11.29.2010

Coisas sobre Cafés no Porto I


O Café Progresso, aberto em 1899 foi “fundado por meia dúzia de consumidores que, cansados de explorações, resolveram prescindir de quem lhes fornecia géneros avariados para eles os fornecerem, óptimos para si e para os outros” (diz-nos um autor coevo).


Era à altura o “Botequim Progresso” que reuniu nas suas mesas, colocadas em banda, personalidades distintas e individualidades anónimas que debatiam, em torno do mítico café de saco (que ainda produz), temas quentes do dia e outros mexericos de levantar voz.


Dizia Manuel Porto em 1958 que o “café ficou conhecido por nele reunir quotidianamente a fina flor do professorado portuense”. De facto, poderá tal ter ocorrido já que, não raras vezes, era determinado café ponto de encontro de gentes com afinidades profissionais que lá debatiam questões à sua actividade relacionadas, em torno dos inúmeros jornais corporativos que pululavam no Porto.


Em 1963 passa a ser classificado como “café” dando algum lustre aos uniformes brancos dos serventes, que se multiplicavam nas solicitações ao negro néctar e às afamadas torradas, sob a égide do aroma suave a tisnadas bagas doces.


Após uma lenta decadência, comum a vários cafés do Porto, em 2003 celebra a sua reabilitação, dando jus ao brilho de início do século, tendo celebrando, em 2009, as comemorações de respeitosos 110 anos de vida.


Mais sobre o Progresso em: http://www.cafeprogresso.net/
Design do cartaz por: TripleDesign

8.06.2010

A Árvore Generosa ou "Da forma da Arte"

Da arte descomplexada, verdadeira.

De como ser matemático [arte = forma + conteúdo]

De como a literatura não ser densa, bizarra ou alternativa.

De como os clássicos o serem, sem rodeios, nem pudores livrescos.

De como ser intemporal.

De como ler sem complexos.

De como ser cão, burro ou árvore, como nós, sem palavriados recriadores da verdadeira criação, nem discriminação da espécie (esta é intrincada, mas sentida).



A Árvore Generosa [Shel Silverstein] [Espantosa edição da Bruaá Editora]
Platero e Eu [Juan Ramón Jimenez] [Edição de bolso da Biblioteca Editores Independentes]

5.19.2010

Sono, tenham MUITO sono

9 da manhã, sono, MUITO sono!

A edição de Maio da National Geographic Portugal dedica uma meia duzia de páginas às questões dos distúrbios do sono e outras maleitas relacionadas.


Apesar de interessante, chamou-me à atenção uma caixa de texto algo do género:

"Após 24 horas sem dormir, a capacidade e rapidez de resposta a problemas, será semelhante à da ingestão, numa hora, de três copos de whisky"

Alguns dirão que isso é brincadeira de crianças, 3 a 5 copos por hora seria o normal de uma noitada de copos encharcada e se ainda por cima levar com gelo na coisa, não há que temer... mas e se o tipo trata gente e está ao serviço!?

Sobre os efeitos da falta de sono na classe médica, o artigo refere ainda os problemas relacionados, concluindo que (se bem me lembro) 20% dos respondentes da amostra (indivíduos em internato médico) admitiram que isso poderá ter tido repercussões na morte de um paciente...

Bom, que dizer dos turnos brutais que médicos e enfermeiros teimam em fazer nos hospitais portugueses? Bom para a carteira, bom quando não há que fazer e dá para uma soneca, mas e o tipo que chega partido às urgências, será que vai ter alguém apto para o remendar?

Na minha opinião, claramente, não.

24 horas de trabalho ininterrupto dará para ganhar uns trocos extra ao final do mês, mas em profissões em que recai a responsabilidade de manter a corda a bambolear sem partir, parece-me criminosa a manutenção deste sistema que, aliás, é usual por todo o mundo.

Então, qual a utilidade em manter o sistema? Parece-me que a utilidade amplamente responde aos interesses de todos:

. médicos e enfermeiros ganham trocos acrescidos e ainda podem dormitar entre emergências;

. administrações deixam de contratar mais gente para suprir falhas de pessoal deixando de gastar em segurança social e mais a catrefada de treta que paga por contratar;

. ordens e associações vêem alguns dos seus membros satisfeitos;

. o ministério deixa de gastar mais algum com financiamentos inusitados no poço da saúde e a diluir os prejuízos com a má prestação de cuidados na relação custo-benefício em saúde.
O único que perde é o tipo que poderá precisar de cuidados, mas esse, não conta nada, depois de uma queda e de umas quantas escoriações, um anestésico qualquer acalmará os berros para que o pessoal possa pôr o sono em dia e se não houver nenhuma pilula mágica, nada como 3 copos de whisky para lhe aclarar as ideias... mas sem gelo!

5.18.2010

ILGA, ELGA, MILGA e TAL: Eu Manifesto-me

Um dia depois da promolgação do casamento gay, inúmeras reacções têm feito manchete nos jornais.
Partidos congratulam-se, movimentos fazem luto, uns festejam enquanto outros desesperam, ao mesmo tempo que alguém tenta berrar em surdina:
"O Povo é Sereno, não se friccionem socialmente!"
Eu diria antes:
"O Povo é Manso, beijem-se e apalpem-se como puderem e se quiserem casem-se, mas muitas vezes! [para não explicitar ainda mais]"
É que, isto de discutir se alguém é igual ao outro, é de bocado de terra pequenino, charolo e insano, que se diz democrático e igualitário;
Isto de conversar e decidir sobre a possibilidade de alguém ter direitos é de tacanho povo que se deixa enganar pelo blá-blá-blá de um qualquer retórico;
Isto de alguém se insurgir contra qualquer coisa que não lhe diz respeito é de cochicheiro-bate-no-peito, beatedo de um raio, que anda em rebanho atrás de um qualquer pastor de quico na tola.
Por isso, força ILGA, ELGA, MILGA ou lá o que é!

4.12.2010

um quente cheiro a bolo

O bucólico monte verde pintalgado de branco sujo dominava a vista fria da manhã invernal em que o sol se havia afinal mostrado, enquanto o som cadente a chocalhos de ruminantes livres entoavam o canto do campo.
Teimavam na ladainha compassada só interrompida pelo abrupto badalar avisando da chegada do corpo de Graça.
O hálito gélido que queimava entranhas não abrandava na glacial igreja em que, em surdina, velhas megeras urdiam histórias pérfidas de uma vida de devaneios passados da defunta, entre arranques e lamentos de quando em vez aliviados por um rol de tossicares anciãos, em catadupa.
Graça andara de boca-em-boca desde que havia levantado a mão frente ao couro retesado que lhe toldara o lombo, anos a fio. Havia fugido, lambido as feridas profundas de um amor mal amanhado, e vivia agora, lorde de bairro, do seu trabalho ocasional de rodo em punho quando sobreveio a morte, sem interlúdios, no final de um qualquer dia de esfrega e piaçaba.
Ainda pairava o cheiro a bolo quente de chocolate novo quando arremeti pela cozinha logo interrompido pelo corpo hirto de tez suave pontilhado de uma solitária pinga de sangue.
O cheiro, o cheiro a bolo quente, acabado de cozinhar, havia sido testemunha e derradeiro refúgio solitário no chão frio em que exalou o último bafo seguro, sem explicações, só, quando premonizava uma vida de bolos feitos, esturricados, comidos, festejados, vividos.
O cheiro a quente bolo feito inundou a casa, escoltou o legista, acompanhou-a na longa estrada até à perdida aldeia e puxou saliva aos convivas nas exéquias, dissipando-se por fim no cortante vento que recebeu Graça no cemitério ao fundo do vale.
O silêncio sobrepôs-se ao frio universal e o quente cheiro a bolo, o fedor adocicado de bolo feito esfumou-se lentamente, acompanhando o arrastar peremptório da boa terra atirada sobre o feliz corpo de Graça.

5.03.2009

ossos de um quiosque vivo

- Sinto algo muito estranho, Balu... É como se os meus olhos ardessem. Nunca me tinha acontecido. Estarei doente?

- Não, Mogli. São lágrimas - disse Baguera-. Algo que nós nunca poderemos sentir, só os humanos...

E, deixando rolar aquele fogo dos seus olhos pelas faces, Mogli dirigiu-se à aldeia.

As lágrimas dos homens... as lágrimas dos homens... pensava enquanto debitava mecânico o final da história.

Também aquele fogo havia rolado de meus olhos, anos antes, quando finalmente degolara a culpa atribuída que me pesava a consciência.

Do choro nascera a raiva que, com o tempo, transformara-se em tristeza profunda. Foi-se suavizando até se tornar macia... intocável... indiferente...

Mas o peso da culpa que atribuía por décadas de silêncio incorruptível, avassalador, (in)transposto, matinha-se macerador, remoendo os ossos do quiosque vivo de miudezas que tanto custava a vender.

Tudo mudara quando, num insuspeito dia soalheiro de verão, as abandonadas palavras romperam, trôpegas, pelos lábios moribundos do insano culpado.

"Sinto algo estranho" pensei, no momento em que o fogo rolou pelas faces, em catadupa, tal o peso da libertação.

Tudo mudara! Da indiferença brotaram portuguesices sentimentais. Compaixão e piedade arrumaram o rancor e arrefeceram o fogo...

Mas apagá-lo, libertar das cinzas o quiosque em fogo vivo, não. Talvez o fim das suas miudezas possam aliviar o espaço, dedicando-o ao rescaldo de labaredas acesas noutras frentes.

A ressonância da culpa degolada, de quando em vez, volta, para lembrar que lá está, nunca debelada, sedosa ou indiferente.

Mantém-se enraivecida, mas escondida, pelo intercalar da memória em declínio.

3.10.2009

A improvável história de Dona Ana e sua rija fibra de bem-querer descomposto


“De que fibra és feita?” Havia sido a questão de abertura para a história que agora se conta, de boca em boca, no longínquo Castelo Rodrigo de ontem, da altura do gigante Salomão e sua viagem para lá dos Alpes.

Anos passados desde a última vez em que gentes insalubres da raia tinham apontado o dedo a belzebu em pele de mulher, agora volta o clérigo à carga, para culpar Dona Ana de rija fibra pelo seu bem-querer fértil que puxava homem.

Tudo havia começado pela falta de resposta de Dona Ana em confissão. O puro levita a havia condenado, no sermão periódico, a abraçar a pureza e renegar o pecado.

Dona Ana não havia respondido. Sem pressa, puxou-se para longe da fria abadia, entre olhares acusadores, para nunca mais voltar.

Alvo de amores desalinhados que em brasa punham o povoado, de sumptuosos odores à passagem, Dona Ana de rija fibra levantava ventos tempestuosos de desejo e de intempérie, que regavam a aldeia, mal à janela se punha.

“Vento demoníaco” sussurrava a invejosa gentalha por o mesmo não poder esconder. Ciciavam ao ver a improvável tez morena de sorriso suspenso pelo olhar profundo, que antevia segredos inomináveis e vontades saciadas de soslaio.

Gomo de lânguida tensão pulsante, gemia com seus amores de fortuna, sem receio pelo coscuvilhar que profetizava maleita rogada, botada pela pudica bambochata dominical.

Castas palavras a culpavam pelo único amor verdadeiro da cerca. Pela benquerença de si e do momento, pelo verdadeiro saciar de afectos precisos, pelo autêntico acariciar de si própria, pelo ultraje de brandir a sua liberdade de bicho, de mulher, de gente.

Angelicais orações a condenavam ao ardor do inferno, ao caldeirão tártaro, ao vil desprezo da expulsão, à irada crença de pecado, luxúria, gula e mais outros tantos, dos capitais.

Encantadoras beatas de coração partido pelo tresmalhar de uma alma, a exorcizam com o sotaina. No calor da lareira de casa, gemiam sós, abandonadas pelo acre cheiro mofado que as envolvia enquanto os sagrados consortes roncavam.

Dona Ana e seus anónimos bardanas, incólumes à zelotipia detonadora de ódios, libertam-se da frugal roupagem de preconceitos para se dedicarem à bestialidade, ao desejo, ao gemido, ao amor, deixando no passado a inveja insana do povo.

Escapula-se Dona Ana, do Castelo Rodrigo de má memória, para fazer do incerto sua morada segura, do fortuito forma de vida, da liberdade uma certeza.

Tempos funestos em sítio agreste, esse em que Dona Ana viveu, sem sequer um mísero quiosque seguro como abrigo.

12.23.2008

linda elísia e seus dois quiosques

Elísia de róseos dedos, qual aurora de outros tempos, desponta devagar para mais um derradeiro dia no mar de prisões que a libertam das grilhetas.

Fotografias centenárias chamam por ela, dia após dia, no soturno quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois dos anos idos em saurées e vestidos esvoaçantes, lilases e carmins, de decotes tentadores e olhares de soslaio.

Elísia de tez suave desiste do desabrochar, quer mais um minuto do sonho lindo de madame que insiste em aparecer, dia após dia, no melancólico quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois de décadas de ordens dadas e vontades satisfeitas, de vénias à sua passagem, de salamaleques pela sua presença, de anuências ao seu desejo.

Elísia perfumada de si mesma volta-se no cafre, espalhando o hálito quente do macilento lençol, que dia após dia é sua companhia de solidão, depois de minutos de fama, horas de glória e dias de júbilo pela sua existência, matriarca das gentes, criadora do céu e da terra, glória de todos os tempos, vontade de todos os homens.

Elísia de esguio pescoço, deixa-se cair na almofada granulosa, depois de tempos idos de vã glória, de mandar, de querer e receber.

Acorda linda Elísia! És livre agora - diz para si.

Acordou linda Elísia no seu casebre de vontades, desejos e quereres, no seu quiosque de verdade.
Acordou linda Elísia, livre do estigma e da vontade alheia.
Acordou linda Elísia com seus olhares enigmáticos e aterradores pela possibilidade de ver cá dentro, como nunca ninguém viu em todos os tempos paralelos.
Acordará linda Elísia, uma e outra vez, sem interrupções, livre, radiante e sonhadora. Renovará o acordar de todas as Elísias passadas, presentes e futuras até adormecer finalmente, embalada pelo relojoeiro universal.

10.01.2008

Luz verde para amar, no quiosque de D. Maria

"Luz verde para amar" anunciava o letreiro bamboleante, dando as boas vindas no quiosque de D. Maria.
Poucos havia que se lembravam de aí ter funcionado um mal amanhado cafofo que alentava o cliente sorridente, lânguido e ronronante nas noites da lua monumental.
D. Maria nem sabia sequer da existência desse pardieiro de desamores. Apenas manteve a sibilante ferraria por apreciar a permonição de mau tempo pelo guincho estridente do seu bambolear.
"Aí vem borrasca!" repetia vezes sem conta, sem exalar um som, à matrona tagarela que sempre parava o passo, pelas sete e trinta, antes de picar o ponto no matadouro do fundo da vila.
D. Maria de olhos cansados pelo acumular de rodopios da tabuleta ferrujenta e encavados pelo ar rarefeito que se respirava no mofado quiosque, era mítica (pensava) pela vermelhidão de suas bochechas, luzidias e cerosas, que faziam antever noites bem dormidas de celibato, sem apuros de razões nem mal refreadas pelejas corpo-a-corpo.
Nos infindos anos de solidão, do quiosque vazio fez morada, da casa-maldita-de-congosta lar, do beiral térreo pardieiro, do olhar tristonho máscara de todos os dias, da sua inexistência verdade.
Sonhos houve que a acordaram com suores gélidos pelo vazio de conteúdo. Sem passado nem futuro, sem mercadoria para comerciar, nem perspectiva dos dias depois de amanhã, mantinha uma estranha convivência consigo mesma, ora metralhando longas e profundas conversas com o horizonte, ora ensimesmada nos seus ingénuos olhares focados na mente.
D. Maria É gelo, É vida cortada, É sim e não, vontade sem braços, sexo sem orgasmo, verdade sem mentira, nem sabe sequer o que É.
Existe, claro, mas não deixa memória, de cabelos curtos e silhueta anafada, de sons interiores bem audíveis, olhares esperançosos mas bafientos, ninguém se lembra do timbre, do cheiro do seu hálito, da pronúncia dos seu "ais" ou da memória de seus dentes parcos.
Espera que a vida passe sem demasiada vontade, com vagar. Silencioso sopro de existência quer-se deixar ir para na próxima, de novo, tentar viver, D. Maria de boa memória.
17/05/2008

12.28.2007

sabores perdidos no quiosque quelimane

Nas fraldas do penedo de São João, em terras de demónios escondidos em gente de bem, o encerrado quiosque quelimane subsiste de fantasias e sonhos de volta ao passado de Arménio Jerónimo.
De tez calcinada por aventuras desmedidas e estórias fantásticas, o velho esquecido e solitário tornado à pacatez do berço deixa fugir, às 16.30 de todos os dias, antigas lendas e mitos de feitiços, caçadas e mezinhas que recria, teimosamente, na tasca do zé manel. Revê-se nos antigos sabores agressivos do whisky destilado em baldaria de segunda a que se havia habituado nas longas viagens pela planura dourada da savana sobrevoada.
Retornado do caldo bojudo e arisco nessas lonjuras da áfrica portuguesa, é uma ténue imagem de si: um colono improvável e autoritário que impunha posturas e eliminava sem mágoas todo a escaruma que lhe impedisse o passo.
Revoltado pelo fim do paraíso colonial de que se lembra ter vivido, é hoje um tocador de pífaro na filarmónica de Esbojães, para reviver, ao som da melodia cega, sons e cheiros que nunca mais sentiu, que espera renominar nos segundos finais, quando a vida esvoaçar em daguerriótipos escurecidos diante si.
Revolvido pelo presente impessoal e tacanho da aldeia natal que nunca foi de verdade sua, deixa à banda o bibaque azul, sentindo o que outrora fora o resguardo suado da brasa que por lá se impunha.
Relembrando o odor pestilento e viciante de sangue animal em terra virgem, deixa-se levar pela brisa outonal do fim de tarde silencioso nas montanhas musgo e ouro, quebradas pelo chilrear dos últimos sobreviventes do adormecer de Dezembro. Tenta inspirar o leve hálito que a terra humanizada ainda exala, lembrando a quem a agarra que ainda sobrevive a senhora do lago.
Sobrevive, enlutado e sem garra, teimando nas lembranças que ainda resistem aos lampejos de esquecimento cada vez mais frequentes, fazendo-o desesperar por menos um dia na balbúrdia da civilidade.
Arménio Jerónimo resiste, teimosamente, ao esquecimento lembrando a terra autêntica, original, sem mácula nem cultura que subsiste em fantasia. Lembra a remota áfrica nossa, onde a verdade humana é real, onde a vida circula ao som da natureza e não ao toque de caixa da humanidade. Onde tudo é autêntico, frio, cru, sedento de sanguíneas realidades e alvo de trastes humanos. Onde a natureza funciona, não como por cá, em que aldeias pitorescas, recalcadas de tantas outras, nunca deixarão memória de si. Serão nada, serão vazio, serão uma côdea mal amada, uma terra de ninguém.
Arménio Jerónimo fantasia, interioriza, enlouquece e morre, por dentro e por fora, deixando a saudade voar pelas imagens dos últimos baques.

12.07.2007

do quiosque salamano

O velho parasita deixa-se levar pela revoada intransigente que o conduz estrada abaixo, para os confins da aldeia obscura em que habita há setenta e tal anos.

Periclitante, arrasta-se entre pedras talhadas ao acaso da marreta, que limitam a congosta húmida e fria, calçada com granito persistente e escorregadio pelo uso.

O frio aperta, gela o nariz enquanto o bafo não o conforta. Deixa um leve ardor no respirar e deixa exalar um hálito fumegante que rápido se dissipa na folhagem despenteada que surge, mal Remoinhos termina.

O velho estafermo continua sem rumo na bruma que se põe e que o impede de ver o destino. Décadas depois de ter sido parido nessas paragens, "no mato, por entre feras e demónios", como tinha ouvido vezes sem conta a sua parideira ressentida, caminha para a morte, depois de atazanar a aldeia com as suas devassidões de mastro à mostra e de fornicações animalescas.

“Puta que pariu o velho!” Era a frase que andava de boca em boca nos últimos 15 anos, desde que caiu da cadeira em que se apoiava para aviar a égua. Desde lá, só o cajado lhe permite deambular, sem rumo e sem amor, pelas ruelas frígidas desse asilo de velhos que esperam a morte, na serra vazia.

“Que o diabo o carregue para de onde veio”, ouviu sair do quiosque Salamano, antes de se perder no caralho do nevoeiro.

“Que o diabo vos carregue comigo, cabrões lambe-cus!” disse nostálgico antes de se perder no manto branco.

6.22.2007

o domínio do delírio e da alucinação

Sinto em mim, neste momento, qualquer coisa de estranho, de perturbante...

A fantasia sobre alto, a regiões inacessíveis, em cavalgaduras valquirianas, para além das nuvens, a perder-se na penumbra do infinito. Vou seguindo, involuntariamente, trajectórias que não obedecem a regras ou traçados. As luzes do bom senso começam a extinguir-se.

Não ouvem? Não sentem o estropear dos ginetes, o guizalhar dos truões, as gargalhadas dos bobos, as arruaças dos estriões, o ruído das matracas, o grito estridente das trombetas, um clamor jazebândico de agressivos sons?


É o cortejo que surge!


Fez-se silêncio.

Não vêem? Abrem alas. Todos se dobram reverentes. Sobre tapeçarias de bizarras cores, avança a passos resolutos, na indumentária de cerimónia do advento do século de Quinhentos, uma dama altiva, de vestido branco, longas mangas perdidas, gola cingida sobre encaixe agaloado, capacete bordado a pérolas...


É sua Majestade a Loucura!


A fanfarra e o séquito debandaram...


Apenas a acompanha um homem baixo, cuja fisionomia me não é estranha, sem a sua gorra escura, nem a sua face vincada de traços firmes e vigoroso. Fitam-me, de relance, os seus olhos azuis que lembram oriem nortenha. Oculta-se atrás da figura esbelta da dama que avança. Pede atenção. A Loucura vai falar.

In Moniz, Egas (1948). O Domínio do Delírio e da Alucinação. Centenário do Hospital Miguel Bombarda - Antigo Hospital de Rilhafoles (1848-1948). p. 233.

6.20.2007

fast facts


A Troubled Beginning
Photograph by Karen Kasmauski

Just minutes old, a baby in Bangladesh faces an uncertain future. With a low birth weight by international standards—less than 2,500 grams, or about five and a half pounds (2.5 kilograms)— this baby is much more likely to get sick and to succumb to disease than a newborn of normal size. More than 50 percent of babies in Bangladesh start out underweight.

In National Geographic

6.12.2007

majulah singapura

Minúsculos e impotentes, deambulam sem rumo nas ruas oprimidas pelos altos prédios que impedem a brasa de crepitar na pele.

Assim acontece desde os saudosos tempos de Thomas Raffles, quando cá aportou para colonizar, domar e modernizar esses marginais bárbaros que impediam a ordem e o progresso.

Quase 200 anos depois Ramanathan rege com o mesmo perfil: domar, modernizar e colonizar a economia mundial, tentando impor alguma ordem no fernesim de gente ensimesmada que, tóxica, impede o olhar desviado daquele insano transeunte que insiste em mandriar.

Raios e metal colidem estridentes no turbilhão de sons partilhados pela maralha incógnita. É um barulho implacável o que se ouve a milhares de quilómetros e que dá à cidade uma áurea de insalubridade deprimente.

As entranhas revoltam-se com o manjar disponível em uma qualquer banca do comércio tradicional. Farfalhos e arranques impedem de saborear os viscerais petiscos a que temos acesso.

Nada distrai o estômago da entoação acre, da fragrância oleosa das iguarias exóticas que saúdam o viandante ingénuo nas artérias abismais, seguindo o rebanho atarefado rumo ao conforto da cadeira laboral.

É um mundo paralelo o do comum singapuriano, lançador profissional de rojões crepitantes em alturas do Deepavali.

É uma vida modernizada, colonizada e domada a do incógnito malaio que por cá sobrevive.

É uma existência ensurdecedora, alietória, impessoal, intransigente e categoricamente descompensada, a da Singapura global em que habitámos.

5.31.2007

pontos em andamento

Pontos imensos, multidimensionais sobrepõe-se coloridos para formar a paisagem fluvial que faz gesticular o banheiro ao chamar pelos pequenos reguilas saltitantes, do alto tronco ao azul celeste.

São fontes de luz que se aglutinam para criar a realidade, não paisagem mas cena de género. Esvai-se ao fechar as pálpebras sonolentas, iniciando a viagem nessa corrente de luz que cedo chegará à funda catarata criando o feixe enclausurado no negro fio.

O lume sem sombra rodopia, qual bola de fogo, em amena brisa que nos embala ao som do silêncio zumbidor. Espera a faísca cortante para impelir ao pensamento.

Constrói vontades indesejáveis. Electrocutado, torna-se elementos criador, concebe e deixa nascer a vontade de construir.

É a verdade indesejável do tom azul que à casa torna após a longa viagem rumo ao lar. Água e luz, pedra e cal alimentam-se a si mesmos para se criarem de novo. Não nascem, parem-se uma e outra vez, já dizia Leão XII.

2.28.2007

...

E digo-vos que a vida é de facto obscuridade
Excepto onde há arrebatamento,
E todo o arrebatamento é cego excepto onde há saber,
E todo o saber é vão excepto onde há trabalho
E todo o trabalho é vazio excepto onde há amor.

E o que é trabalhar com amor?
É pôr em todas as coisas que fazeis
Um sopre do vosso espírito.

Khalil Gibran

2.21.2007

espaços suspensos

Espaços!

Espaços reais, visíveis, são todos aqueles que a retina alcança.

Todos os outros, aqueles que nunca revelámos também o são. Aliás, são-no ainda com mais força, nunca visualizados e por vezes incompreendidos, são abstracções formadas por conceitos vagos que se vão transfigurando num universo sensível ao toque e ao pensamento.

Livres são esses hologramas.

Verídicos!? Com certeza ou sem ela existem pela qualidade real que encerram e pelas infindas possibilidades de montagem que propiciam. Ora fixos, ora amovíveis, são estas as verdadeiras celas que nos encerram, que nos enclausuram.

Sem darmos por isso absorvem o intelecto para dele sobreviverem. Os espaços ilusórios são assim, parasitas insaciáveis que se alimentam do olhar para acrescentarem mais uma vida ao espaço suspenso. Deixam-nos vegetar no leito X da camarata global.

São imperativos e autoritários, escorregadios e incompreensíveis, desconhecidos e irreconhecíveis. Bebem do real para crescer até ao infinito.

Dão-nos a volta. Fazem de nós o que querem. Às vezes dão-nos pistas da sua existência mas logo as apagam para que o seu crescimento seja contínuo e imparável.

Propiciam-nos uma visão a cores da existência para a consideramos autêntica, una, mas constantemente mutável pela sua força.

Espaços e qualidades provadas deixam de ser as que conseguimos compreender, passam a ser virtuais, ilusórias.

Sofrónia, nome irreal que me parece ter sido um dos que alguma vez foi mencionado, deixa pensar, reflectir, julgar, avaliar, mas desaparece mal prenunciam o seu nome.

2.02.2007

"O acto sexual é para ter filhos" dizia o Morgado...

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.


Natália Correia - 3 de Abril de 1982

12.26.2006

leituras

Em tempos de acalmia nada como uma viagem com Corto, por entre canais e pontes escusas, rumo a vielas perdidas de um labirinto sem fim...

12.14.2006

espaços verdadeiros

Radiante ar o que rodeia aquele espaço idílico em que tudo é verdejante e bucólico, habitação do vitorioso soldado desconhecido.

De belas formas, esvoaça de vestes transparentes que fazem perceber lânguidos movimentos sugestivos. Vitorioso mas cego, antes acéfalo, deixa-se admirar pelo idólatra anónimo sem lhe cobrar o olhar.

Com ele segue a verdade, esse figurino dúbio que se acosta à vida, mas cujo vislumbre limitado é apenas apanágio dos que a levam, sempre com imaculada ironia. De facto, não difere da mentira, experimentada no que se não tem e tantas vezes no que se conta.

A descrição fantasiosa do real não é mais do que o irreal verdadeiro ou o autêntico falseado. Daqui resulta o poder da visão e de ela reconhecer na verdade, a certeza ou a ambiguidade, nunca confirmando as formas para lá dos panejamentos.

Assim é Olívia, essa cidade fantástica em que tudo parece ser e nada é, realmente, como soía.

12.11.2006

colores me gustan a mí


Descentrado revivo num limbo de suspiro e inquietação, ora porque tudo está bem, ora porque algo de diferente se passa no cosmos novo e desconhecido da duplicidade.

Já não sou o que sou, sou o que se é, não fosse ser o mesmo depois de me transfigurar num pequenito ser que vasculha o olhar alheio à procura de respostas, no estranho mundo das pequenas coisas.

50 centímetros e meio depois, revejo-me em sons e gestos que em nada se repetem, mas que pobre imprudente, reverto em sinais de um tempo em que já o fomos também.

É isto, um constante nó na garganta, uma permanente lembrança, um incessante cuidar e um desassossegado marinar horizontal, à espera do próximo titubear encarniçado, não vá o joão-pestana pegar.

11.20.2006

Maria João a Preto e Branco


Qual Sebastianista, Maria João surge da penumbra para mostrar-se ao mundo!

Sem querer ser parcial, é bem bonita a petiz, com aquelas bochechitas arredondadas... a quem sairá!?

Cenas de uma crónica há muito iniciada, mas só agora vislumbrada...

11.01.2006

novas do passado

A não perder a reportagem Menina de Dikika, este mês na National Geographic Magazine.

Viveu há cerca de 3.3 milhões de anos no território que é hoje a Etiópia. Os seus ossos fossilizados fornecem pistas valiosas sobre uma fase decisiva da evolução dos hominídeos.

Texto de C. Sloan
Fotografia de K. Garrett

10.23.2006

Q...Q..CO.....COOFF!!!

.... a espinha saiu... intento em regressar já já!

Al alba vincero!

10.16.2006

quando o tempo passa

Quando crescemos, raras vezes damo-nos conta dos anos passarem.
Só quando um acontecimento nos chama à razão, reparámos que já não somos quem éramos, não temos a mesma idade. Somos diferentes, esquecemo-nos dos laivos do passado para os ocupar com a celeuma do presente.
Passam os dias sem nos darmos conta da tal metamorfose.
Os problemas, questões, dúvidas, vão-se esfumando no tempo, à medida que ele continua o seu passo incessante.
Estranho como, por vezes, somos chamados à razão. Uma bofetada de tempo leva-nos a pensar no passado, no que fomos e como somos diferentes.
Talvez seja este o momento da passagem, aquela que tantos receios causam ao comum do mortal: o e-n-v-e-l-h-e-c-i-m-e-n-t-o.
Agora sou diferente. Mais enrugado pelas tormentas e ponderador pela força das vidas passadas, enfrento uma verdade: caminho apressado para a velhice.
Hoje aconteceu o inevitável: fui abalroado pelo peso da idade quando uma mulher disparou a pergunta fatídica: Não foi meu professor no 7.º ano?

A minha cara de pânico parece ter causado mossa, pois replicou um penso, como se quisesse desculpar a pergunta pelo facto de EU estar VELHO e de me fazer descer ao meu lugar.

Parece-me ter-lhe ouvido um sussurro: Pega na bengala oh velhinho! Mas, estranheza dos diabos, a sua presença continuava à espera que lhe dissesse algo sem movimentar um músculo. Replicou depois, qual ventríloquo: A reumática é fodida ah!?

Depois de cerrar os dentes e descobrir a máscara de ferro, com a carquilha à mostra, rosnei: Realmente a sua cara não me era estranha! Enquanto pensava numa chusma de palavras vis para lhe atirar.
Nada mais digno saiu que não frases de circunstância.
Faço então o anuncio público da minha passagem para a outra banda, antes dos intas e dos entas, pareço uma velha alcaparra ao sol.
O período da dor de costas, das insónias, do trabalho desenfreado e da terrífica, da monstruosa estabilidade parecem estar a chegar.

Penso regressar, menos rabugento, dentro de 37 anos.
Entretanto, ature-me quem conseguir!


9.27.2006

sem sal, se fizer o obséquio

de mãos nos bolsos vazios e sem lumes, assim se vai andando, sem tempo, no mundo do tudo cheio de não ter nada que fazer!

sem títulos, sem fala, sem brinco, não se está assim, por cá.

sem maiúsculas e sem pressas, sem nada que dizer, porque perdeu-se a fala na frase anterior, nada se faz, sem se sussurrar um suspiro, símbolo da surdez dos homens.

isto tudo para dizer que a letra "S" sibila e sustém uma posta sem nexo.

9.18.2006

chinesices

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada!

Não peças, não faças isso! Para além de te fazer mal ao miolo, como se pode notar, podem não ter e então é que é, ficas como o tipo que fuma mas não tem lume, qual piada homofóbica de baixa densidade.... Tu vê lá.... não caias na tentação!

- Tem lumes?

- NÃO!

Eu bem te disse! E agora, o que será de ti!? Ah, que vais fazer agora que nem lumes nem amor próprio tens!? Pois é, nunca tenho razão, mas lá está, no final sou eu quem paga as favas! Pelo menos, podias comprar um esqueiro, não caías nas más línguas...!

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada! Ao menos não gastas dinheiro num esqueiro que nem para 1534 cigarros dá!

- Vende esqueiros!?

- Sim! Quale quele!?

- O do Porto!

clinc, clinc, clinc!

- Funciona pelfeitamente!

- Obrigado, quanto é?

- 75 cêntimos pole favole!

- Cá está, boa tarde!

- Obligado e volte semple!

clinc, clinc, clonnncc!

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada!

Não peças, não faças isso! Deixa de fumar... isto foi um sinal divino! A gastar 75 cênt. por cigarro, acabas na miséria e depo........

9.13.2006

abertura de hostilidades

Depois de tempos infindos e malabarísticos em que o passado, o presente, a realidade e a perfídia se misturam numa estranha corrente de vida alheia e própria, novas notas sem interesse brotarão da mente decrépita daquele transeunte anónimo que deambula pelas ruas de uma qualquer Edina.

Já se cruzou contigo, já viveu vidas transviadas e infundadas, já podia ter sido, mas não foi, podia não ser, mas é!

É a mente borbulhante que gira por entre realidades difíceis de digerir.

É a vontade insana de continuar vivo na multidão.

É a vida alheia condensada numa só palavra.

É querer dizer o que não se quer e calar quando se não deve.

É ser verdadeiro na improvável veracidade do momento.

É rai's partam os feixes de energia!

É .... é... é....

É só para dizer que estou de volta....

8.12.2006

Vidas cruzadas

Sentir o torresmo áspero e estival dos caminhos lusos, implica o impacto visual nas matrículas amarelas dos filhos pródigos que a casa tornam.

As festas pululam o interior um pouco por todo o lado, mas o êxodo ruma a sul, ao calor blasfemo algarvio, rumo a mais uma praia congestionada da bela costa.

Que belo exemplo de multiculturalismo se manifesta, por entre pronúncias sibilantes e rústicas, lá sai um vacances aqui, um d'habitud ali e que musical mescla se cria entre o português vernáculo e o francês rebolado, quando se ouve um "Miguel vien pour la barracá, le soleil le queime!"

Ahhhh que bela e bonita a feliz ignorância do pequenismo envergonhado em que vivemos.... lá está, são essas certas e determinadas coisas inexplicáveis!

7.21.2006

teorias (in)fundamentadas


O consumo excessivo de álcool, como todos sabemos, destrói os neurónios, mas naturalmente ataca primeiro os neurónios mais lentos e fracos.

Neste sentido, o consumo regular de cerveja elimina os neurónios mais fracos, tornando o cérebro uma máquina mais rápida e eficiente.

O resultado deste profundo estudo neurológico verifica e confirma a relação causal entre as borgas de fim de semana e o rendimento dos economistas, consultores, matemáticos, engenheiros, advogados, políticos, etc.

De igual modo explica o sucedido poucos anos depois de acabado o curso e contraído matrimónio, a maioria dos profissionais não conseguem manter os níveis de rendimento dos recém saídos das universidades.

Só os poucos que mantêm o estrito regime de voraz consumo alcoólico conseguem manter os níveis intelectuais que alcançaram durante os anos em que eram estudantes universitários.

É uma chamada às armas!!!

Enquanto o país está a perder o seu potencial intelectual nós não podemos ficar em casa sem fazer nada!!

Vamos para as tascas!!

Ocupemos os bares!!!

Vamos beber litros e litros!

O teu governo, a tua empresa e o teu país necessitam que estejas no teu melhor, sem limites para o teu potencial criativo e intelectual.

Corta as tuas amarras e dá o litro!!!

Contamos contigo!

Recebi por mail de J.P.Miranda

7.14.2006

pensamentos transviados xix

Ao invés de certos animais, o homem só se reproduz em cativeiro.

GARÇÃO, Pedro Mayer (1972). Esculápio diz o que pensa. 2.ª ed. Lisboa: s.ed. p. 51.

7.11.2006

7.05.2006

prisões douradas

Deambular pelas expressões e sentidos implica deixarmos sempre um pouco de nós. Mesmo quando tentamos ser imparciais ou isentos, sempre fica a réstia de um contexto imbuído de valores (a)morais que nos impelem a sermos ora condescendentes, ora titânicos.

Esta é a essência humana como a vejo, quando chamada a tomar partido ou a revelar opinião social. Mas será que isso mesmo interessa!? Será que a opinião quanto a factos é, de facto, factual e fundamental para a manutenção do vegetar civilizacional em que nos encontramos!?

Ter, dar, manter um diálogo e uma opinião formada parece ser a base da coexistência. De facto ela não é mais do que limitadora do livre arbítrio verbal que, quando atingido, reflecte a verdadeira essência do caos mental com que lutamos todos os dias.

Ideias, notícias, verdades e conceitos, entrecruzam-se mediadas por descargas de energia que visam manter a ordem. Como se de uma prisão se tratasse, esses feixes impõe uma regra, mantendo a lucidez e a clarividência, apenas ultrapassados em momentos extremos.

Esse caos mental por vezes alcançado, é dúbio: se libertador das correntes sociais, prognostica o pânico, carcereiro da visão plena e livre.

Apesar de sensitivos e pensantes, somos prisioneiros de nós mesmos – do nosso contexto e da nossa verdade.
Temos vontade de ver, vontade de ser, vontade de sentir, mas esquecemo-nos de viver, sem rodeios, o presente.

6.21.2006

memórias partilhadas pela avó

A memória tem destas coisas, a inata vontade de se extravasar sem querer que os segredos inauditos do seu portador sejam partilhados.

Quando vividos flúem sem se aperceber que estão a ser absorvidos por outros, atentos à vontade alheia.

Assim acontece com a avó Micas de que já mencionei a chegada.

De tez carregada e hálito quente, deixa transpirar pequenas gotas que reanimam tempos idos, anos em que os passos ecoavam nas noites solitárias da gélida aldeia que a viu desabrochar.

Por lá, essa tal Macondo escondida, as festas eram em honra de são joão, épocas de folia e de libertinagem.

Porém, para ela, nem sempre foi assim.

Tempos houve em que se escondia entre lençóis incógnitos, amedrontada com a parafernália de sons retumbantes sem fim e com essa estranha visão de luzes incandescentes que teimavam em surgir vindas do nada.

Para aliviar o seu fado vagabundeante e mal quisto pela populaça, deixava-se levar pela mão suave que reconfortava as suas lágrimas escusas.

As festas não são para todos, são para aqueles que têm a quem deitar a mão, dizia, enquanto trejeitos forçados impediam o pingo de verter.

Nada mais saiu senão olhares vagos e miares imperceptíveis enquanto movimentos incontrolados franzem a bochecha casquilha e ternurenta, aqui ao lado.

6.16.2006

pensamentos fundamentados

Na sociedade cibernética, a função principal do ensino passa pela compreensão e relação de dados, em detrimento do processo de ensino vertical que tantas vezes ainda subsiste. A docência no âmbito da inteligência colectiva, tem como fundamento o acompanhamento e a gestão de aprendizagens, permitindo a troca de saberes através da mediação relacional e simbólica.

Do e-business e e-commerce, ou seja, da virtualização das empresas e serviços, passou-se, já ontem, para o e-knowledge, ou seja, para a virtualização do conhecimento, bem patente nas redes científicas e culturais que dão, já, largos passos com sucesso, possibilitando a adequação das necessidades laborais às competências formativas adquiridas.

O ciberespaço, pela sua abrangência e actualidade poderá ajudar a colmatar esta dificuldade de interrelação entre conhecimentos e necessidades do mercado, pelo que a gestão de competências (AdC) em ambiente digital surge como uma potencialidade de balanceamento entre oferta e procura.
A não perder:
LÉVY, Pierre (2000). Cibercultura. Lisboa: Piaget, 181-198.

6.09.2006

alegorias cavernosas

Um dia Mimi acordou e viu que tudo o que havia defendido até aí tinha-se desvanecido. Valores e conceitos mantiveram-se, agarrados ao medo de mudar, mas o mundo era outro, um que desconhecia e que se tinha adaptado a novas ideias e novas formas de convivência.

Esse mesmo, mais democrático, permitia fazer o que se quisesse da própria vida. Nessa manhã, Mimi, infeliz, viu um mundo que desconhecia. Viu uma verdade inegável mas que ela não compreendia.


Nesse manhã morreu Mimi, nasceu Micas Coxa, a avó de toda a humanidade.

5.29.2006

Nomes inusitados

Porto, anos 50, gentes fluíam pelas ruas movimentadas da baixa, guardando, em si, nomes insondáveis, aqui alumiados por essa mesma lâmpada de tungsténio que me dá vida.

Todos originais, fazem parte de um livro de termos de onde retirei esta lista impar de nomes inusitados.

Para vocês, cá vai o top 25 das anónimas celebridades que aqui alcançam a imortalidade.

Gemialde Celeste E.
Hortênsia M.
Leontina S.
Zina B.
Bernardette A.
Maria Georgette B.
Quitéria R.
Zulmira C.
Arlette C.
Ortelinda O.
Azuil G.
Claudemiro T.
Porcina F.
Aldegundes L.
Filinto C.
Balbina G.
Isolete Laura S.
Bertila S.
Judia Morena F.
José Isménio J.
Dorinda S.
Benilde S.
Georgette S.
Leopoldina M.

5.19.2006

Confidências de um transeunte

As representações sociais envolvem-nos sem sequer darmos por isso.

Gente há que nos julga pela aparência, pela profissão, pela atitude ou simplesmente pela sugestão de passados vividos.

No mundo das ilusões, somos confundidos pelo que fazemos. E é ver gente entrar e sair a cochichar pela estranha indumentária que usamos ou pela cordialidade com que tratamos o transeunte anónimo.

Se somos simpáticos, ouvimos, à saída, um piropo sobre a nossa postura descontraída. Se rimos e mostramos empatia pelas dificuldades alheias, somos bafejados pelo estranho aroma do desabafo pessoal.

Toda a gente gosta de ser ouvida, adora que se lhe preste atenção. Porém, um pouco de q.b. é fundamental para que não nos tomem como fonte dos desejos e nos transformem em conselheiros matrimoniais.

Pela idade, também percebemos diferentes métodos de análise psicológica do eu escondido.

Novatos, extasiados por verem alguém diferente no lugar do morto-vivo, dão risadinhas intrigantes e irrequietas enquanto tentam manter uma postura o mais séria possível.

Trintões, tentam uma abordagem cool, não querem dar parte de fraco diante de um igual, tratam-nos pelo nome e entram com uma ou outra palavra mais informal para desanuviar o ambiente.

Entradotes, admirados com a laroquice do receptor, ficam na ponte das palavras, entre um seu e um teu, apalpando terreno enquanto esperam pela resposta, para depois replicar à altura.

E nisto tudo, ninguém conhece o ser por detrás da faceta.

- Gostava de ser assim, sempre com um sorriso sincero...

Mas que raio, conhecem assim tão bem o outro para o dizer de ânimo leve?

Quem sabe se por trás do sorriso não está outro qualquer abestalhado que espera a oportunidade para sorver mais uma ou outra inconfidência?

É que, por detrás da máscara trivial, sou um coleccionador de sonhos, não alheios, mas próprios.

5.18.2006

5.10.2006

pensamentos transviados xviii

Cuidado com as ideais boas e novas! É que as boas normalmente não são novas e as novas normalmente não são boas...

Anónimo

5.08.2006

Floresta do degredo

Um coelho corria pela floresta quando viu uma girafa a acender um charro:

- Óh girafa! Pára de fumar essa cena que te faz mal e vamos correr pela floresta!
Vais ver como te vais sentir muito melhor!!!

A girafa pensa e responde:

- Tens razão, coelho, bora nessa!

Assim, deixou o charro e foi correr com o coelho.

Mais à frente encontram um urso a cheirar cola.

Olham-se e o coelho replica:

- Óh urso, deixa essa merda! Essa treta só te faz mal, vem mas é
correr connosco e sentir o ar puro dentro dos teus pulmões!

De um salto, o urso junta-se aos dois, até que encontram um elefante a snifar cocaína.

- Óh elefante, estás maluco! Dás cabo de ti com essas merdas! Vem connosco correr pela floresta!

O elefante pensa um pouco e resolve juntar-se ao grupo, que metros à frente encontra o leão a injectar heroína.

Mais uma vez, o nosso amigo coelho pára-o dizendo:

- Óh leão, deixa-te de merdas e vem correr...

Ainda falava quando leva uma patada do leão que o põe KO.

Os outros animais revoltados perguntaram:

- Estás maluco? Por que fizeste isso? O rapaz a cuidar da nossa saúde e é assim que se trata o pobre coelho?

O leão, magânimo replica:

- Sempre que o cabrão do coelho toma ecstasy, faz-me correr feito um idiota pela floresta !!!


Enviado por e-mail por JPMiranda

5.04.2006

Novas do passado

Em pleno século XVI, Antonio de Mendoza, nomeado 1º vice-rei da Nova Espanha (1535-1550), envia para a corte de Carlos V uma descrição da história e sociedade dos povos nativos do México, designado por Codex Mendoza (c. 1541).

Este documento ilustrado, guardado na Bodleian Library em Oxford, traça os usos e costumes dos Aztecas desde o estabelecimento de Tenochtitlan, c. 1325, até às conquistas bárbaras de Córtez (1519-21), passando pela formação da Tripla Aliança Azteca.

Combinando grafismo autóctone com escrita latina, foi elaborado por nativos sob a direcção de anónimos frades, com o aval do bispo do México - Juan de Zumárraga. Relata aspectos quotidianos da sociedade mexicana, incluindo dados políticos, militares, etnográficos, dando uma imagem global do dia-a-dia dos indígenas.

Dividido em três partes, o manuscrito é considerada a pedra de roseta da civilização Azteca.

4.30.2006

Raise bitch, a new age has began!

Norma de conduta social, moralidade repartida, fervorosa fé. Definições redutoras e, para mentes menos zelosas, desactualizadas desse maço encadernado definido por bíblia.

Novos tempos, vontades diversas, nova norma, exige uma reestruturação do livro para que as massas o possam entender, vede como:

Reescrever o manual de procedimentos requer paciência e vontades inusitadas de que apenas algumas formulações mediáticas são detentoras. O 4º canal da TV da Árvore dos Estapafúrdios tem tudo isso: casos de vida, ensinamentos sexuados, moralidade desviante e até algo de sadomaso rosa choque, que alcança shares de fazer inveja ao tipo dos pregões aos peixes.

Pois então, palavra puxa palavra e a ideia surgiu: nova era digital merece outro livro de cabeceira, formato actualizado, pentateuco desconstruído, salmos hard core e evangelhos recauchutados, para uma melhor leitura. Proponho, até, uma formulação em rima simples, para facilitar a compreensão de rapers e afins.

Por isso exorto à criação, levantai-vos e abraçai a causa, uma Nova Era começou!

Begone and create a new square book, were people can see the suffering and feel the pain, eating pop corns and drinking cola in the chesterfield!

For me, a bottle of rum will be fine, bitch!
ideia: miguel s
3ª de mão : kiko
criador da expressão bitch: cavaleiro dos nimbelunguen

4.26.2006

32 anos depois

A revolução saiu à rua, exigiu direitos e deveres igualitários, verteu lágrimas de alegria por ver-se sobrepor à tirania e desvaneceu lentamente enterrada num qualquer sofá, de comando na mão.

O sonho esvoaçou entre iguais, tentando sobreviver contra vontades inauditas e escusas. É a sede de poder, o conformismo do sonho fácil, a competitividade, o motivo pelo desvanecer de uma fantasia.

Era um sonho de vida, colectivo, imberbe e incapaz de calculismo político. Era um devaneio de futuro, prognosticando a força da voz e o poder das massas. Era uma quimera de felicidade, pensando no bem comum e na possibilidade de igualdade. Era uma ilusão verbalizada, clamada, carpida, por tudo o que tinha ficado por dizer.

É um sonho adiado, individual, introspectivo e confortável, incapaz de manifestar a discórdia e a divergência. É um devaneio sem futuro, prognosticando o vazio social, a manipulação das gentes, o poder da retórica sobre a verdade. É uma quimera silenciosa, sibilante e esquiva, sem capacidade para se fortalecer, minada à partida.

O poder do sofá é avassalador. O crédito permite mais um upgrade à parafernália de maquinaria que nos torna mais sedentários e inertes sociais.

Temos outra vez o pão e o circo, o fado e o futebol. Tudo para nos fazer viver uma realidade perpendicular à verídica, sem precisarmos de nos alterar.

Temos a mordaça, temos a censura, temos a mesquinha inércia.

Temos tudo o que sonhamos, tudo roda à volta do poder do povo, faccioso e maleável, ao sabor dos dotes do orador e do grupinho politizado a que pertence.

Temos tudo, uma vida de sonho, irreal, paradisíaca, etérea e acomodada, vazia de conteúdo e de palavras.
Temos tudo, idealizamos uma realidade igualitária... mas vivemos um pesadelo manipulador.
Temos tudo, menos o sonho.

4.24.2006

Meia branca

A bela meia branca é uma instituição em Portugal.

É ver o lindo sapatinho negro, de pala, com a meia de desporto a reluzir por entre o vinco impecável da calça de fazenda.

Era esta a minha visão da mítica luva ortopédica vulgo pé de gesso até que deparei com o contrário:

Bela tarde de sol, na sua zundap, vejo o zé povinho com a sua calça rosa coçado e meia preta!

Ora, com o seu blazer branco e calça rosada, nada melhor que uma meia branca a combinar com o blazer, já o preto destoa.

Lá está nem toda a meia branca ofusca, nem toda a preta reluz!

Não é um provérbio lituano, mas serve para o gasto!

4.21.2006

Dias memoráveis

Há dias e dias.

Uns, taciturnos e iguais a tantos outros passam sem se perceber qual o seu verdadeiro sentido.

Outros, divergentes de tudo o que até aí já se sentiu, ficam para sempre na memória e no coração. Não que se pretenda embrulhá-los ou guardá-los, mas porque a nova é tão forte que não há forma de lhe fugir.

É um misto de ternura, alegria extrema e receio pela possibilidade de não corresponder, de não acertar, de não ser como pensamos ou de correr de forma diferente do que idealizámos.

A postura muda, as palavras começam a ser escolhidas, os dedos teclam, apagam, rescrevem, corrigem e voltam a apagar para depois voltarem a sair não tão puras quanto queríamos, mas como as podemos extravasar.

Dias há que nos deixam nesta corda bamba de emoções fortes, sem saber o que dizer mas com a certeza do que sentimos, sem as palavras certas mas com as emoções à flor da pele.

Ontem renasci, contigo deixei de ser um qualquer Quiosk num projecto ainda não realizado, passei a ser Kiko, sem rodeios, numa locomotiva em movimento.

Mas deixa, em Dezembro falamos melhor!

Entretanto este que te escreve sou eu, sem tirar nem por!

4.19.2006

Recuerdo da mouraria

A pedido de inúmeras famílias, cá vai um recuerdo mourisco.


A árvore quando está a ser cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira.

Provérbio Árabe

Voltei mas não trouxe recuerdos!

Gente há que gosta de se evidenciar pela inusitada aparência fantástica do que constrói.

Daí a conseguir a imortalidade vai um passo de gigante...

Já a chacota, é a mesma distância que separa o rabo, da feze quando à caçador!


Photo by: Sofia D.

Location: Açores, Ilha de São Miguel.

4.07.2006

E lá vou eu outra vez!

Vou-me, mas volto!


Entretanto, andarei por aí camuflado, incógnito serei o tipo do gorro laranja e gabardina, pronto a atacar o transeunte incauto.

4.05.2006

A boca do barulho

Apesar de afónico, nada melhor que uma boca foleira para acordar vontades!

As mulheres são as primeiras a analisar outra que passa! Se assim não fosse, como se explicam olhares trocistas e invejosos pelo deambular estonteante de outrém!?

Também o contrário acontece: homens babosos com olhares fixos de luxúria, pela passagem alheia!

Onde se fixam, então, os olhares?

4.04.2006

Espaços duplicados

O ser e a sua imagem reflectida não são o mesmo, são ambíguos e díspares, impossíveis de se igualarem.

Quando visionada, a imagem vive da aparência, da falácia, da vontade de espelhar desejos e não realidades. Porém, visionada pelo frio clarão, tudo se simplifica, máscaras caem, deixando ver rugas, tristezas, lágrimas, sorrisos, verdades. O espelho tem esse dom, o de purificar imagens.

Contudo, a veracidade não nos preenche completamente. Por isso, transfigurou-se o reflexo para que deixasse de contar histórias e passasse a viver das estórias mal amanhadas que a tentação conta mas que a certeza desmente.

Por sua vez o reflector fidedigno, ameaçado pelos constantes upgrades reflexivos, começa a transmitir visões incongruentes, ora pintando cabelos brancos, ora alteando bustos, ora torneando pernas.

A simetria do encanto não é, por isso, validada pela imagem, esvai-se à medida que a ondulação circular vai definhando o reflexo, deixando vislumbrar a realidade.

Valdrada não é, portanto, nem espaço, nem singular, é antes o ser e o seu reflexo.


3.27.2006

Espaços aparentes

A urbe tresanda de vida!

Pessoas atarefadas cruzam-se sem nunca desviar o olhar. Os passos sucedem-se sem saber o destino. Sempre determinados não vá alguém estar atento.

Corredios, não param para descansar nem sequer para saborear os aromas ora acres, ora doces, ora incipientes que se sucedem. Gente improvável atravessa-se em caminhos ainda mais duvidosos e ninguém pára para olhar.

Desejos escondidos passam por nós sem sequer lhe sentirmos o rasto, vontades inomináveis escondem-se por detrás de máscaras que não vemos. Os vultos sim, sentimo-los, por vezes provocam calafrios lembrando-nos que alguém menos insignificante merecia um relance, mas a pressa não o permite.

Figuras amontoam-se à espera do mesmo: de uma lufada de vida que os leve dali por um passadiço perigoso, dando alento à inspiração.

Triste congénito, vazio natural, ávido por vida, coabita no imaginário de pensadores, resiste à força do tempo, sobrevive, dia após dia, ao mesmo desígnio de ontem que será, quem sabe e se deus quiser o de amanhã.

A luxúria vive lá dentro. Inglória, tenta furar por entre valores morais e éticos, bem definidos, que não podem ser quebrados.

A alegria, manifesta-se efémera, rasgando, de quando em vez, por entre as barreiras do pudor e da decência.

A verdade, débil, persiste por entre silêncios e vontades inqualificáveis que ninguém tem coragem de verbalizar.

Nada perdura no mundo real. Cá dentro, é outra coisa! Nestes espaços interiores, a vida vive, alegre, luxuriante, verdadeira, sem receios de ser quem é!

Cloé é vazia, aparente. Fantasmagórica subsiste numa esquina perto de si!

3.26.2006

Mudanças intergalácticas

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
(...)
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

por Luís de Camões

via-se...
vê-se...

3.22.2006

Mais outro pensamento transviado

Há dias e dias...

Dias que demoram anos, séculos resumidos a minutos. A vida rola, sem pensar nas horas intermináveis que insistem em se recriar e subsistir, por entre vontades e desejos que se apagam, num segundo!

Como diria alguém que pensa a realidade humana: É do caralho meus senhores, é do caralho!

3.17.2006

Pensamentos transviados xvii

Lânguida, voluptuosa e luxuriante. Assim é a devassadora de almas.

Gosta de si. A Filáucia, palavra que melhor a define, confere-lhe uma faceta oferecida e vistosa. Não é uma mulher habitual, não é belíssima, mas tem um sex appeal inexplicável que conquista todos os que com ela engraçam.

Com tenras 16 primaveras é já centenária em memórias partilhadas e secretíssimas, que lhe dão uma aura de misticismo apelativa ao paladar. Guarda histórias inusitadas, sobrevive a cochichos pela sua passagem altiva, rejuvenesce, todos os anos, como se fosse imortal.

Vive do mito, da crença, é o que nunca foi e adorada por quem já com ela não priva, transmitindo um estranho sentimento de alegria melancólica e contagiante quando pensada ou transmitida.

É autêntica, tirana e velhaca, diz o que quer sem rodeios mediando as relações com a sua autoritária presença.

É usada por quem mais lhe quer bem, excomungada pelo azedume de conversas mal acabadas e acarinhada por todos os que a dividem.

Personifica a loucura. Extasiante e frenética, irradia charme e malícia, devorando vontades e desejos à sua passagem.

Cuca vive da lembrança e dos actos, pujante e latente. É memória recriada e construída.

3.14.2006

Espaços subtis

Estranhos espaços os que habitámos! Como se estivéssemos confinados à presença assídua de uma gaiola geográfica que nos imprime uma estada.

Somos, por isso, o reflexo de um contexto, antes, de um estado de graça colectivo que nos indica uma conduta, um rumo a seguir. Como se não tivéssemos direito a opinar sobre onde, quando e como trabalhar o nosso destino.

Moldados pelos que nos rodeiam, vivemos um mundo concreto, num espaço designado, com barreiras mentais profundas, aplicadas a nós e aos que connosco vegetam.

Três vezes realidade é o caminho que o grupo nos indica.
Vives aqui, com isto e aquilo e sem mais aquele objecto porque não é para ti, é para o outro!

Designámos pertences e sentimentos como se fossem todos iguais, quando não se aplicam, damos-lhe um exemplo prático e torna-se, desde logo, parecido com, logo, explicado.

É explicado, logo existe!

Tens fé, logo pensas no bem comum!

Acreditas no milagre, logo és crente!

Tudo é real e toda a explicação é válida, mesmo que o fenómeno não esteja explicado.

A irrealidade, não tem espaço, não existe, não pensa, não vive! É a estultícia de que falava Erasmus e quem a elogiar, não é estulto, é estultíssimo!

Então, se fomos designados para determinado local, não teremos nós o direito libertário de sermos irreais, de idealizarmos, de vivermos algo que vai para além da prisão última que é a consciência!?

Voto contra o destacamento por conveniência, dos lugares onde se vive!

Voto na liberdade de não existir!

Voto pela qualidade da vida irreal e da possibilidade de voar sem levantar!

Exijo viver como quero, sem paredes e sem ser obrigado a seguir o bom caminho que nos leva à velhice!


Assim se vivia em Armilla, antes de ser destruída pela vã lucidez da humanidade.


3.13.2006

Pensamentos transviados

O movimento blogueiro é realmente interessante!

Leva-nos a viajar por outras realidades que, qual necessidade voyeurista, nos faz conhecer outras pessoas sem as vermos realmente e conhecendo apenas a sua melhor máscara. É o que alguém designa por amigo virtual!

Lemos e comentamos a sua actividade periódica, sentimos necessidades, vontades e desejos escondidos por entre palavras, tantas vezes, inusitadas.

Noutros casos, ao viajar por mundos diferentes, criámos resistências por se dedicar a interesses diversos dos nossos, impedindo-nos de comentar e de voltar.

Porém, outros há que, apesar da pertinência e extrema generosidade, apresentam-se desprovidos de comentários, apesar de serem estes os que necessitam de maior atenção.

Falo do blog P'los Animais, cujo número de comentário é, em média, reduzido ao número redondo que nada diz.

Talvez reflicta o quanto desconfortável é ver a miséria humana na sua faceta mais original: a do desprezo para com outros seres semelhantes, de carne trémula, cujos direitos são semelhantes aos nossos, mas que, tantas vezes, são considerados inferiores.

Talvez reflicta uma vontade de viver realidades cor de rosa, sem pensarmos na nossa realidade insana.

Talvez reflicta a insensibilidade que, pelos mass media vemos, todos os dias, enquanto mastigamos mais um chocolatito vendo o mundo esvair-se lá fora.

Há tempos, postamos algo sobre o parasitismo humano... realmente confirma-se.

Não se enganem, ele começa em mim!

3.10.2006

Espaços apalavrados - reloaded

Espaços apalavrados, imaginados ou mimetados, todos eles têm o valor que lhe queiramos dar!

Uns, sob a forma de caracteres, propiciam a descodificação, outros, gesticulados, são interpretados segundo os olhos que o bebem.

É que a mensagem que todas as coisas emanam, reflecte uma ideia, transmitem algo, não que ela seja inteiramente a mais correcta ou verdadeira. Por vezes, mensagens há que transmitem um valor errado outras, na sua inverosimilhança, enviam o sinal correcto.

É o tal sinal tresmalhado que enviamos nos momentos piores e que é inacessível à massa. O mesmo que, no discurso, permite perceber anseios e vontades escondidas por detrás de palavras inauditas, essas mesmas que, por ventura, estão por detrás no monitor.

Assim é Hipácia, a cidade irreal, em que tudo tem um valor simbólico, nenhum valor factual.

3.03.2006

Espaços esquecidos

Zobaida é uma cidade tanto fantástica quanto fantasmagórica.

Feita para ser um labirinto da luxúria tornou-se, com o tempo, numa pálida imagem do que foi quando idealizada.

Tal como esta, a vontade de reviver é tão pujante que os limites para a sua reconstrução são facilmente ultrapassáveis.

Neste processo de passagem de obstáculos há recordação viva, esquecemo-nos que o passado não se repete, ou antes, repete-se, por vezes, mas segundo novos padrões, deixando apenas uma pálida imagem do que foi e, por isso, impossibilitando o retorno da tal emoção à tempos sentida.

Neste processo reedificativo, desvanecem sonhos, azedam desejos, aligeiram-se vontades. Permanece apenas a sensação de vazio e a certeza da frustração por não voltarem outros tempos memoráveis.

Assim nasce o esquecimento.

3.02.2006

Espaços apalavrados


Do gesto à palavra vai um processo de aprendizagem da verbalização de um acto.

Permite ramificar ideias, comparar e discutir, mas inviabiliza a pureza da comunicação e a duplicidade do que é dito, pois aos gestos correspondiam vários ideias, às palavras - a dureza da honestidade e a sua (in)compreensão.

É que as palavras têm o dom de limitar a imaginação, dão-lhe balizas.

Quando não utilizadas, permitem uma maior veracidade. É como se o silêncio fosse de ouro e permitisse o entendimento pleno do que foi expressado e do que podia ter sido dito.

Porém, quando nos limitamos à construção frásica, condensamos sentimentos, vontades, dúvidas e gestos à rudeza de um símbolo, ou conjunto deles.

Digamos que a escrita esgota sentidos, enquanto que a não comunicação abre valas para o desconhecido.

Contudo, o som organizado também se esgota. Desta feita, a única opção lógica será comunicar verbalizando o que é pretendido de forma mais ou menos aclarada.

Trata-se de um ciclo vicioso o de apalavrar sentidos, que acaba na monotonia e recomeça na esperança.

3.01.2006

Qé que estás dezendo!?

- O mito é um modelo arquitepo.
- A questão começou a aparecer, se a Terra não fica no centro, como é que podemos ser inseridos na nossa nova Terra?
- O mito é uma realidade extremamente complexa que pode ser aportada e interpretada em prespectivas mílipicas e complementares. O mito porcura maneira de dar sentido ao que se não compreende.
- Com a teoria de Descartes é que apareceu a moeda, a escrita e o calendário, tudo baseado na razão.
- (...) ou seja, se um terramoto destruisse algo, o homem diria por exemplo que era um Deus que o estava a punir por trabalhar pouco, e todos trabalhavam muito mais.
- A importância do contributo de Freud para o estudo do homem é que ele estudou a consciência do homem ou seja psíquica do homem. Ele diz que o universo é una universal.

2.24.2006

Espaços memoráveis

A memória é volátil, altera-se com o passar dos acontecimentos.

Deambula por entre factos e contextos e é mutável por eles mesmos. Tantos por uns que se lhe sobrepõe em importância social, quanto por outros mais confortáveis para a evolução da civilização.

Quando pessoal, a memória esvai-se com o tempo. Porém, quando colectiva, mantêm-se para além dos intervenientes e das vontades, esfumando-se ora quando saturado pelo manuseamento, ora quando tornado irrelevante ou obsoleto pela pertinência.

É uma forma estranha a da lembrança. O que vemos é nosso, não é o que foi e nunca tornará a ser o que era, contudo, mantêm-se inalterada em momentos virtuais, ainda que irreais na materialidade.

Interessante o processamento da memória, sempre selectivo, tanto para a permanência, quanto para a dissolução na bruma cerrada do tempo. Ideias, pessoas, vidas pululam o próprio passado, mas essas mesmas são efémeras. Apesar de deixarem um rasto de vida, esvaem-se pela calada, quando ansiamos pelo seu regresso.

Eufémia é assim, esquece a memória que a criou, contorce-se com a catadupa de acontecimentos que a originou e reformula-se com o presente visível, ilusório, em que vive.

2.22.2006

Qué que estás dizendo!?

Perlustrando patética petição produzida pela postulante, prevemos a possibilidade para pervencê-la porquanto perecem pressupostos primários permissíveis para propugnar pelo presente pleito pois prejulgamos pugna pretárita perfeitíssima.
Enviado por JP Miranda

2.21.2006

dilemas existenciais

a minha rua tem paralelepípedos feito de paralelogramos.

seis paralelogramos formam um paralelepípedo.

mil paralelepípedos formam uma paralelepipedovia.

uma paralelepipedovia tem mil paralelogramos.

então uma paralelepipedovia é uma paralelogramolândia?

Enviado por JPMiranda

2.20.2006

Pensamentos transviados!

A boa caricatura é a auto-caricatura, uma vez que é a única incapaz de ferir susceptibilidades.


MESQUITAS, Grande (O). (2006). Conversas matutinas. Porto: Ed. Ribeira, p. tantas (adapt.)

2.15.2006

Corrente de cuscos!

Cu(s)cando um pouco sobre mim por solicitação imperial , cá vou eu , quioske, impessoal e intransmissível!

5 traços de personalidade

- Ideólogo (as postas brotam mas não passam de pescadas);

- Lamacento (uso sempre as palavras erradas para dizer o que quero);

- Positivista (vejo sempre o lago positivo da coisa, mesmo que seja muito má);

- Curioseiro (gosto de saber tudo o que se passa à minha volta, menos aspectos pessoais);

- Alternativóide (sou como sou, diferente, se não gostam das minhas calças brancas com bolas rosa choque, tanto melhor, menos um que tenho de aturar).


5 hábitos estranhos

- desifecto sempre a sanita antes de me sentar, quando não posso, não sento;

- amontoou papelada por todo o lado e de anos há (ou à!?) muito idos;

- deixo sempre (ou quase) o melhor para o fim;

- acabo no último dia, à última hora, 1 minuto antes da data limite;

- quando estou nervoso, coço a orelha como se não houvesse amanhã!

2.14.2006

Teorias profundas

A caminho da labuta, em conversas animadas pelo sono que desprega tarde as pestanas, cedo os elementos nos presenteiam com um perfume acre acastanhado.

Começa, então, a congeminar-se uma teoria explicativa do observável, antes olfactável: o cheiro a merda!

Digo para comigo que o problema é da chuva, ou melhor, da falta dela, é que as fezes a caminho da estação de tratamento vão resvalando na tubagem, como não chove, vão deixando resquícios à sua passagem!

Ora com o acumular dos arranhões e com a falta de água, vai-se libertando, progressivamente, o dito aroma.

Bom, tudo pareceria verosímil, se a Gaja Boa não tivesse, logo de seguida, replicado nos seguintes moldes.

Manifestou ela alguma estupefacção pela minha teoria parcamente defendida é que, de facto, o problema não tem a ver com a chuva ou falta dela, ao invés, está relacionada com a ingestão de poucos líquidos por parte da população.

É que como não se molha, mas gela-se, as pessoas têm menor vontade de ingerir líquidos e mais para comidas quentes, logo, de maior grau de dificuldade digestiva.

Portanto, defecam bananas com casca em vez de o fazerem sem ela.

Com o tempo e com o percurso, vão deixando esses tais resquícios que, com o acumular dos ditos arranhões, vão aumentando o valor nutritivo do aroma em causa.

Ora, se chovesse, era outra coisa, mesmo que a lasca fosse rija, a água amolecia-a, não permitindo tal concentração nas tubagens.


Como é bom utilizar o método científico antes do pequeno almoço!

2.11.2006

Wondering Wondering hopeless Dawn

Mais uma passagem pelo estreito, o meu barco de pesca range com mais persistência a cada nó de impeto somado... a pesca está fraca, mas não me importo. Neste mundo de insólitos e indignos, brilho em cada porto, quase elevado ao estatuto de celebridade nos sorrisos e no trato, e pergunto-me se serei digno. A aura de aventureiro, de prescutador de segredos inusitados, navegante das alvas argos aladas persegue-me em cada olhar, em cada mordomia e protocolo coloquial, e pergunto-me se serei digno...
Resta-me o conforto da verdade da minha veracidade, trato o peixe acima de mim, e hoje a pesca nem foi má... acho que já me sinto melhor. Insólito? Talvez. Indigno? "Not in a million years!"

"Out here in the perimeter there are no stars, out here we are stoned, imaculate."

Ni!

2.06.2006

Dupla personalidade


Continuo a não compreender!
Nuns às bolinhas, noutros liso;
À esquerda ou à direita;
Verde ou preto;
Arial ou Book Antigua!?
Como em tudo, há sempre uma outra máscara que podemos colocar. Após longos dias de postagem tripla, o Quioske ganhou vida própria e aparece com o vestido que melhor lhe assenta.
Bem haja amigo Quioske por tal altruísmo!