2.21.2012

1.31.2012

bastardia

Com o passar dos anos tendemos a perder o brilho idealista que nos foi moldando o pensamento e dando corpo aos nossos atos, tornando-nos secos, imutáveis, perfeitos bastardos entre irmãos.
Ouvi esta frase, nestas e outras palavras, muitas vezes. Ouvia-a recorrente pela voz de experientes e bem sucedidos cordeirinhos que, disfarçados no rebanho, foram-lhe toldando o passo conduzindo-o pelo seu caminho mais seguro.
Nunca soube bem como designar essa veia normalizadora e segura que todos querem, nem como caracterizar sequer essa necessidade insana de nos vermos sentados no sofá e ver uma merda qualquer na TV à espera que a vida passe.
Também nunca soube, até hoje, como chamar a essa massa que compõe a opinião pública, feita de ideias preconcebidas, frases fáceis e com vontade de apontar o dedo para logo esquecer, mal novo escândalo o chame à atenção.
Costumava chamar-lhe o país de merda. Hoje, sei que não é assim.
Sei agora que a isso chamarei: a bastardia humana.
São bastardos bronzeados e de cabelo armado. São bastardos entendidos em faladura especulativa, sem fundamento, sempre com base nos que outros disseram. São bastardos os que o dizem, os que o comentam, os que o ouvem e os que o transmitem.
É bastarda a mensagem, o emissor e o receptor.
Sou bastardo, mas tu que o lês também. Não sorrias, estou a falar mesmo de ti.

1.06.2012

um país de claques - maço-quê?

Tal como em anos anteriores, o início do ano é altura da maçonaria marcar a sua existência. Normalmente uma entrevista ao grão aventaleiro faz as honras da casa, mas este ano quiseram primar pela orginalidade: deixar cair na opinião pública a "novidade" de que os aventaleiros são uma claque multifacetada que rema para o seu lado (haverá alguém que se tenha surpreendido com isso!?).

Depois do desaire Fernando Nobre, volta à carga agora em âmbito mais alargado, mas sempre com o mesmo pano de fundo: a assembleia da república, essa instituição em que claques ferrenhas e bem mandadas lançam impropérios doutrinados ao inimigo e em que a frase "muito bem" é primeira entrada do glossário deputóide.

Ainda que com menor frequência, faço parte da claque (sim, também faço parte delas) que passa os olhos na ARtv e que se delicia com os comentários infundados que lançam uns aos outros à espera que os media os transmitam em canal aberto.

Por entre declarações de voto que nada dizem e pedidos de defesa da honra que enterram ainda mais o difamado, é normal pensar que motivos aventaleiros, opus deiences, de cama-e-mesa ou de fruta madura tenham sido factores decisivos para as escolhas recairem sobre essa bela fauna que por lá polula.

Apesar disso, depois de marinar uns dias, lá voltaremos à normalidade entre crises e Cátias Vanessas, bem ao gosto da populaça.

12.26.2011

o monstro da ciência - tipos de documentos científicos






A publicação de ciência é o veículo para a partilha e validação do conhecimento produzido. Como referia Merton em 68 na Science: "for the development of science, only work that is effectively perceived and utilized by other scientists, then and there, matters".

Assim, os suportes de ciência apresentam-se como vitais para a difusão da informação aos pares assumindo 3 dimensões genéricas que Garfield em 1955 sistematizou: o livro - macro unidade (compilador de conhecimento), o artigo - micro unidade (produtor de ciência) e o índice - nano unidade (referenciador de conhecimento).

Dedicar-nos-emos apenas aos tipos de documentos micro, as unidades que, grosso modo, (re)criam novos formatos, comprovam ou desmentem paradigmas, que impelem o conhecimento a evoluir e deixando de lado as largas dezenas de formatos de publicação que os Subject Headings ou Thesaurus indicam.

De facto, o termo journal articles (original research, scientific letters, notes, reports, conference papers e reviews) resume os tipos de documentos científicos possíveis e que, não sendo exclusivos, em post posterior, iremos sistematizar.

Existem, de forma genérica, três tipos principais de artigos:

- investigação original, publicada em primeira mão em revistas de referência para a área científica ou em sites de especialidade e que apresentam formatação diversa, desde experimentação laboratorial, testes clínicos, estudos metodológicos, resultados de conferências, etc.;

- estudos integrativos, baseados no conhecimento já produzido e sistematizando conceitos ou revendo o conhecimento teórico já produzido, como são exemplos as revisões sistemáticas ou as guidelines;

- outros tipos de artigos, resultam de dados emanados da leitura e análise dos dois tipos anteriores ou de casos sistematizadores da prática e resultam em comentários, casos de estudo, editoriais ou cartas ao editor.

Por norma os tipos de documentos respondem a uma de três necessidades: explicar novos conhecimento, compilar conhecimento produzido ou comentar resultados anteriores.

Pretende-se responder à máxima de Merton partilhando conhecimento, mas, na realidade, fundamenta-se em factores bem mais complexos e a que me dedicarei em post autónomo.


12.21.2011

sombras de um vento catalão






Acabei, há dias, o refrescante livro de Ruiz Zafón, "A sombra do vento". Entre mistérios e cenas de género, correm páginas sem se dar por isso, num enredo entusiasmante que nos transporta para Barcelona dos anos 40-50.

Sem mácula, a mancha é agradável e a tradução de qualidade, deixando perceber, entre as palavras, a sonoridade catalã que lhe está no sangue.

Apesar de algumas soluções maneirinhas para a conclusão do livro, mantém sempre a coerência da história e uma lógica de facto-consequência que justifica os milhões de exemplares já vendidos.

O início da narrativa é francamente bom e a história desenrola-se num ciclo de vida que, no final, se torna evidente, num discurso divertido e consistente que dá vida às personagens que povoam o livro e salpicando os actores com uma fantasia latina entre a estiva húmida caribenha e a orvalhada glacial ibérica.

Boa escolha para as noites frias de Inverno.

12.14.2011

entre bispos, frades e heresias

Li há algumas semanas "A Estratégia do Bobo", um livro perdido de Serge Lentz, autor algo conhecido na França na década de 80 e que a Círculo de Leitores publicou há alguns anos.

A história passasse na Europa Piccolominesca da pré-reforma protestante, deambulando entre a devassidão humana que caracteriza as suas construções.

No coração da igreja católica de meados do século XV conta a história da ascensão-queda-ascensão de um jovem bispo e da visão libertária de um vivido frade, movedora de hordas populares.

O enredo é motivador e as personagens vivas e interessantes, caracterizando de forma entusiasmada a época e a populaça que a habita.

Não deixando de lado o formato circular do romance histórico, à medida que se aproxima do fim vai deixando transparecer a incapacidade da história evoluir, deixando à deriva algumas páginas e fazendo perceber um final decepcionante.

A qualidade do conteúdo que até aí o vai caracterizando, apesar de algumas incongruências, é debelado por um final previsível reflectindo a incapacidade do autor em perceber qual o caminho próprio que a história estava a percorrer.

De toda a forma, esquecendo as últimas 20 páginas, vale a pena dar-lhe uma vista de olhos.



11.21.2011

homem, o bom símio

"o homem, como bom símio, é um animal social, e imperam nele o amiguismo, o nepotismo, a trapaça e a mexeriquice como norma intrinseca de contuda e ética. É pura biologia."

Fermin Romero de Torres em "A Sombra do Vento" de Carlos R. Zafón.

10.18.2011

O monstro da ciência - países produtores




A ciência é, em larga medida, uma actividade em que a rivalidade com os pares está à flor da pele.

Apesar de penoso o processo produtivo e a dificuldade de reconhecimento do trabalho realizado em países da periferia, como o nosso, e apesar da dificuldade em entrar no restrito meio académico, a competição pela hegemonia científica está na ordem do dia, utilizando-se rankings científicos para avaliar a saúde científica das nações.

Utilizando uma das duas bases de dados referencial da qual resulta ranking de impacto: o Scimago Journal Rank, cedo percebemos a hegemonia americana apenas beliscada pela China, o Reino Unido, o Japão, a Alemanha e a França aos quais se segue uma longa cauda de 230 países produtores (Portugal surge num sofrível 34.º lugar).

Os números parecem claros. Apesar disso há que analisar a tendência geral de evolução da produção científica por países para percebermos para onde caminhamos.

Tomando por medida o número de documentos publicados (citáveis e não citáveis - comentários, erratas, etc.), fizemos um exercício simplista de análise da dinâmica de evolução da produção de documentos dos dois principais produtores mundiais: o EUA e a China.

Assim, se os EUA tiveram uma média de crescimento do número de artigos científicos de 0,22% ao ano, a China apresenta uma média de crescimento de 1,11%/ano, mais do que quintuplicando o crescimento científico relativamente à congénere, representado, os últimos 4 anos (2007-2010) 56,5% do total de registos publicados em detrimento de 31,9% do total de registos publicados pelos EUA.

Este tem sido uma das discussões recorrentes (scientometricamente falando), especulando-se ou encontrando-se evidência sobre quando poderá a China quebrar a hegemonia americana. A voz do barulho diz que a próxima década ditará o fim do domínio americano (também na produção científica), mas o proteccionismo científico (auto-citação), o contexto editorial e os incentivos à publicação (para além de outros factores menos claros) são variantes do mercado aos quais a produção nacional irá responder, tornando difícil um prognóstico.

Certo é o fim do domínio americano na produção científica, incerto o quando e quem o propiciará, se os países do BRIC a forçar a queda, se a Europa que parece ainda ter uma palavra a dizer nesta guerra científica sem quartel, entre nações.

9.29.2011

o monstro da ciência


É sabido que a ciência não está no topo da agenda das preocupações individuais (ou colectivas na nossa república das bananas) do comum dos mortais. Ainda que tenha dado origem à maior parte dos conhecimentos, aplicativos, produtos, meios e vontades que nos rodeiam, não reflectimos com frequência sobre o seu papel no nosso mundo.

Na verdade foi-se passando a palavra que ela revestia-se de uma inteligibilidade complexa, dando-se motivos obscuros, idealistas ou fantasiosos para a sua produção.

Talvez por isso o mecanismo mental que despoleta os sentidos tenha aplicado, à ideia de ciência, uma carga negativa (ou pelo menos pesada) que impedirá tantos de tentar perceber os processos básicos de produção científica, não os conteúdos, apenas os motivos da sua produção, dos formatos de disseminação ou das batalhas de gigantes que a impelem a evoluir.

Todos nós nos lembramos dos calhamaços intragáveis que nos faziam marrar nos melhores dias de verão e talvez por isso tenhamos desenvolvido uma aversão natural a esses infindáveis glossários de fórmulas, de palavras, de frases intrincadas, só acessíveis a alguns e que nos têm afastado do verdadeiro formato e sentido em que é produzida a ciência.

Muitos se têm dedicado ao tema mas poucos terão prestado atenção ao que esses seres estranhos têm dito, criando um ruído difícil de transpor e tornando os seus produtores atores secundários num limbo entre a criação impar de valor e a desvalorização coletiva do seu trabalho.

O monstro da ciência passará a ser um conjunto de ideias próprias que partilharei sobre os formatos, motivos e tendências da ciência atual, desmistificando-a aos meus próprios olhos.

9.08.2011

9.05.2011

pérolas do atlântico norte

Cá vão duas pérolas do atlântico norte fantásticas, que vale a pena postar para a posteridade.

Michele Bachmann
"I don't know how much God has to do to get the attention of the politicians. We've had an earthquake; we've had a hurricane. He said, 'Are you going to start listening to me here?'".
Mais ou menos: "Não sei o que Deus terá ainda de fazer para chamar a atenção dos políticos. Já tivemos um tremor de terra; já tivemos um furacão. Ele [Deus] disse: 'Vão agora começar a dar-me ouvidos?".
Cita-se a congressista republicana dos EUA durante um comício do tea party na Florida, sugerindo que os eventos naturais que recentemente assolaram os EUA foram uma chamada de atenção de Deus para as políticas sociais de Obama.

Silvio Berlusconi
"Vou-me embora deste país de merda".
Cita-se o primeiro ministro italiano em conversa. Tiram a frase do contexto e fica isto...
Aliás de Berlusconi admiro duas coisas: Esta citação e as festas privadas.

8.22.2011

festa do chá!? isso é coisa de velhinhos!


A ignorância insana tem assolado a américa, focada no fantasma do socialismo, ideologia demoníaca, pomo de todos os males.

Movido por uma mediatização anti-social e por uma vontade oligárquica de mover o país para a boa velha rota, é sustentada na ignorância das massas convocadas pelos fazedores de opinião.

Reflecte um país ainda muito distante da solidariedade, um país impregnado de preconceito.

Quanto a mim, o lugar no inferno está assegurado. Quentinho e socialista vai ser uma rambóia memorável!

8.17.2011

a janela de Melinda

Melinda é um olhar que reflecte, é uma janela de si.

Não é humana, é um espelho à procura do seu reflexo, uma imagem sem modelo, uma fantasia sem forma, uma máscara que espera ser deposta.

Melinda é poesia. Mas não daquela bacoca, rimante, que resulta num tosco sopro de escrita, Melinda é poema grego, é escrita criadora do pensamento e da sublime razão.

É um rabisco singelo de mão treinada, é o minimal outrora elaborado.

Como para todos, também para Melinda a peste emocional lhe tocou, dando corda no mecanismo universal das marionetas que somos.

Liberta-te Melinda, livra-te da peste emocional, diria Reich. Deita-te Melinda, adormece e acorda, eu dar-te-ei vida, diria Chikamatsu.

Espreguiça-se Melinda do seu sono de ilusão e, nessa altura, o calafrio que percorre o corpo à procura do fio vital acorda-a, de rompante.

Num clarão vislumbra a liberdade, tropeça, cai, sorri, levanta-se, corre escada acima para o seu refúgio.

Recua Melinda, tropeça e cai outra vez, depois chora o que tens a chorar, dói, não dói?Agora levanta-te, corre escada acima, recompõe-te e volta a sair. Passa pelas mesmas escadas, poderás tropeçar outra vez. Se assim for, volta a chorar, a subir e depois a sair. A liberdade está na rua, à tua espera e sem ti não será a mesma.

Liberta-te da forma, da ideia, da convenção, da humanidade, da carapaça, do passado, da lembrança.

Liberta-te do presente, paira por entre os comuns, és energia aprisionada. És energia aprisionada...

Melinda flui, sobe as escadas e não tropeça, entra no seu antigo esconderijo e respira. O ar é menos rarefeito, a vida transborda no agora covil de predador.

Uiva agora Melinda, o luar lá fora é teu.

8.09.2011

American dream ou de ratos e homens



Voltei a "Ratos e Homens" quando ele se cruzou no meu caminho, na última prateleira de uma cinzentona biblioteca universitária.

Já o havia folheado anos antes quando, contrariado, tive de passar os olhos pelo "A Pérola". Por essa altura intrigou-me o título, menos as primeiras 2 ou 3 páginas do romance, deixando-o.

Steinbeck já se havia apresentado anos atrás com "Viagens com Charley" e com "A um Deus Desconhecido" em que me surpreendeu a espiritualidade que a sua visão da natureza comporta, menos evidente no seu companheiro Charley, mas explícito na árvore decepada de Wayne, comprovando, aos meus olhos adolescentes, a existência de uma alma colectiva desprovida de intenção.

Com "Ratos e Homens" a luz brilha em Lennie. O sonho americano é aqui retratado como ele é realmente: um sonho de vida, de futuro, de prosperidade, inúmeras vezes incumprido na realidade dura do trabalho braçal.

Mas é muito mais do que isso.

É a chusma de gente que sonha com os milhões do totoloto, é o taxista que junta para comprar uma terra na aldeia, é o varredor que espera encontrar a fortuna entre o restolho, é o advogado que almeja singrar, sou eu que sonha fazer a diferença.

"Ratos e Homens" não representa um qualquer passado longínquo ou uma realidade geográfica. Representa o homem como ele é: sonhador, e o seu resultado habitual: o fracasso.

O realismo de Steinbeck é assim, espiritual, mas muito cruel. O realismo de Steinbeck, não é dele, é da condição humana.

A não perder.

7.21.2011

libralhada da boa

Terminei o "Último Cabalista de Lisboa". Foi só à segunda que o acabei, depois de perder um exemplar autografado no comboio para o Porto (que mil sodomitas esconjurem diariamente o tipo que me levou o livro!).
De facto, o livro é brutal! A partir de um escrito de quinhentos da autoria de Berequias Zarco, Zimler traz-nos à memória a barbárie cristã que foi assolando os séculos da sua hegemonia europeia.
Os relatos dos massacres de Lisboa e da vida do povo urbano de então, são reveladores de uma sociedade impreparada para a diferença e em busca de um bode expiatório para a sua rusticidade.
De facto esta ideia já me havia assolado quando li a “Crónica de Almançor” por António Saldanha, um calhamaço impensável que relata a vida de um cativo-livre em Marrocos durante quinhentos-seiscentos.
Também me veio à memória um estudo que fiz há alguns anos sobre os "Processados nas Inquisições de Coimbra, Évora e Lisboa", com discriminação do número de judeus considerados culpados nos processos da inquisição.
Na altura analisei apenas os inquiridos do Nordeste Trasmontano (equivalente ao distrito de Bragança) entre 1541 e 1755 (apurado a partir do Inventário dos Processos da Inquisição de Coimbra, entre 1541 e 1755 e das listas das Inquisições de Évora e Lisboa, apresentadas por Francisco Manuel Alves, na sua obra, Os Judeus no Distrito de Bragança, t. V das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, entre 1551 e 1755, estas, contudo, não exaustivas para o período em causa, elaboradas a partir da Colecção Moreira, da Biblioteca Nacional).
Quando terminei a análise quantitativa dos dados, lembro-me de ter pensado que a indústria das sedas e dos curtumes (a que se dedicavam parte dos judeus de Trás-os-Montes), hoje inexistentes, poderiam ter sido uma alavanca importante para colocar o nordeste no mapa económico português e que o êxodo em massa motivado pelos cerca de cinco mil inquiridos, foi um dos factores do marasmo em que ainda hoje vive o interior norte.
Revejo o Último Cabalista de Lisboa como um retrato do que fomos, reflectindo um país tacanho e rude, que nos trouxe até aqui.
Mas seremos diferentes!? Estaremos imunes ao poder da massa!? Pegaríamos hoje em machados, foices e martelos e faríamos os mesmos massacres de outrora!?
Penso que não, o poder do sofá é grande, mas a nossa língua comprida continua a culpar outros pela falta da chuva, pelo empréstimo chorudo que fazemos, pelo trabalho que nos dão, pelo abuso que é deixarmos as fronteiras livres a quem connosco quer partilhar a vida.
Pelos vistos continuamos tacanhos, rudes, brutais como outrora, mas com o rabo almofadado pelo feitiço da novela, do cochicho, da maledicência que ao português tão bem sabe.
Afinal, poderá não ser um livro sobre quinhentos, mas um retrato actual do Nós interior, pessoal e inominável, escondido apenas para não levantar suspeita.

7.04.2011

Leão, o Africano



Numa pujante auto-biografia possível, Amin Maalouf recria o imaginário do mundo árabe de seiscentos, num breve tratado de história diplomática euro-magrebina, levando-nos a viajar com Hassan al-Wazzan entre Granada, Fez, Cairo, Roma e outras tantas.
De realçar as passagens fantásticas sobre costumes muçulmanos e vida nas cidades, bem como sobre a centralidade do corão nas sociedades do mundo árabe.

Não sendo uma obra-prima da literatura é muito bem escrito, com apontamentos históricos muito bons, em suma, um livro muito porreiro.

6.29.2011

EMBALLAGE EUROPE – velhas ideias ainda populares – a criação da European Packaging Federation

Em 1953 fundava-se a European Packaging Federation (EPF), como corolário da Conferência de Embalagem em Itália que juntou os representantes dos centros de embalagem da Alemanha, França, Holanda, Áustria e Suíça, desenvolvendo um trabalho de colaboração das várias associações no sentido da normalização de tipos e materiais de embalagem, congregando trabalho já desenvolvido por algumas organizações nacionais e fomentando novas práticas que incentivassem à participação internacional mais ampla.
Sob a égide da Organização de Cooperação Económica Europeia (OECE), pretendeu-se a estandardização de formatos, potenciando economias de escala e tendo por base a normalização de procedimentos e resultados, bem como o estabelecimento de normas de controlo de produção, considerando os complexos interesses dos stakeholders: produtores, transformadores, utentes, fabricantes de maquinaria, comércio, transportadoras, entre outros.
Os primeiros 10 anos de existência da EPF pautaram-se pela consolidação de actividade e articulação conjunta, tanto entre as diversas organizações nacionais, quanto com os comités de normas reunidos no já reconsolidado International Standards Organization (ISO)(1) . De facto, na sua década inicial, criou um sector de embalagem adstrito à ISO, com diversos comités: ISO/TC 52 – latas de conservas, ISO/TC 17 – folha de flandres (2), ISO/TC 53 – embalagens de produtos refrigerados, ISO/TC 63 – gargalos de vidro, subcomité do ISO/TC 6 – papel, designado embalagens de papel e cartão, ISO/TC 51 – tabuleiros para transporte de mercadorias e ainda o ISO/TC 88 – marcação de embalagens de transporte.
Ao EPF cabia a divulgação das normas junto dos associados e a utilização dessas normas como base do trabalho internacional colaborativo. Estes trabalhos desenvolveram-se no âmbito de estruturação de formas de embalagem por tipo de produto, no âmbito técnico e científico no desenvolvimento de novas soluções tecnológicas e optimização de métodos e processos de produção e ainda no âmbito da unificação das determinações sobre a nomenclatura de qualidade nas embalagens de transporte, criando uma marca de qualidade unitária europeia da embalagem produzida - a EMBALLAGE EUROPE.
Destaque-se a pertinência e actualidade das questões levantadas em 1953, a complexidade de criação de processos de normalização, de controlo de qualidade e de criação de chancelas de qualidade comunitárias, ainda na ordem do dia comunitário e cujo trabalho europeu ainda necessita de consolidação ao nível das nações.
Como roda viva, trabalhamos velhos problemas com novas ferramentas, esquecendo, muitas vezes, a engrenagem original que criou a máquina que criou os processos que construiram a base de qualidade dos produtos e embalagens certificadas: em suma, que nos criou a nós reclamos andantes que somos de marcas e embalagens...

Quem quiser saber mais sobre a European Packaging Federation, não sei o que recomendar, esquecida que é hoje do comum dos mortais... se o google não a apanha, não existe, se o google não o referencia, não existe como memória de nós.

Por isso me dediquei agora à EPF.


(1) O ISO foi fundado em 1926 como International Federation of the National Standardizing Associations (ISA), focado na engenharia mecânica. Tendo sido descontinuado em 1942 durante a II Guerra Mundial, foi reorganizado em 1946.



(2) Folha de Flandres – material base para embalagens de folha fina.