4.19.2011

pensamentos vergonhosos!


Costumo abstrair-me do contexto neste meu espaço de relaxe, pelo cinzentismo do dia-a-dia e pelas palavras calculadas que se lê tanto no mundo virtual, quanto naquele partidário, afiliado, parcial e lodoso lago da edição periódica.

No JN de hoje, Alberto Castro, comentador de impulso, apresenta a falta de crescimento nacional como "uma vergonha". Adiciona ainda um cartoon algo ranhoso de Francisco Providência representando um menino envergonhado, com orelhas de burro.

Bom, não deixo de concordar a estranheza do facto. Países como o Cambodja, o Burkina Faso ou a Líbia e o Iraque, apresentarem crescimento acima do português é, no mínimo, irónico.

Mas daí a considerar "uma vergonha" faz-me pensar no que me fará corar... o crescimento da extrema direita em países de primeira linha do crescimento mundial, a manutenção de facínoras no poder em países amordaçados, a tirania da banca no mundo capitalista, o poder vitalício de mafiosos em países do G7, ou imagine-se, num outro patamar de descaramento, a edição de um pasquim diário apresentando na primeira página e em destaque gordo a morte de um homem ao pontapé e uma qualquer rixa, como se não houvesse factos públicos relevantes para o comum mortal que deveria comprar o jornal para se manter actualizado...


Bem, mas isso sou eu que me envergonho com pouco...

4.12.2011

nomes inusitados II


Porto, 2011, nomes fluiam no terminal em frente, nas ruas movimentadas do mundo virtual.

Nomes insondáveis autores de ciência de alto impacto polulam aos milhares: Johnston, X.; Smith, Y., e muitos, muitos mais com derivações para todos os gostos, guardando em si, uma cara, uma personalidade, uma forma de ser e estar, boa gente e outros que nem por isso.

Dedico-me agora a nomes chineses, esse intrincado mundo de derivações, em que Li Mung refere a Li Ming que Li Mong citou Li Meng...

Todos originais, são autores de artigos científicos inclusos na maior base de dados referencial: a Scopus.

Cá deixo apenas algumas derivações possíveis de apenas uma combinações: Li, J.:

Li, Jungying
Li, Jingming
Li, Jing Jing
Li, Jung
Li, Jingquan
Li, Jinlei
Li, Jing Yue
Li, Jung Pang
Li, Jingin
Li, Jiantao
Li, Jiangyu
Li, Jizi
Li, Jin
Li, Jun Lan
Mais nomes inusitados, em português, aqui

3.29.2011

libralhada da boa

"Nos tempos antigos. quando pessoas e animais partilhavam a terra, um ser humano podia transformar-se num animal se assim quisesse, e um animal podia transformar-se num ser humano. Às vezes eram pessoas e às vezes animais e não havia diferença alguma. Todos falavam a mesma língua" cita um velho anarquista angolano num refrescante milagrário pessoal.



E que bom seria sermos falcões ou doninhas se assim o quisessemos...

3.16.2011

pensamento I

"Os homens são, regra geral, excelentes pessoas" - Eduardo Sá em entrevista ao Destak de 16 de Março de 2011.

1.26.2011

Coisas sobre cafés no Porto V

Cartoon by Drew at: http://www.toothpastefordinner.com

Li algures que os cafés do Porto conjugam memórias de bairro com vivências cosmopolitas. Concordo plenamente, são locais de encontro de gerações, sensibilidades, de vidas sem nenhum ponto comum que por um momento se cruzam, ou que se cruzam pela primeira de muitas vezes.

Como o diz o meu amigo Hugo, George Steiner escreveu algures que a Europa, enquanto espaço quotidiano comum, já existe nos cafés.

O Porto não foge à regra. Aqui, os cafés são locais de debate, de cultura, de vida partilhada, de conversa desmedida, entre mesas onde o que é poderoso e frágil aflora o palato através da chávena e onde a palavra escorre, descomplexada.

1.20.2011

Coisas sobre Cafés no Porto IV (e afins)



Localizada no Cabo do Mundo, a Casa de Chá da Boa Nova, de autoria de Siza Vieira, é afastado do centro da cidade. É um espaço virado para o promontório avassalador que nos mostra a força do mar e a persistência da pedra.
Uma escadaria limitada por muros altos faz-nos subir ao cimo do afloramento rochoso de onde se contempla o inexorável destino das ondas, a costa. Desconcertante caminho esse, não sobe, ao invés, desce, como que submergindo.
À entrada sobressaem os rasgos dominadores que nos mostram o silêncio do mar. Lá por dentro, revestido de madeira, estamos, de facto, numa cabana de praia.
Aqui beberica-se um café com maresia e a introspecção toma conta de nós. É indescritível, nem sequer coragem há de interromper o lânguido encontro das ondas com a pedra.

12.16.2010

Coisas sobre Cafés no Porto III

photo at Gala´s Night (ver post - porreiro e sentido)


O Café Ceuta, situa-se, tal como os anteriores, nas ruas quentes da nova noite portuense. É hoje, porém, uma leve sombra do brilho da sua abertura em Julho de 1953. Frequentado pelos "habitués" das livrarias das redondezas, é ainda ponto de encontro de gentes activas de ontem, com tempo para reviver, agora.

O edifício é caracterizador do tempo da fundação, com friso de pintura a fresco da autoria de Coelho Figueiredo e lambris forrados a mármore onde encaixam os espelhos cristalinos, já embaciados pelos inúmeros arranjos de cabelos de donzelas casamenteiras e alinhamentos de gravatas de senhores de outrora.

12.14.2010

Coisas sobre Cafés no Porto II

O Café Aviz é um sítio singular.

Fundado por volta da década de 50, apresenta o ambiente típico do Porto. Local de paragem de estudantes, como comprovam as placas dos muitos finalistas universitários que por ali passaram, e outros portuenses passantes, continua a ser reconhecido como local especial para provar a típica Francesinha.

A caminho dos 60 anos é caracterizador dos espaços novos que na altura recriaram o ambiente de café em meados do século XX, agora com novas atracções. O salão de jogos onde os obstinados batoteiros vinham acalmar (ou animar) os ânimos após a labuta diária, destaca-se pelas suas mesas à antiga e o seu baú de memórias, envidraçado, a reclamar a sua história de vidas partilhadas, namoros rompidos, gargalhadas compartidas.

É um lugar onde ainda se respiram as memórias surdas do maralhal que por lá passou e ainda passa a reunir hostes antes da noite que se avizinha.

Surpreendente foto reportagem sobre o Café Aviz em A Cidade Surpreendente

11.29.2010

Coisas sobre Cafés no Porto I


O Café Progresso, aberto em 1899 foi “fundado por meia dúzia de consumidores que, cansados de explorações, resolveram prescindir de quem lhes fornecia géneros avariados para eles os fornecerem, óptimos para si e para os outros” (diz-nos um autor coevo).


Era à altura o “Botequim Progresso” que reuniu nas suas mesas, colocadas em banda, personalidades distintas e individualidades anónimas que debatiam, em torno do mítico café de saco (que ainda produz), temas quentes do dia e outros mexericos de levantar voz.


Dizia Manuel Porto em 1958 que o “café ficou conhecido por nele reunir quotidianamente a fina flor do professorado portuense”. De facto, poderá tal ter ocorrido já que, não raras vezes, era determinado café ponto de encontro de gentes com afinidades profissionais que lá debatiam questões à sua actividade relacionadas, em torno dos inúmeros jornais corporativos que pululavam no Porto.


Em 1963 passa a ser classificado como “café” dando algum lustre aos uniformes brancos dos serventes, que se multiplicavam nas solicitações ao negro néctar e às afamadas torradas, sob a égide do aroma suave a tisnadas bagas doces.


Após uma lenta decadência, comum a vários cafés do Porto, em 2003 celebra a sua reabilitação, dando jus ao brilho de início do século, tendo celebrando, em 2009, as comemorações de respeitosos 110 anos de vida.


Mais sobre o Progresso em: http://www.cafeprogresso.net/
Design do cartaz por: TripleDesign

8.06.2010

A Árvore Generosa ou "Da forma da Arte"

Da arte descomplexada, verdadeira.

De como ser matemático [arte = forma + conteúdo]

De como a literatura não ser densa, bizarra ou alternativa.

De como os clássicos o serem, sem rodeios, nem pudores livrescos.

De como ser intemporal.

De como ler sem complexos.

De como ser cão, burro ou árvore, como nós, sem palavriados recriadores da verdadeira criação, nem discriminação da espécie (esta é intrincada, mas sentida).



A Árvore Generosa [Shel Silverstein] [Espantosa edição da Bruaá Editora]
Platero e Eu [Juan Ramón Jimenez] [Edição de bolso da Biblioteca Editores Independentes]

5.19.2010

Sono, tenham MUITO sono

9 da manhã, sono, MUITO sono!

A edição de Maio da National Geographic Portugal dedica uma meia duzia de páginas às questões dos distúrbios do sono e outras maleitas relacionadas.


Apesar de interessante, chamou-me à atenção uma caixa de texto algo do género:

"Após 24 horas sem dormir, a capacidade e rapidez de resposta a problemas, será semelhante à da ingestão, numa hora, de três copos de whisky"

Alguns dirão que isso é brincadeira de crianças, 3 a 5 copos por hora seria o normal de uma noitada de copos encharcada e se ainda por cima levar com gelo na coisa, não há que temer... mas e se o tipo trata gente e está ao serviço!?

Sobre os efeitos da falta de sono na classe médica, o artigo refere ainda os problemas relacionados, concluindo que (se bem me lembro) 20% dos respondentes da amostra (indivíduos em internato médico) admitiram que isso poderá ter tido repercussões na morte de um paciente...

Bom, que dizer dos turnos brutais que médicos e enfermeiros teimam em fazer nos hospitais portugueses? Bom para a carteira, bom quando não há que fazer e dá para uma soneca, mas e o tipo que chega partido às urgências, será que vai ter alguém apto para o remendar?

Na minha opinião, claramente, não.

24 horas de trabalho ininterrupto dará para ganhar uns trocos extra ao final do mês, mas em profissões em que recai a responsabilidade de manter a corda a bambolear sem partir, parece-me criminosa a manutenção deste sistema que, aliás, é usual por todo o mundo.

Então, qual a utilidade em manter o sistema? Parece-me que a utilidade amplamente responde aos interesses de todos:

. médicos e enfermeiros ganham trocos acrescidos e ainda podem dormitar entre emergências;

. administrações deixam de contratar mais gente para suprir falhas de pessoal deixando de gastar em segurança social e mais a catrefada de treta que paga por contratar;

. ordens e associações vêem alguns dos seus membros satisfeitos;

. o ministério deixa de gastar mais algum com financiamentos inusitados no poço da saúde e a diluir os prejuízos com a má prestação de cuidados na relação custo-benefício em saúde.
O único que perde é o tipo que poderá precisar de cuidados, mas esse, não conta nada, depois de uma queda e de umas quantas escoriações, um anestésico qualquer acalmará os berros para que o pessoal possa pôr o sono em dia e se não houver nenhuma pilula mágica, nada como 3 copos de whisky para lhe aclarar as ideias... mas sem gelo!

5.18.2010

ILGA, ELGA, MILGA e TAL: Eu Manifesto-me

Um dia depois da promolgação do casamento gay, inúmeras reacções têm feito manchete nos jornais.
Partidos congratulam-se, movimentos fazem luto, uns festejam enquanto outros desesperam, ao mesmo tempo que alguém tenta berrar em surdina:
"O Povo é Sereno, não se friccionem socialmente!"
Eu diria antes:
"O Povo é Manso, beijem-se e apalpem-se como puderem e se quiserem casem-se, mas muitas vezes! [para não explicitar ainda mais]"
É que, isto de discutir se alguém é igual ao outro, é de bocado de terra pequenino, charolo e insano, que se diz democrático e igualitário;
Isto de conversar e decidir sobre a possibilidade de alguém ter direitos é de tacanho povo que se deixa enganar pelo blá-blá-blá de um qualquer retórico;
Isto de alguém se insurgir contra qualquer coisa que não lhe diz respeito é de cochicheiro-bate-no-peito, beatedo de um raio, que anda em rebanho atrás de um qualquer pastor de quico na tola.
Por isso, força ILGA, ELGA, MILGA ou lá o que é!

4.12.2010

um quente cheiro a bolo

O bucólico monte verde pintalgado de branco sujo dominava a vista fria da manhã invernal em que o sol se havia afinal mostrado, enquanto o som cadente a chocalhos de ruminantes livres entoavam o canto do campo.
Teimavam na ladainha compassada só interrompida pelo abrupto badalar avisando da chegada do corpo de Graça.
O hálito gélido que queimava entranhas não abrandava na glacial igreja em que, em surdina, velhas megeras urdiam histórias pérfidas de uma vida de devaneios passados da defunta, entre arranques e lamentos de quando em vez aliviados por um rol de tossicares anciãos, em catadupa.
Graça andara de boca-em-boca desde que havia levantado a mão frente ao couro retesado que lhe toldara o lombo, anos a fio. Havia fugido, lambido as feridas profundas de um amor mal amanhado, e vivia agora, lorde de bairro, do seu trabalho ocasional de rodo em punho quando sobreveio a morte, sem interlúdios, no final de um qualquer dia de esfrega e piaçaba.
Ainda pairava o cheiro a bolo quente de chocolate novo quando arremeti pela cozinha logo interrompido pelo corpo hirto de tez suave pontilhado de uma solitária pinga de sangue.
O cheiro, o cheiro a bolo quente, acabado de cozinhar, havia sido testemunha e derradeiro refúgio solitário no chão frio em que exalou o último bafo seguro, sem explicações, só, quando premonizava uma vida de bolos feitos, esturricados, comidos, festejados, vividos.
O cheiro a quente bolo feito inundou a casa, escoltou o legista, acompanhou-a na longa estrada até à perdida aldeia e puxou saliva aos convivas nas exéquias, dissipando-se por fim no cortante vento que recebeu Graça no cemitério ao fundo do vale.
O silêncio sobrepôs-se ao frio universal e o quente cheiro a bolo, o fedor adocicado de bolo feito esfumou-se lentamente, acompanhando o arrastar peremptório da boa terra atirada sobre o feliz corpo de Graça.

5.03.2009

ossos de um quiosque vivo

- Sinto algo muito estranho, Balu... É como se os meus olhos ardessem. Nunca me tinha acontecido. Estarei doente?

- Não, Mogli. São lágrimas - disse Baguera-. Algo que nós nunca poderemos sentir, só os humanos...

E, deixando rolar aquele fogo dos seus olhos pelas faces, Mogli dirigiu-se à aldeia.

As lágrimas dos homens... as lágrimas dos homens... pensava enquanto debitava mecânico o final da história.

Também aquele fogo havia rolado de meus olhos, anos antes, quando finalmente degolara a culpa atribuída que me pesava a consciência.

Do choro nascera a raiva que, com o tempo, transformara-se em tristeza profunda. Foi-se suavizando até se tornar macia... intocável... indiferente...

Mas o peso da culpa que atribuía por décadas de silêncio incorruptível, avassalador, (in)transposto, matinha-se macerador, remoendo os ossos do quiosque vivo de miudezas que tanto custava a vender.

Tudo mudara quando, num insuspeito dia soalheiro de verão, as abandonadas palavras romperam, trôpegas, pelos lábios moribundos do insano culpado.

"Sinto algo estranho" pensei, no momento em que o fogo rolou pelas faces, em catadupa, tal o peso da libertação.

Tudo mudara! Da indiferença brotaram portuguesices sentimentais. Compaixão e piedade arrumaram o rancor e arrefeceram o fogo...

Mas apagá-lo, libertar das cinzas o quiosque em fogo vivo, não. Talvez o fim das suas miudezas possam aliviar o espaço, dedicando-o ao rescaldo de labaredas acesas noutras frentes.

A ressonância da culpa degolada, de quando em vez, volta, para lembrar que lá está, nunca debelada, sedosa ou indiferente.

Mantém-se enraivecida, mas escondida, pelo intercalar da memória em declínio.

3.10.2009

A improvável história de Dona Ana e sua rija fibra de bem-querer descomposto


“De que fibra és feita?” Havia sido a questão de abertura para a história que agora se conta, de boca em boca, no longínquo Castelo Rodrigo de ontem, da altura do gigante Salomão e sua viagem para lá dos Alpes.

Anos passados desde a última vez em que gentes insalubres da raia tinham apontado o dedo a belzebu em pele de mulher, agora volta o clérigo à carga, para culpar Dona Ana de rija fibra pelo seu bem-querer fértil que puxava homem.

Tudo havia começado pela falta de resposta de Dona Ana em confissão. O puro levita a havia condenado, no sermão periódico, a abraçar a pureza e renegar o pecado.

Dona Ana não havia respondido. Sem pressa, puxou-se para longe da fria abadia, entre olhares acusadores, para nunca mais voltar.

Alvo de amores desalinhados que em brasa punham o povoado, de sumptuosos odores à passagem, Dona Ana de rija fibra levantava ventos tempestuosos de desejo e de intempérie, que regavam a aldeia, mal à janela se punha.

“Vento demoníaco” sussurrava a invejosa gentalha por o mesmo não poder esconder. Ciciavam ao ver a improvável tez morena de sorriso suspenso pelo olhar profundo, que antevia segredos inomináveis e vontades saciadas de soslaio.

Gomo de lânguida tensão pulsante, gemia com seus amores de fortuna, sem receio pelo coscuvilhar que profetizava maleita rogada, botada pela pudica bambochata dominical.

Castas palavras a culpavam pelo único amor verdadeiro da cerca. Pela benquerença de si e do momento, pelo verdadeiro saciar de afectos precisos, pelo autêntico acariciar de si própria, pelo ultraje de brandir a sua liberdade de bicho, de mulher, de gente.

Angelicais orações a condenavam ao ardor do inferno, ao caldeirão tártaro, ao vil desprezo da expulsão, à irada crença de pecado, luxúria, gula e mais outros tantos, dos capitais.

Encantadoras beatas de coração partido pelo tresmalhar de uma alma, a exorcizam com o sotaina. No calor da lareira de casa, gemiam sós, abandonadas pelo acre cheiro mofado que as envolvia enquanto os sagrados consortes roncavam.

Dona Ana e seus anónimos bardanas, incólumes à zelotipia detonadora de ódios, libertam-se da frugal roupagem de preconceitos para se dedicarem à bestialidade, ao desejo, ao gemido, ao amor, deixando no passado a inveja insana do povo.

Escapula-se Dona Ana, do Castelo Rodrigo de má memória, para fazer do incerto sua morada segura, do fortuito forma de vida, da liberdade uma certeza.

Tempos funestos em sítio agreste, esse em que Dona Ana viveu, sem sequer um mísero quiosque seguro como abrigo.

12.23.2008

linda elísia e seus dois quiosques

Elísia de róseos dedos, qual aurora de outros tempos, desponta devagar para mais um derradeiro dia no mar de prisões que a libertam das grilhetas.

Fotografias centenárias chamam por ela, dia após dia, no soturno quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois dos anos idos em saurées e vestidos esvoaçantes, lilases e carmins, de decotes tentadores e olhares de soslaio.

Elísia de tez suave desiste do desabrochar, quer mais um minuto do sonho lindo de madame que insiste em aparecer, dia após dia, no melancólico quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois de décadas de ordens dadas e vontades satisfeitas, de vénias à sua passagem, de salamaleques pela sua presença, de anuências ao seu desejo.

Elísia perfumada de si mesma volta-se no cafre, espalhando o hálito quente do macilento lençol, que dia após dia é sua companhia de solidão, depois de minutos de fama, horas de glória e dias de júbilo pela sua existência, matriarca das gentes, criadora do céu e da terra, glória de todos os tempos, vontade de todos os homens.

Elísia de esguio pescoço, deixa-se cair na almofada granulosa, depois de tempos idos de vã glória, de mandar, de querer e receber.

Acorda linda Elísia! És livre agora - diz para si.

Acordou linda Elísia no seu casebre de vontades, desejos e quereres, no seu quiosque de verdade.
Acordou linda Elísia, livre do estigma e da vontade alheia.
Acordou linda Elísia com seus olhares enigmáticos e aterradores pela possibilidade de ver cá dentro, como nunca ninguém viu em todos os tempos paralelos.
Acordará linda Elísia, uma e outra vez, sem interrupções, livre, radiante e sonhadora. Renovará o acordar de todas as Elísias passadas, presentes e futuras até adormecer finalmente, embalada pelo relojoeiro universal.

10.01.2008

Luz verde para amar, no quiosque de D. Maria

"Luz verde para amar" anunciava o letreiro bamboleante, dando as boas vindas no quiosque de D. Maria.
Poucos havia que se lembravam de aí ter funcionado um mal amanhado cafofo que alentava o cliente sorridente, lânguido e ronronante nas noites da lua monumental.
D. Maria nem sabia sequer da existência desse pardieiro de desamores. Apenas manteve a sibilante ferraria por apreciar a permonição de mau tempo pelo guincho estridente do seu bambolear.
"Aí vem borrasca!" repetia vezes sem conta, sem exalar um som, à matrona tagarela que sempre parava o passo, pelas sete e trinta, antes de picar o ponto no matadouro do fundo da vila.
D. Maria de olhos cansados pelo acumular de rodopios da tabuleta ferrujenta e encavados pelo ar rarefeito que se respirava no mofado quiosque, era mítica (pensava) pela vermelhidão de suas bochechas, luzidias e cerosas, que faziam antever noites bem dormidas de celibato, sem apuros de razões nem mal refreadas pelejas corpo-a-corpo.
Nos infindos anos de solidão, do quiosque vazio fez morada, da casa-maldita-de-congosta lar, do beiral térreo pardieiro, do olhar tristonho máscara de todos os dias, da sua inexistência verdade.
Sonhos houve que a acordaram com suores gélidos pelo vazio de conteúdo. Sem passado nem futuro, sem mercadoria para comerciar, nem perspectiva dos dias depois de amanhã, mantinha uma estranha convivência consigo mesma, ora metralhando longas e profundas conversas com o horizonte, ora ensimesmada nos seus ingénuos olhares focados na mente.
D. Maria É gelo, É vida cortada, É sim e não, vontade sem braços, sexo sem orgasmo, verdade sem mentira, nem sabe sequer o que É.
Existe, claro, mas não deixa memória, de cabelos curtos e silhueta anafada, de sons interiores bem audíveis, olhares esperançosos mas bafientos, ninguém se lembra do timbre, do cheiro do seu hálito, da pronúncia dos seu "ais" ou da memória de seus dentes parcos.
Espera que a vida passe sem demasiada vontade, com vagar. Silencioso sopro de existência quer-se deixar ir para na próxima, de novo, tentar viver, D. Maria de boa memória.
17/05/2008

12.28.2007

sabores perdidos no quiosque quelimane

Nas fraldas do penedo de São João, em terras de demónios escondidos em gente de bem, o encerrado quiosque quelimane subsiste de fantasias e sonhos de volta ao passado de Arménio Jerónimo.
De tez calcinada por aventuras desmedidas e estórias fantásticas, o velho esquecido e solitário tornado à pacatez do berço deixa fugir, às 16.30 de todos os dias, antigas lendas e mitos de feitiços, caçadas e mezinhas que recria, teimosamente, na tasca do zé manel. Revê-se nos antigos sabores agressivos do whisky destilado em baldaria de segunda a que se havia habituado nas longas viagens pela planura dourada da savana sobrevoada.
Retornado do caldo bojudo e arisco nessas lonjuras da áfrica portuguesa, é uma ténue imagem de si: um colono improvável e autoritário que impunha posturas e eliminava sem mágoas todo a escaruma que lhe impedisse o passo.
Revoltado pelo fim do paraíso colonial de que se lembra ter vivido, é hoje um tocador de pífaro na filarmónica de Esbojães, para reviver, ao som da melodia cega, sons e cheiros que nunca mais sentiu, que espera renominar nos segundos finais, quando a vida esvoaçar em daguerriótipos escurecidos diante si.
Revolvido pelo presente impessoal e tacanho da aldeia natal que nunca foi de verdade sua, deixa à banda o bibaque azul, sentindo o que outrora fora o resguardo suado da brasa que por lá se impunha.
Relembrando o odor pestilento e viciante de sangue animal em terra virgem, deixa-se levar pela brisa outonal do fim de tarde silencioso nas montanhas musgo e ouro, quebradas pelo chilrear dos últimos sobreviventes do adormecer de Dezembro. Tenta inspirar o leve hálito que a terra humanizada ainda exala, lembrando a quem a agarra que ainda sobrevive a senhora do lago.
Sobrevive, enlutado e sem garra, teimando nas lembranças que ainda resistem aos lampejos de esquecimento cada vez mais frequentes, fazendo-o desesperar por menos um dia na balbúrdia da civilidade.
Arménio Jerónimo resiste, teimosamente, ao esquecimento lembrando a terra autêntica, original, sem mácula nem cultura que subsiste em fantasia. Lembra a remota áfrica nossa, onde a verdade humana é real, onde a vida circula ao som da natureza e não ao toque de caixa da humanidade. Onde tudo é autêntico, frio, cru, sedento de sanguíneas realidades e alvo de trastes humanos. Onde a natureza funciona, não como por cá, em que aldeias pitorescas, recalcadas de tantas outras, nunca deixarão memória de si. Serão nada, serão vazio, serão uma côdea mal amada, uma terra de ninguém.
Arménio Jerónimo fantasia, interioriza, enlouquece e morre, por dentro e por fora, deixando a saudade voar pelas imagens dos últimos baques.