6.09.2006

alegorias cavernosas

Um dia Mimi acordou e viu que tudo o que havia defendido até aí tinha-se desvanecido. Valores e conceitos mantiveram-se, agarrados ao medo de mudar, mas o mundo era outro, um que desconhecia e que se tinha adaptado a novas ideias e novas formas de convivência.

Esse mesmo, mais democrático, permitia fazer o que se quisesse da própria vida. Nessa manhã, Mimi, infeliz, viu um mundo que desconhecia. Viu uma verdade inegável mas que ela não compreendia.


Nesse manhã morreu Mimi, nasceu Micas Coxa, a avó de toda a humanidade.

5.29.2006

Nomes inusitados

Porto, anos 50, gentes fluíam pelas ruas movimentadas da baixa, guardando, em si, nomes insondáveis, aqui alumiados por essa mesma lâmpada de tungsténio que me dá vida.

Todos originais, fazem parte de um livro de termos de onde retirei esta lista impar de nomes inusitados.

Para vocês, cá vai o top 25 das anónimas celebridades que aqui alcançam a imortalidade.

Gemialde Celeste E.
Hortênsia M.
Leontina S.
Zina B.
Bernardette A.
Maria Georgette B.
Quitéria R.
Zulmira C.
Arlette C.
Ortelinda O.
Azuil G.
Claudemiro T.
Porcina F.
Aldegundes L.
Filinto C.
Balbina G.
Isolete Laura S.
Bertila S.
Judia Morena F.
José Isménio J.
Dorinda S.
Benilde S.
Georgette S.
Leopoldina M.

5.19.2006

Confidências de um transeunte

As representações sociais envolvem-nos sem sequer darmos por isso.

Gente há que nos julga pela aparência, pela profissão, pela atitude ou simplesmente pela sugestão de passados vividos.

No mundo das ilusões, somos confundidos pelo que fazemos. E é ver gente entrar e sair a cochichar pela estranha indumentária que usamos ou pela cordialidade com que tratamos o transeunte anónimo.

Se somos simpáticos, ouvimos, à saída, um piropo sobre a nossa postura descontraída. Se rimos e mostramos empatia pelas dificuldades alheias, somos bafejados pelo estranho aroma do desabafo pessoal.

Toda a gente gosta de ser ouvida, adora que se lhe preste atenção. Porém, um pouco de q.b. é fundamental para que não nos tomem como fonte dos desejos e nos transformem em conselheiros matrimoniais.

Pela idade, também percebemos diferentes métodos de análise psicológica do eu escondido.

Novatos, extasiados por verem alguém diferente no lugar do morto-vivo, dão risadinhas intrigantes e irrequietas enquanto tentam manter uma postura o mais séria possível.

Trintões, tentam uma abordagem cool, não querem dar parte de fraco diante de um igual, tratam-nos pelo nome e entram com uma ou outra palavra mais informal para desanuviar o ambiente.

Entradotes, admirados com a laroquice do receptor, ficam na ponte das palavras, entre um seu e um teu, apalpando terreno enquanto esperam pela resposta, para depois replicar à altura.

E nisto tudo, ninguém conhece o ser por detrás da faceta.

- Gostava de ser assim, sempre com um sorriso sincero...

Mas que raio, conhecem assim tão bem o outro para o dizer de ânimo leve?

Quem sabe se por trás do sorriso não está outro qualquer abestalhado que espera a oportunidade para sorver mais uma ou outra inconfidência?

É que, por detrás da máscara trivial, sou um coleccionador de sonhos, não alheios, mas próprios.

5.18.2006

5.10.2006

pensamentos transviados xviii

Cuidado com as ideais boas e novas! É que as boas normalmente não são novas e as novas normalmente não são boas...

Anónimo

5.08.2006

Floresta do degredo

Um coelho corria pela floresta quando viu uma girafa a acender um charro:

- Óh girafa! Pára de fumar essa cena que te faz mal e vamos correr pela floresta!
Vais ver como te vais sentir muito melhor!!!

A girafa pensa e responde:

- Tens razão, coelho, bora nessa!

Assim, deixou o charro e foi correr com o coelho.

Mais à frente encontram um urso a cheirar cola.

Olham-se e o coelho replica:

- Óh urso, deixa essa merda! Essa treta só te faz mal, vem mas é
correr connosco e sentir o ar puro dentro dos teus pulmões!

De um salto, o urso junta-se aos dois, até que encontram um elefante a snifar cocaína.

- Óh elefante, estás maluco! Dás cabo de ti com essas merdas! Vem connosco correr pela floresta!

O elefante pensa um pouco e resolve juntar-se ao grupo, que metros à frente encontra o leão a injectar heroína.

Mais uma vez, o nosso amigo coelho pára-o dizendo:

- Óh leão, deixa-te de merdas e vem correr...

Ainda falava quando leva uma patada do leão que o põe KO.

Os outros animais revoltados perguntaram:

- Estás maluco? Por que fizeste isso? O rapaz a cuidar da nossa saúde e é assim que se trata o pobre coelho?

O leão, magânimo replica:

- Sempre que o cabrão do coelho toma ecstasy, faz-me correr feito um idiota pela floresta !!!


Enviado por e-mail por JPMiranda

5.04.2006

Novas do passado

Em pleno século XVI, Antonio de Mendoza, nomeado 1º vice-rei da Nova Espanha (1535-1550), envia para a corte de Carlos V uma descrição da história e sociedade dos povos nativos do México, designado por Codex Mendoza (c. 1541).

Este documento ilustrado, guardado na Bodleian Library em Oxford, traça os usos e costumes dos Aztecas desde o estabelecimento de Tenochtitlan, c. 1325, até às conquistas bárbaras de Córtez (1519-21), passando pela formação da Tripla Aliança Azteca.

Combinando grafismo autóctone com escrita latina, foi elaborado por nativos sob a direcção de anónimos frades, com o aval do bispo do México - Juan de Zumárraga. Relata aspectos quotidianos da sociedade mexicana, incluindo dados políticos, militares, etnográficos, dando uma imagem global do dia-a-dia dos indígenas.

Dividido em três partes, o manuscrito é considerada a pedra de roseta da civilização Azteca.

4.30.2006

Raise bitch, a new age has began!

Norma de conduta social, moralidade repartida, fervorosa fé. Definições redutoras e, para mentes menos zelosas, desactualizadas desse maço encadernado definido por bíblia.

Novos tempos, vontades diversas, nova norma, exige uma reestruturação do livro para que as massas o possam entender, vede como:

Reescrever o manual de procedimentos requer paciência e vontades inusitadas de que apenas algumas formulações mediáticas são detentoras. O 4º canal da TV da Árvore dos Estapafúrdios tem tudo isso: casos de vida, ensinamentos sexuados, moralidade desviante e até algo de sadomaso rosa choque, que alcança shares de fazer inveja ao tipo dos pregões aos peixes.

Pois então, palavra puxa palavra e a ideia surgiu: nova era digital merece outro livro de cabeceira, formato actualizado, pentateuco desconstruído, salmos hard core e evangelhos recauchutados, para uma melhor leitura. Proponho, até, uma formulação em rima simples, para facilitar a compreensão de rapers e afins.

Por isso exorto à criação, levantai-vos e abraçai a causa, uma Nova Era começou!

Begone and create a new square book, were people can see the suffering and feel the pain, eating pop corns and drinking cola in the chesterfield!

For me, a bottle of rum will be fine, bitch!
ideia: miguel s
3ª de mão : kiko
criador da expressão bitch: cavaleiro dos nimbelunguen

4.26.2006

32 anos depois

A revolução saiu à rua, exigiu direitos e deveres igualitários, verteu lágrimas de alegria por ver-se sobrepor à tirania e desvaneceu lentamente enterrada num qualquer sofá, de comando na mão.

O sonho esvoaçou entre iguais, tentando sobreviver contra vontades inauditas e escusas. É a sede de poder, o conformismo do sonho fácil, a competitividade, o motivo pelo desvanecer de uma fantasia.

Era um sonho de vida, colectivo, imberbe e incapaz de calculismo político. Era um devaneio de futuro, prognosticando a força da voz e o poder das massas. Era uma quimera de felicidade, pensando no bem comum e na possibilidade de igualdade. Era uma ilusão verbalizada, clamada, carpida, por tudo o que tinha ficado por dizer.

É um sonho adiado, individual, introspectivo e confortável, incapaz de manifestar a discórdia e a divergência. É um devaneio sem futuro, prognosticando o vazio social, a manipulação das gentes, o poder da retórica sobre a verdade. É uma quimera silenciosa, sibilante e esquiva, sem capacidade para se fortalecer, minada à partida.

O poder do sofá é avassalador. O crédito permite mais um upgrade à parafernália de maquinaria que nos torna mais sedentários e inertes sociais.

Temos outra vez o pão e o circo, o fado e o futebol. Tudo para nos fazer viver uma realidade perpendicular à verídica, sem precisarmos de nos alterar.

Temos a mordaça, temos a censura, temos a mesquinha inércia.

Temos tudo o que sonhamos, tudo roda à volta do poder do povo, faccioso e maleável, ao sabor dos dotes do orador e do grupinho politizado a que pertence.

Temos tudo, uma vida de sonho, irreal, paradisíaca, etérea e acomodada, vazia de conteúdo e de palavras.
Temos tudo, idealizamos uma realidade igualitária... mas vivemos um pesadelo manipulador.
Temos tudo, menos o sonho.

4.24.2006

Meia branca

A bela meia branca é uma instituição em Portugal.

É ver o lindo sapatinho negro, de pala, com a meia de desporto a reluzir por entre o vinco impecável da calça de fazenda.

Era esta a minha visão da mítica luva ortopédica vulgo pé de gesso até que deparei com o contrário:

Bela tarde de sol, na sua zundap, vejo o zé povinho com a sua calça rosa coçado e meia preta!

Ora, com o seu blazer branco e calça rosada, nada melhor que uma meia branca a combinar com o blazer, já o preto destoa.

Lá está nem toda a meia branca ofusca, nem toda a preta reluz!

Não é um provérbio lituano, mas serve para o gasto!

4.21.2006

Dias memoráveis

Há dias e dias.

Uns, taciturnos e iguais a tantos outros passam sem se perceber qual o seu verdadeiro sentido.

Outros, divergentes de tudo o que até aí já se sentiu, ficam para sempre na memória e no coração. Não que se pretenda embrulhá-los ou guardá-los, mas porque a nova é tão forte que não há forma de lhe fugir.

É um misto de ternura, alegria extrema e receio pela possibilidade de não corresponder, de não acertar, de não ser como pensamos ou de correr de forma diferente do que idealizámos.

A postura muda, as palavras começam a ser escolhidas, os dedos teclam, apagam, rescrevem, corrigem e voltam a apagar para depois voltarem a sair não tão puras quanto queríamos, mas como as podemos extravasar.

Dias há que nos deixam nesta corda bamba de emoções fortes, sem saber o que dizer mas com a certeza do que sentimos, sem as palavras certas mas com as emoções à flor da pele.

Ontem renasci, contigo deixei de ser um qualquer Quiosk num projecto ainda não realizado, passei a ser Kiko, sem rodeios, numa locomotiva em movimento.

Mas deixa, em Dezembro falamos melhor!

Entretanto este que te escreve sou eu, sem tirar nem por!

4.19.2006

Recuerdo da mouraria

A pedido de inúmeras famílias, cá vai um recuerdo mourisco.


A árvore quando está a ser cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira.

Provérbio Árabe

Voltei mas não trouxe recuerdos!

Gente há que gosta de se evidenciar pela inusitada aparência fantástica do que constrói.

Daí a conseguir a imortalidade vai um passo de gigante...

Já a chacota, é a mesma distância que separa o rabo, da feze quando à caçador!


Photo by: Sofia D.

Location: Açores, Ilha de São Miguel.

4.07.2006

E lá vou eu outra vez!

Vou-me, mas volto!


Entretanto, andarei por aí camuflado, incógnito serei o tipo do gorro laranja e gabardina, pronto a atacar o transeunte incauto.

4.05.2006

A boca do barulho

Apesar de afónico, nada melhor que uma boca foleira para acordar vontades!

As mulheres são as primeiras a analisar outra que passa! Se assim não fosse, como se explicam olhares trocistas e invejosos pelo deambular estonteante de outrém!?

Também o contrário acontece: homens babosos com olhares fixos de luxúria, pela passagem alheia!

Onde se fixam, então, os olhares?

4.04.2006

Espaços duplicados

O ser e a sua imagem reflectida não são o mesmo, são ambíguos e díspares, impossíveis de se igualarem.

Quando visionada, a imagem vive da aparência, da falácia, da vontade de espelhar desejos e não realidades. Porém, visionada pelo frio clarão, tudo se simplifica, máscaras caem, deixando ver rugas, tristezas, lágrimas, sorrisos, verdades. O espelho tem esse dom, o de purificar imagens.

Contudo, a veracidade não nos preenche completamente. Por isso, transfigurou-se o reflexo para que deixasse de contar histórias e passasse a viver das estórias mal amanhadas que a tentação conta mas que a certeza desmente.

Por sua vez o reflector fidedigno, ameaçado pelos constantes upgrades reflexivos, começa a transmitir visões incongruentes, ora pintando cabelos brancos, ora alteando bustos, ora torneando pernas.

A simetria do encanto não é, por isso, validada pela imagem, esvai-se à medida que a ondulação circular vai definhando o reflexo, deixando vislumbrar a realidade.

Valdrada não é, portanto, nem espaço, nem singular, é antes o ser e o seu reflexo.