ossos e com o guarda-chuva a escorrer, a primeira coisa que fez foi meter o guarda-chuva na cama!


António de Serpa Pimentel (Ministro da Fazenda e Finanças - 1879)

Assim acabámos a viagem pelo dito Almanaque, seleccionando um conjunto de notícias sobre individualidades distraídas.

O mote continua a ser o de divulgar informação humorística. O sentido de humor retorcido, como habitualmente, impera. Já a relevância científica deste manual é vital para a compreensão de uma época, tendo em atenção que, 88 anos depois, é o mote para pesquisas no mundo virtual sobre esta ou aquela personalidade.

É um livro preconizador que encontrarão por aí, em qualquer biblioteca do país, ex-assinante do Jornal O Primeiro de Janeiro para os anos de 1916 e 1917.


11.07.2005

Notas curiosas

No Almanaque do Primeiro de Janeiro de 1917, várias curiosidades pretendiam dar a este pequeno livro de bolso, o aspecto das revistas da Reader's Digest. Entre estas excentricidades, contavam-se as seguintes:

1 - Várias personagens nasceram com dentes, e entre eles:
- Guilherme Bigot, médico e filósofo francês do XVI século;
- Luís XIV, rei de França;
- O poeta inglês Boyd;
- Ricardo II, rei de Inglaterra;
- O grande orador Mirabeau
- E o cardeal Mazzarino.

2 - Entre 545 morfinómanos tratados pelo dr. Lacassagne, de Lyon, em França, 289 eram médicos.


Título: Mirabeau

11.06.2005

Pensamentos transviados

As crenças são como as cenouras... cada um faz com elas o que melhor lhe servir!

RATZINGER (2005). As minhas pantufas são PRADA. Vaticano: Ed. do Santíssimo, p. 2005.


11.04.2005

Os anões

Em leituras transviadas pelo Almanaque de O Primeiro de Janeiro para o ano de 1917, encontrei algumas preciosidades que nos falam do conceito retorcido de humor que, há época, imperava e da noção de conhecimento curioso que dominava uma sociedade ainda muito arreigada e comezinha.

Um desses casos é o artigo intitulado Os Anões...

Os mais notáveis anões dos tempos modernos têm sido:

O conde Borouloski, que era um polaco, nascido em 1739, de muito espírito, de elegantes maneiras, tinha de altura 90 centímetros.

Richebourg, um francês, que nasceu em 1768 e viveu 90 anos, morando em Paris com grande celebridade, tinha de altura 80 centímetros.

Thum Thumb, um americano, nascido em 1839 e casado com uma anã também americana. Ele tinha 85 cm. e ela 87.

Cha-Mah, um chinês, que floresceu de 1838 a 1868, tinha 81 cm.

Lucia Zaratti, uma americana, que se mostrou na Europa em 1873, bonita e admiravelmente proporcionada, tendo de altura 60 cm.

O general Mite, um americano, muito célebre que, depois de se expôr em toda a Europa, viva em Londres com grande luxo, tinha 67 cm. de altura.

Título: General Mite

10.28.2005

Espaços simbólicos

Tudo tem um sentido, uma simbologia própria, uma destacável forma de estar, um padrão! Antes, muita coisa é baseada em parâmetros construídos mentalmente e sem fundamento experimental.

A ideia de algo soar a, é a verdade neural sobre algo que pode não o ser, que pode ser imaginada ou apenas reflectida sem, no entanto, ser consentâneo com o que é verídico.

Mas as regras do jogo mudam, a diferença e o seu conhecimento, faz-nos pensar no paralelo como um contra-ponto... é o tal vasilhame que passa a ser de tara perdida, descartando-se para um qualquer contentor, despojado de conteúdo e sem o conteúdo que lhe dava objectivo... fica esquecido e passa a integrar outra qualquer coisa vitral!

A verdade, ainda que incompreensível e rebuscada, não deixa de ser, apesar de una.

Se a verdade é parametrizada e se ela é posta em causa, qual a chave que abre a porta da realidade!?


Zoé é assim!


Espaços desejados



Fedora é um desejo de vida.

O desejo imbérbere de querer seguir outras pisadas que não a da ovelha. Seguir por ali, por onde o sino não dobra e onde as gentes não cantam ao som da concertina.

Esse desejo persegue a humanidade, desde o almocreve que ia e vinha e era cobiçado pelas suas andanças, até ao peregrino que segue viagem até à próxima paragem.

Porém, o desejo só é como tal se o mantivermos inconsistente, apenas no pensamento. Dessa forma, não deixaremos fugir uma vontade, ficará para sempre como se fosse parte de nós, uma companheira, para toda a vida, que nos dá coragem de enfrentar a tão temível cobardia, essa velha manhosa que alça a saia para mijar, numa esquina qualquer de Londres.

Estranha ironia...

Espaços mentais

Maurília, não era uma cidade, antes, a própria memória encarnada... Recordava o tempo inexorável que ainda labuta, transformando tudo à sua passagem...

- Aspectos passados já não são presentes que, por sua vez, nunca serão como suía...

Do passado, uma ténue imagem perdura, alterada, evoluida, deixando cair máscaras e construindo muros, à medida que o relógio tiquetaqueia, sem parar, até à exaustão dos dias.

De Maurília apenas restam a memória de tempos idos e o nome impedernido.


10.26.2005

Mongóis muito à frente...

O que os olhos em bico não fazem...

Experimentem e verão....

Cebolas no meu jardim...


Em plena VCI, perto da saída de Matosinhos, lá estavam elas, umas redondas, outras planas, mas todas cheirosas... como se, em substituição do banho matinal, tivesse dormido na loja, junto às tranças...

Um espectáculo triste esse de deixar cebolas no meu jardim matinal onde, todas as manhãs, tenho o prazer de me perfumar com o patcholi democrático que toca todos, bem fundo, no coração...

Chorei ao ver tão triste cenário...

10.25.2005

...


Isto de estar ligado apenas com ligação 56k não está com nada...

Mesmo nestas simplicidades reconheço que recorrentemente decartamos e desvalorizamos o antigo, o idoso, o velho, desconsiderando que sem ele(s).... nada seria. ADSL, Wireless, portátil, frenéticos tentamos estar a passo do compasso sempre enérgico, impiedoso, que de prazer só momentâneo e regogizamos para logo voltar ao básico e correr, correr atrás de mais um "chuto".

Não tenho dúvidas e tentarei ter sempre os meus momentos 56k.

Ni!

10.24.2005

Pa ti...

Happy Birthday

Livros e leituras

O livro, mais que companheiro, é um pedagogo.

Em leituras travessas, cruzei-me com Italo Calvino e as suas Cidades Invisíveis. É o primeiro que leio deste autor e fi-lo motivado por conversas transviadas que tive com uns e outros e que me punham a par de visões diversas, quanto à sua objectivação ou quanto à forma como estas foram concretizadas.

Uns afirmavam ver, realmente, mulheres em cada uma das cidades descritas, outros, impunham uma formulação matemática para a elaboração de diversas obras suas e, por consequência, desta também.

Bom, não vi mulheres, cheirei algo de lógico na obra. Vi antes sensações, sentimentos, observações que o autor faz dos locais por onde passou ou por recalcamentos socias que pretendeu verbalizar.

De forma magistral, cria a partir de elementos simples, visíveis e naturais da sociedade segmentada e incongruente que vivemos.

Penso ser essa a magnificência do livro: permite várias leituras, várias profundidades na leitura, várias acepções, várias interpretações, mas tem em vista, sempre, fazer-nos crescer ou conhecer o realidades paralelas.

Não é necessário, quanto a mim, ter apenas uma legenda, ela pode ser vista de inúmeras formas... o que importa é evoluir, de forma positiva, com o que foi lido.

Iremos, nos próximos dias, desconjuntar as várias cidades mentais, sonhadas por Marco Polo - o escritor, sem nunca sair da mesma onde nos encontramos, tal como ele as ditou a Kublai Khan - o leitor.

10.20.2005

Quando saltas!

Quando saltas do carro em andamento, sentes que já lá não estás, por isso, o toque é para ti!
Por vezes, no olhar dos que te dizem muito, sentes afastamento e, com isso, sentes uma vil tristeza que te assoma o coração e te faz postar qualquer coisa sobre isso!
Sentir que já não pertences ao tal grupo com quem pensavas manter afinidades estreitas, é devorador é dilacerante, a tal ponto de, à volta do assunto rodares, sem saires do sítio...
Mais uma vez o sentido não é o teu forte, o verdadeiro mote não é o motivo, nem as palavras, as que querias deixar fluir, sem parar, como uma torrente mínima que jorra triste e constante, pelas montanhas verticais que te envolvem ....
O destino é inexorável e muda tudo, nunca premitindo que o passado seja presente... fica sempre guardado, mais uma vez, e outra, e mais outra, sabendo que não vai voltar, sabendo que a antiga verdade nunca mais será ouvida...
Porque acontece isso!? Nunca saberás... apenas assim é, sem tirar nem por, até que novos futuros se abram e novas formas de ser, te permitam perceber o presente, esse que desonheces, apesar das certezas, ou pelo menos, do que achas que são verdades...
Revolta-te o facto de não fazer sentido, mas, sabes tu o que isso é? Sabes, no fundo está lá tudo, pela forma atabalhuada com que as palavras se sobrepõe umas às outras... Mas também, que é isso de correcção, de ponto, de regra, quando a única lei que deves seguir é a do sentimento? Deixa-te ir, deixa-te levar pelo que flui aí por dentro, algures, e serás tu mesmo, sem enganos, sem erros, com as tuas dúvidas e anseios, com os teus desaires e sabendo que o grupo muda, evolui sem saberes se ficaste para trás ou se te adiantaste em demasia...
Isto é vomitar, 100 anos depois do silêncio, da tal solidão de que falavas, sem saberes que, ao descreveres o inverosímel, estás-te a referir a ti próprio, nu! Deixa, essas personagens são todas tu mesmo, são o que sempre sonhaste ser, viver sem dizer aos outros, sentir sem o admitires...
És tu próprio, se gostam, óptimo, se não, que se fodam!

Livro (sugestão)

"A aventura humana tem uma finalidade.
Não acontece ao homem o que ele merece, mas sim, o que se lhe assemelha.
O mundo não é absurdo e o espírito humano não é de forma alguma inapto para compreendê-lo.

Pelo contrário, pode ser que o espírito já tenha compreendido o mundo, mas ainda não o saiba.
O homem é feito de mistérios e visões. O mundo exterior é pouco instrutivo, a menos que seja visto como um reservatório de símbolos com significações escondidas
É evidente que o homem não tem conhecimento de si próprio à altura do que ele "FAZ".
E se não o tem é porque a organização social o priva, baseado em idéias caducas.
No entanto, tudo nos incita a pensar que as coisas se modificarão rapidamente. Que a agitação das massas, a formidável pressão das descobertas técnicas, o movimento das idéias, a mudança dos antigos princípios, levará o homem a sentir nascer em si mesmo a "Nova Alma" e descobrirá a liberdade de "Poder ser Causa".
Deus criou-nos o menos possível. A liberdade de "Poder ser Causa", quer que o homem se refaça a si mesmo.
Temos a liberdade de vir a ser, no centro de uma eternidade que É, visão do destino humano ligado à totalidade do universo.
Não é a primeira vez que na história da humanidade, a consciência humana é obrigada a passar de um plano para outro. E a passagem é sempre dolorosa.
Inteligência total, consciência desperta, o homem se dirige para as conquistas essenciais, no seio deste mundo em pleno renascimento.
Começamos a perceber, e para sempre, que para o homem reconhecer, amar e servir apaixonadamente, o universo, de que ele é o elemento mais importante, é a única razão aceitável."
Louis Pauwels - Jacques Bergier in "O Despertar dos Mágicos"

Aqui está a eterna sugestão no que toca a livros. Estou nos copos.... livros? - olhem leiam o... e pronto, nunca escapa, sempre presente, mas e então, não é por isso que somos marcados por algo, pela perpetuação da sua influência em nós manifestada nas mais simples das nossas acções.

"Este livro não é um romance, embora a intenção seja romanesca. Não faz parte da ficção cientifica, embora nele se deparem mitos que sustentam esse género. Não é um conjunto de factos estranhos, embora o Anjo do Bizarro se sinta à vontade nele."

É um livro poderoso, revelador, principalmente pela forma não facciosa de como os dados são fornecidos e tratados - "«Havia uma quantidade de disparates no livro do Pauwels e Bergier.» Eis o que dirão. Mas se tiver sido este livro a provocar a curiosidade de aprofundar o assunto, o nosso fim terá sido atingido."

É, para mim, exemplificativo dos MEUS amigos, andamos por aí, à procura, e tentamos não descurar nada, é o Quiosk... desfrutem... Ni!

"«Olha, há um tesouro na casa ao lado.
- Mas não há casa alguma aqui ao lado.
- Então construiremos uma!»"

P.s. Só arranjei foto da capa da edição francófona.

Pensamentos transviados!

Desesperadamente à procura de uma identidade perdida...

ANÓNIMO (2005). Ando à procura de uma nova imagem para o cantinho. Macondo: Ed. Mini-me, p. 6345.

10.19.2005

Curiosidades

Em pesquisas transversais pelo google.com, fiquei a saber que este motor de busca varre, pelo menos, 8.060.000 páginas de Portugal, num universo de 8.680.000.000 mundiais. Portanto, 0,092 % das páginas na web serão portuguesas. Já páginas na nossa língua materna, são indexadas 46.900.000 páginas - 0,54%.
Portanto, de todas as páginas web escritas em Português, apenas 17% do total são originárias do nosso rectângulo, manifestamente parcas para a importância do espaço como construtor de uma identidade linguística.
Já em Espanha, existem cerca de 51.000.000 páginas, 0,58% do total de páginas existentes, sendo que, em espanhol, existem por volta de 113.000.000, logo, correspondem a pouco mais de 45% do total de páginas existentes naquela língua.
Assim se diferenciam realidades e assim de constrói um mapa da influência estratégica mundial de povos vizinhos.

No comment

10.17.2005

Cá merda....

Blog simpático, com masculinidade duvidosa, e dupla personalidade - uma mais latente que a outra - pretende conhecer links de outros blogs, honestos, brincalhões, sérios quando tem de ser e com idade não superior aos 93 anos de idade, para possível relação futura!

Trocando por miúdos:

Mudei o template do blog e pumba... foram-se os links!
Lá está, quem não sabe é como quem não vê!

Cá merda... demorou tanto tempo....