9.27.2006

sem sal, se fizer o obséquio

de mãos nos bolsos vazios e sem lumes, assim se vai andando, sem tempo, no mundo do tudo cheio de não ter nada que fazer!

sem títulos, sem fala, sem brinco, não se está assim, por cá.

sem maiúsculas e sem pressas, sem nada que dizer, porque perdeu-se a fala na frase anterior, nada se faz, sem se sussurrar um suspiro, símbolo da surdez dos homens.

isto tudo para dizer que a letra "S" sibila e sustém uma posta sem nexo.

9.18.2006

chinesices

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada!

Não peças, não faças isso! Para além de te fazer mal ao miolo, como se pode notar, podem não ter e então é que é, ficas como o tipo que fuma mas não tem lume, qual piada homofóbica de baixa densidade.... Tu vê lá.... não caias na tentação!

- Tem lumes?

- NÃO!

Eu bem te disse! E agora, o que será de ti!? Ah, que vais fazer agora que nem lumes nem amor próprio tens!? Pois é, nunca tenho razão, mas lá está, no final sou eu quem paga as favas! Pelo menos, podias comprar um esqueiro, não caías nas más línguas...!

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada! Ao menos não gastas dinheiro num esqueiro que nem para 1534 cigarros dá!

- Vende esqueiros!?

- Sim! Quale quele!?

- O do Porto!

clinc, clinc, clinc!

- Funciona pelfeitamente!

- Obrigado, quanto é?

- 75 cêntimos pole favole!

- Cá está, boa tarde!

- Obligado e volte semple!

clinc, clinc, clonnncc!

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada!

Não peças, não faças isso! Deixa de fumar... isto foi um sinal divino! A gastar 75 cênt. por cigarro, acabas na miséria e depo........

9.13.2006

abertura de hostilidades

Depois de tempos infindos e malabarísticos em que o passado, o presente, a realidade e a perfídia se misturam numa estranha corrente de vida alheia e própria, novas notas sem interesse brotarão da mente decrépita daquele transeunte anónimo que deambula pelas ruas de uma qualquer Edina.

Já se cruzou contigo, já viveu vidas transviadas e infundadas, já podia ter sido, mas não foi, podia não ser, mas é!

É a mente borbulhante que gira por entre realidades difíceis de digerir.

É a vontade insana de continuar vivo na multidão.

É a vida alheia condensada numa só palavra.

É querer dizer o que não se quer e calar quando se não deve.

É ser verdadeiro na improvável veracidade do momento.

É rai's partam os feixes de energia!

É .... é... é....

É só para dizer que estou de volta....

8.12.2006

Vidas cruzadas

Sentir o torresmo áspero e estival dos caminhos lusos, implica o impacto visual nas matrículas amarelas dos filhos pródigos que a casa tornam.

As festas pululam o interior um pouco por todo o lado, mas o êxodo ruma a sul, ao calor blasfemo algarvio, rumo a mais uma praia congestionada da bela costa.

Que belo exemplo de multiculturalismo se manifesta, por entre pronúncias sibilantes e rústicas, lá sai um vacances aqui, um d'habitud ali e que musical mescla se cria entre o português vernáculo e o francês rebolado, quando se ouve um "Miguel vien pour la barracá, le soleil le queime!"

Ahhhh que bela e bonita a feliz ignorância do pequenismo envergonhado em que vivemos.... lá está, são essas certas e determinadas coisas inexplicáveis!

7.21.2006

teorias (in)fundamentadas


O consumo excessivo de álcool, como todos sabemos, destrói os neurónios, mas naturalmente ataca primeiro os neurónios mais lentos e fracos.

Neste sentido, o consumo regular de cerveja elimina os neurónios mais fracos, tornando o cérebro uma máquina mais rápida e eficiente.

O resultado deste profundo estudo neurológico verifica e confirma a relação causal entre as borgas de fim de semana e o rendimento dos economistas, consultores, matemáticos, engenheiros, advogados, políticos, etc.

De igual modo explica o sucedido poucos anos depois de acabado o curso e contraído matrimónio, a maioria dos profissionais não conseguem manter os níveis de rendimento dos recém saídos das universidades.

Só os poucos que mantêm o estrito regime de voraz consumo alcoólico conseguem manter os níveis intelectuais que alcançaram durante os anos em que eram estudantes universitários.

É uma chamada às armas!!!

Enquanto o país está a perder o seu potencial intelectual nós não podemos ficar em casa sem fazer nada!!

Vamos para as tascas!!

Ocupemos os bares!!!

Vamos beber litros e litros!

O teu governo, a tua empresa e o teu país necessitam que estejas no teu melhor, sem limites para o teu potencial criativo e intelectual.

Corta as tuas amarras e dá o litro!!!

Contamos contigo!

Recebi por mail de J.P.Miranda

7.14.2006

pensamentos transviados xix

Ao invés de certos animais, o homem só se reproduz em cativeiro.

GARÇÃO, Pedro Mayer (1972). Esculápio diz o que pensa. 2.ª ed. Lisboa: s.ed. p. 51.

7.11.2006

7.05.2006

prisões douradas

Deambular pelas expressões e sentidos implica deixarmos sempre um pouco de nós. Mesmo quando tentamos ser imparciais ou isentos, sempre fica a réstia de um contexto imbuído de valores (a)morais que nos impelem a sermos ora condescendentes, ora titânicos.

Esta é a essência humana como a vejo, quando chamada a tomar partido ou a revelar opinião social. Mas será que isso mesmo interessa!? Será que a opinião quanto a factos é, de facto, factual e fundamental para a manutenção do vegetar civilizacional em que nos encontramos!?

Ter, dar, manter um diálogo e uma opinião formada parece ser a base da coexistência. De facto ela não é mais do que limitadora do livre arbítrio verbal que, quando atingido, reflecte a verdadeira essência do caos mental com que lutamos todos os dias.

Ideias, notícias, verdades e conceitos, entrecruzam-se mediadas por descargas de energia que visam manter a ordem. Como se de uma prisão se tratasse, esses feixes impõe uma regra, mantendo a lucidez e a clarividência, apenas ultrapassados em momentos extremos.

Esse caos mental por vezes alcançado, é dúbio: se libertador das correntes sociais, prognostica o pânico, carcereiro da visão plena e livre.

Apesar de sensitivos e pensantes, somos prisioneiros de nós mesmos – do nosso contexto e da nossa verdade.
Temos vontade de ver, vontade de ser, vontade de sentir, mas esquecemo-nos de viver, sem rodeios, o presente.

6.21.2006

memórias partilhadas pela avó

A memória tem destas coisas, a inata vontade de se extravasar sem querer que os segredos inauditos do seu portador sejam partilhados.

Quando vividos flúem sem se aperceber que estão a ser absorvidos por outros, atentos à vontade alheia.

Assim acontece com a avó Micas de que já mencionei a chegada.

De tez carregada e hálito quente, deixa transpirar pequenas gotas que reanimam tempos idos, anos em que os passos ecoavam nas noites solitárias da gélida aldeia que a viu desabrochar.

Por lá, essa tal Macondo escondida, as festas eram em honra de são joão, épocas de folia e de libertinagem.

Porém, para ela, nem sempre foi assim.

Tempos houve em que se escondia entre lençóis incógnitos, amedrontada com a parafernália de sons retumbantes sem fim e com essa estranha visão de luzes incandescentes que teimavam em surgir vindas do nada.

Para aliviar o seu fado vagabundeante e mal quisto pela populaça, deixava-se levar pela mão suave que reconfortava as suas lágrimas escusas.

As festas não são para todos, são para aqueles que têm a quem deitar a mão, dizia, enquanto trejeitos forçados impediam o pingo de verter.

Nada mais saiu senão olhares vagos e miares imperceptíveis enquanto movimentos incontrolados franzem a bochecha casquilha e ternurenta, aqui ao lado.

6.16.2006

pensamentos fundamentados

Na sociedade cibernética, a função principal do ensino passa pela compreensão e relação de dados, em detrimento do processo de ensino vertical que tantas vezes ainda subsiste. A docência no âmbito da inteligência colectiva, tem como fundamento o acompanhamento e a gestão de aprendizagens, permitindo a troca de saberes através da mediação relacional e simbólica.

Do e-business e e-commerce, ou seja, da virtualização das empresas e serviços, passou-se, já ontem, para o e-knowledge, ou seja, para a virtualização do conhecimento, bem patente nas redes científicas e culturais que dão, já, largos passos com sucesso, possibilitando a adequação das necessidades laborais às competências formativas adquiridas.

O ciberespaço, pela sua abrangência e actualidade poderá ajudar a colmatar esta dificuldade de interrelação entre conhecimentos e necessidades do mercado, pelo que a gestão de competências (AdC) em ambiente digital surge como uma potencialidade de balanceamento entre oferta e procura.
A não perder:
LÉVY, Pierre (2000). Cibercultura. Lisboa: Piaget, 181-198.

6.09.2006

alegorias cavernosas

Um dia Mimi acordou e viu que tudo o que havia defendido até aí tinha-se desvanecido. Valores e conceitos mantiveram-se, agarrados ao medo de mudar, mas o mundo era outro, um que desconhecia e que se tinha adaptado a novas ideias e novas formas de convivência.

Esse mesmo, mais democrático, permitia fazer o que se quisesse da própria vida. Nessa manhã, Mimi, infeliz, viu um mundo que desconhecia. Viu uma verdade inegável mas que ela não compreendia.


Nesse manhã morreu Mimi, nasceu Micas Coxa, a avó de toda a humanidade.

5.29.2006

Nomes inusitados

Porto, anos 50, gentes fluíam pelas ruas movimentadas da baixa, guardando, em si, nomes insondáveis, aqui alumiados por essa mesma lâmpada de tungsténio que me dá vida.

Todos originais, fazem parte de um livro de termos de onde retirei esta lista impar de nomes inusitados.

Para vocês, cá vai o top 25 das anónimas celebridades que aqui alcançam a imortalidade.

Gemialde Celeste E.
Hortênsia M.
Leontina S.
Zina B.
Bernardette A.
Maria Georgette B.
Quitéria R.
Zulmira C.
Arlette C.
Ortelinda O.
Azuil G.
Claudemiro T.
Porcina F.
Aldegundes L.
Filinto C.
Balbina G.
Isolete Laura S.
Bertila S.
Judia Morena F.
José Isménio J.
Dorinda S.
Benilde S.
Georgette S.
Leopoldina M.

5.19.2006

Confidências de um transeunte

As representações sociais envolvem-nos sem sequer darmos por isso.

Gente há que nos julga pela aparência, pela profissão, pela atitude ou simplesmente pela sugestão de passados vividos.

No mundo das ilusões, somos confundidos pelo que fazemos. E é ver gente entrar e sair a cochichar pela estranha indumentária que usamos ou pela cordialidade com que tratamos o transeunte anónimo.

Se somos simpáticos, ouvimos, à saída, um piropo sobre a nossa postura descontraída. Se rimos e mostramos empatia pelas dificuldades alheias, somos bafejados pelo estranho aroma do desabafo pessoal.

Toda a gente gosta de ser ouvida, adora que se lhe preste atenção. Porém, um pouco de q.b. é fundamental para que não nos tomem como fonte dos desejos e nos transformem em conselheiros matrimoniais.

Pela idade, também percebemos diferentes métodos de análise psicológica do eu escondido.

Novatos, extasiados por verem alguém diferente no lugar do morto-vivo, dão risadinhas intrigantes e irrequietas enquanto tentam manter uma postura o mais séria possível.

Trintões, tentam uma abordagem cool, não querem dar parte de fraco diante de um igual, tratam-nos pelo nome e entram com uma ou outra palavra mais informal para desanuviar o ambiente.

Entradotes, admirados com a laroquice do receptor, ficam na ponte das palavras, entre um seu e um teu, apalpando terreno enquanto esperam pela resposta, para depois replicar à altura.

E nisto tudo, ninguém conhece o ser por detrás da faceta.

- Gostava de ser assim, sempre com um sorriso sincero...

Mas que raio, conhecem assim tão bem o outro para o dizer de ânimo leve?

Quem sabe se por trás do sorriso não está outro qualquer abestalhado que espera a oportunidade para sorver mais uma ou outra inconfidência?

É que, por detrás da máscara trivial, sou um coleccionador de sonhos, não alheios, mas próprios.

5.18.2006