6.29.2011

EMBALLAGE EUROPE – velhas ideias ainda populares – a criação da European Packaging Federation

Em 1953 fundava-se a European Packaging Federation (EPF), como corolário da Conferência de Embalagem em Itália que juntou os representantes dos centros de embalagem da Alemanha, França, Holanda, Áustria e Suíça, desenvolvendo um trabalho de colaboração das várias associações no sentido da normalização de tipos e materiais de embalagem, congregando trabalho já desenvolvido por algumas organizações nacionais e fomentando novas práticas que incentivassem à participação internacional mais ampla.
Sob a égide da Organização de Cooperação Económica Europeia (OECE), pretendeu-se a estandardização de formatos, potenciando economias de escala e tendo por base a normalização de procedimentos e resultados, bem como o estabelecimento de normas de controlo de produção, considerando os complexos interesses dos stakeholders: produtores, transformadores, utentes, fabricantes de maquinaria, comércio, transportadoras, entre outros.
Os primeiros 10 anos de existência da EPF pautaram-se pela consolidação de actividade e articulação conjunta, tanto entre as diversas organizações nacionais, quanto com os comités de normas reunidos no já reconsolidado International Standards Organization (ISO)(1) . De facto, na sua década inicial, criou um sector de embalagem adstrito à ISO, com diversos comités: ISO/TC 52 – latas de conservas, ISO/TC 17 – folha de flandres (2), ISO/TC 53 – embalagens de produtos refrigerados, ISO/TC 63 – gargalos de vidro, subcomité do ISO/TC 6 – papel, designado embalagens de papel e cartão, ISO/TC 51 – tabuleiros para transporte de mercadorias e ainda o ISO/TC 88 – marcação de embalagens de transporte.
Ao EPF cabia a divulgação das normas junto dos associados e a utilização dessas normas como base do trabalho internacional colaborativo. Estes trabalhos desenvolveram-se no âmbito de estruturação de formas de embalagem por tipo de produto, no âmbito técnico e científico no desenvolvimento de novas soluções tecnológicas e optimização de métodos e processos de produção e ainda no âmbito da unificação das determinações sobre a nomenclatura de qualidade nas embalagens de transporte, criando uma marca de qualidade unitária europeia da embalagem produzida - a EMBALLAGE EUROPE.
Destaque-se a pertinência e actualidade das questões levantadas em 1953, a complexidade de criação de processos de normalização, de controlo de qualidade e de criação de chancelas de qualidade comunitárias, ainda na ordem do dia comunitário e cujo trabalho europeu ainda necessita de consolidação ao nível das nações.
Como roda viva, trabalhamos velhos problemas com novas ferramentas, esquecendo, muitas vezes, a engrenagem original que criou a máquina que criou os processos que construiram a base de qualidade dos produtos e embalagens certificadas: em suma, que nos criou a nós reclamos andantes que somos de marcas e embalagens...

Quem quiser saber mais sobre a European Packaging Federation, não sei o que recomendar, esquecida que é hoje do comum dos mortais... se o google não a apanha, não existe, se o google não o referencia, não existe como memória de nós.

Por isso me dediquei agora à EPF.


(1) O ISO foi fundado em 1926 como International Federation of the National Standardizing Associations (ISA), focado na engenharia mecânica. Tendo sido descontinuado em 1942 durante a II Guerra Mundial, foi reorganizado em 1946.



(2) Folha de Flandres – material base para embalagens de folha fina.

6.27.2011

pasquins da mouraria e outros semanários que tais


Neste post, Expresso a tristeza que é ler alguns semanários seminais. Tarefa árdua numa república bananal que se esquece do país, preso à capital.
Folhear as resmas de separatas, adendas, panfletários, folhelhos e afins, resume a muito pouco as notas de uma semana nacional, num pasquim que, número após número, se esquece que há muitas notícias frescas de um país para além das fronteiras de benfica, alfama ou da margem sul.
Paradigmática a notícia (ou antes, não notícia, já que só apresenta sumários descontextualizados de perguntas bacocas feitas a gente que teria muito mais que dizer) sobre os 7 dirigentes de instituições de ensino superior de economia e gestão mais destacados do país.
Centrado em Lisboa, cidade representada por 4 instituições, esquece as iniciativas já amplamente reconhecidas lá fora, mas esquecidas de jornalistas de gabinete que, sentados num qualquer edifício cinzentão da metrópole, não ouvem os guinchos da macacada do norte.
Sinceramente, entristece-me (a idade provoca estes afrontamentos) ver relegadas para segundo plano a EGP ou a EGE, em detrimento de outras iguais cuja vantagem é serem sulistas. É triste falarem de um jornalismo livre e esquecerem que há vida para além de meia dúzia de palavras vãs sobre o Norte, esquecendo o país real. É triste falarem hoje das empresas têxteis do norte, quando são caso de estudo há já alguns anos pela inovação com que têm atacado os mercados internacionais.
É triste ver um semanário cheio de vaidades que se esquece de fazer jornalismo, de ser interventivo e de se afirmar como um espaço de informação e não de publicidade.
Acho que vou deixar de o comprar...

5.27.2011

tags, etiquetas e outras miudezas



Rendámo-nos às tags. Estas etiquetazinhas são a base da confortável sociedade-de-consumo-imediato que nos rodeia.

Ora indicando preços da meia calça, ora informando da qualidade de um qualquer produto, ora direccionando-nos para o mundo virtual.

Aqui, neste quioske mal amanhado, também as tags têm servido para um qualquer incauto cair da teia de palavreado que a envolve.

Vejamos algumas das tags que têm servido para trazer cá gente que, claro, logo desaparece no complexo mundo de informação da rede:

"como ser furtivo" - 2 visitas

"o que é ser furtivo" - 2 visitas (não sei bem o significado)

"troika cavalos" - 2 visitas (cavalgaduras, antes)

"cafe flatulencia" - 1 visita (causa, causa)

"boca de labagem"" - 1 visita (sou eu)
"cafe causa flatulencia" - 1 visita (pois causa)

"café flatulencia" - 1 visita (já disse que sim)

"compra e venda de burro mirandês" - 1 visita (vendo principalmente)

"meia branca" - 1 visita (uso! de ginástica quando ponho a minha gravata amarela)

"meia branca juri" - 1 visita (quê!?)

"teu rastro de sangue na neve" - 1 visita (what!?)

E por aí fora... Quem passa os olhos, logo vê que aqui se fala só da flatulência, da compra de burros e da meia branca.


Que belo quioske temos nós por aqui... eloquente!

5.24.2011

a esquizofrenia e as organizações

Há uma certa esquizofrenia nas instituições portuguesas.
Ora motivados pela deriva estratégica, ora pela incapacidade organizativa, ora ainda pela dificuldade em delegar, empreender, inovar ou, simplesmente, simplificar a mensagem.
Incapaz de se centrar nas funções nucleares que deve empreender e que lhe dá significado, logo deriva numa bipolaridade entre o que quer fazer mas não tem capacidade vs o que deve fazer mas não sabe como.
A ideia parece abstracta, mas se reparamos, por exemplo, no mar de páginas institucionais, de perfis de facebook e de twitters actualizados à semana e que se apresentam como a face de um designer mas não o objecto de um cliente logo se concretiza a esquizofrenia das organizações.
A máxima organizativa "keep it simple" parece estar alheada da decisão e o foco no cliente parece ter sido enviado para segundo plano numa sede egocêntrica que vê o resultado não como evidência de um processo contínuo e moldável, mas como um objecto intangível e imensurável.
Sem resultado e sem aferição do processo que lhe deu corpo, nada será medido, nada será apurado, nada se poderá optimizar, melhorar, avaliar e valorizar.
Claro que os bons exemplos serão sempre bons, mas será que os medianos e os medíocres não se afundarão ainda mais num mar de informação em que quem não se destaca morre? Será que os decisores não se apercebem que contribuem para o próprio fim, quando se afastam da simplicidade organizativa e do foco no cliente?
Talvez o saibam ou talvez nem sequer façam ideia do que se escreve por aqui. De toda a forma a sua bipolaridade impedirá sempre o esclarecimento que se impõe quando se tem em mãos a responsabilidade da decisão.

5.09.2011

socretinices

mais uma vez Sócrates cilindra um Portas pouco blindado...

comparo-o ao Pinto da Costa. Se um é o papa bujardas (nos dois sentidos pelo que parece), em empate técnico com João Jardim, Sócrates é o papa debates, mesmo sem teleponto fulmina o parceiro....

Quer se goste, quer não, o homem nasceu para malhar (que é feito do saudoso Santos Silva) na oposição...

5.05.2011

troika = trenó puxado por cavalos

Depois do golpe de teatro sobre o que não irá acontecer, cá lançam o memorando de entendimento, bem mais motivador do que a fraca comunicação ao país, como que a arrebanhar votos.
Especial enfoque para as medidas a implementar sobre o emprego (quem lê o memorando e não sabe de onde vem, ficará abananado com as medidas de protecção aos trabalhadores independentes), a formação profissional, a racionalização da AP e a regulamentação profissional.


No geral, parece-me bem, aliás, muito bem no que respeita ao fim das cédulas profissionais de grupos como operadores turísticos e afins que de (desin)formação têm muito...


Parece-me ainda bem as medidas de análise de associações e institutos públicos com vista ao fim da ampla matéria gorda...
e as medidas de contenção de cargos públicos

e as medidas de ajuste na administração local (racionalização de municípios e freguesias)

e as medidas de apoio à reconstrução imobiliária

e as medidas de contenção em gastos adicionais de custos de representação

e as medidas de racionalização dos departamentos de finanças
e as medidas de reforço dos corpos de auditores e fiscais


Em vez do que NÃO vai ser feito, podia ter sido feita uma declaração ao país sobre o que vai ser feito, seria bem mais construtivo e... vá lá, nem todos são meninos de coro que precisam de ser sossegados por mais um dia...

5.03.2011

eu comment

Há milhões de insanos que festejam a morte de alguém. Esses mesmo ficam indignados quando vêem um pedaço de pano ser queimado em público...

Quem é o terrorista afinal!?

O marado farfalhudo soviético dizia que "uma morte singular era uma tragédia, um milhão, uma estatística", afinal tinha a sua razão, é que morre um gajo, há festa, morrem 22 mil crianças por dia, é uma estatística.

É cada bronco!

Relatório 2010 sobre mortalidade pelo link: Levels & Trends on Child Mortality

5.02.2011

non finito

Há uns tempos, tentei, sem efeito, fazer uma revisão sobre o renascimento, no que se refere ao ressurgimento clássico e aos princípios formais do renascimento.

Hoje, o homem de vitrúvio relembrou-me a lição... não tanto pelos apontamentos, mas pelo espírito contemporâneo que um revivalismo potenciou, talvez não por si só, mas pelos homens que o fizeram, indo muito além dos cânones e do academismo que ele representa.

Com Bounarroti e a ideia a que deu forma, revoluciou-se o conceito do afloramento original e da intenção criadora travada pelo espírito da matéria.

A partir daí a forma extravasou a ideia, o artista libertou-se dos ferrolhos apertados da fórmula clássica (arte=ideia+forma), transformando-se na entidade salvadora do espírito que a matéria aprisiona.

Com a sério "os prisioneiros" libertou-se a forma da ideia, deixando ao artista a vã glória de decapar o que o espírito original retém. Do artista, nasceu o artesão que arranca à pedra a alma encarcerada.

E assim se fez arte. Pena que alguns não a vejam como ela é... a esses, chamo-lhes artistas, aos outros, anarcas libertadores da matéria.

4.27.2011

do que fala a "mais fina flor da aristocracia portuguesa"






Ontem ouvi com assombro uma reportagem inusitada. Acho que nem eu nos meus mais loucos devaneios pensaria numa entrevista a sua alteza a duquesa de carabaz... ou do carnaval.

Sua excelência a senhora duquesa, pertencente "à mais fina flor da aristocracia portuguesa" (cito o narrador), apresenta-se sentada junto à lareira real, com mise proeminente e pele de leopardo, referindo-se assim ao que a plebe designa por precedência e protocolo:

"quando se trata de um casamento real há diversas... há muita diplomacia que não se pode... não se tem o direito de... ao erro... e que se tem que ter muito cuidado porque todos os convidados têm que ser todos tratados da mesma forma, mas sobretudo não esquecendo, não, quem será sentado nesta fila, porque, não pode passar à frente deste mas também tem de ficar ao lado deste... Há diversas coisas que... prontos (sic) um sistema de maneira das coisas serem feitas que num (sic) podemos esquecer sobretudo, que é muito importante!"

Pérolas destas só me lembro da mítica frase do emplastro "o Pinto da Costa é o meu pai e o Victor Baia é a minha mãe..."

Ai que sôdades desses anos loucos do rei omeleta.... é que isto de populaça, república e demónios-afins-bem-falantes é coisa do zé povinho.

Sua magnífica excelência a duquesa de catrapaz, merece respeito pelas suas sábias palavras... pretendia apenas simplificar o discurso para o seu povo devoto perceber.

Hoje, vou rezar dois pais-nosso e três avés-maria para me purgar da minha maledicência.

4.25.2011

disc-ursos



Tive, mais uma vez, a paciência de ouvir os discursos e os comentários nas comemorações do 25 de Abril.


Tocante! Uma lágrima corria-me pela face ao ouvir responsáveis e ex-namoradas falarem da necessidade de coragem para enfrentar o futuro, do imperativo de reformas estruturais e de um bate-no-peito pelo que outros não fizeram...


A solução, como sempre, passa por novos rumos, novas figuras e uma nova forma de ver o país... Será mesmo assim? É que da assistência conta-se pelos dedos o povo abaixo dos 50 anos... é a experiência, meus senhores, é a experiência a funcionar... pelos vistos no mau sentido, pelo que vemos...


Esses profundos disc-ursos fizeram-me lembrar Mark Twain em Pudd'nhead Wilson "nada precisa tanto de reforma como os hábitos alheios" e na verdade, entre referências a maus políticos e maus cidadãos (outros claro!) não ouvi ninguém assumir culpa de nada...


Um dia faço um disc-urso sobre a reforma.... começará pelas palavras de ordem:


Reformai-bos camaradas, reformai-bos!

4.19.2011

pensamentos vergonhosos!


Costumo abstrair-me do contexto neste meu espaço de relaxe, pelo cinzentismo do dia-a-dia e pelas palavras calculadas que se lê tanto no mundo virtual, quanto naquele partidário, afiliado, parcial e lodoso lago da edição periódica.

No JN de hoje, Alberto Castro, comentador de impulso, apresenta a falta de crescimento nacional como "uma vergonha". Adiciona ainda um cartoon algo ranhoso de Francisco Providência representando um menino envergonhado, com orelhas de burro.

Bom, não deixo de concordar a estranheza do facto. Países como o Cambodja, o Burkina Faso ou a Líbia e o Iraque, apresentarem crescimento acima do português é, no mínimo, irónico.

Mas daí a considerar "uma vergonha" faz-me pensar no que me fará corar... o crescimento da extrema direita em países de primeira linha do crescimento mundial, a manutenção de facínoras no poder em países amordaçados, a tirania da banca no mundo capitalista, o poder vitalício de mafiosos em países do G7, ou imagine-se, num outro patamar de descaramento, a edição de um pasquim diário apresentando na primeira página e em destaque gordo a morte de um homem ao pontapé e uma qualquer rixa, como se não houvesse factos públicos relevantes para o comum mortal que deveria comprar o jornal para se manter actualizado...


Bem, mas isso sou eu que me envergonho com pouco...

4.12.2011

nomes inusitados II


Porto, 2011, nomes fluiam no terminal em frente, nas ruas movimentadas do mundo virtual.

Nomes insondáveis autores de ciência de alto impacto polulam aos milhares: Johnston, X.; Smith, Y., e muitos, muitos mais com derivações para todos os gostos, guardando em si, uma cara, uma personalidade, uma forma de ser e estar, boa gente e outros que nem por isso.

Dedico-me agora a nomes chineses, esse intrincado mundo de derivações, em que Li Mung refere a Li Ming que Li Mong citou Li Meng...

Todos originais, são autores de artigos científicos inclusos na maior base de dados referencial: a Scopus.

Cá deixo apenas algumas derivações possíveis de apenas uma combinações: Li, J.:

Li, Jungying
Li, Jingming
Li, Jing Jing
Li, Jung
Li, Jingquan
Li, Jinlei
Li, Jing Yue
Li, Jung Pang
Li, Jingin
Li, Jiantao
Li, Jiangyu
Li, Jizi
Li, Jin
Li, Jun Lan
Mais nomes inusitados, em português, aqui

3.29.2011

libralhada da boa

"Nos tempos antigos. quando pessoas e animais partilhavam a terra, um ser humano podia transformar-se num animal se assim quisesse, e um animal podia transformar-se num ser humano. Às vezes eram pessoas e às vezes animais e não havia diferença alguma. Todos falavam a mesma língua" cita um velho anarquista angolano num refrescante milagrário pessoal.



E que bom seria sermos falcões ou doninhas se assim o quisessemos...

3.16.2011

pensamento I

"Os homens são, regra geral, excelentes pessoas" - Eduardo Sá em entrevista ao Destak de 16 de Março de 2011.

1.26.2011

Coisas sobre cafés no Porto V

Cartoon by Drew at: http://www.toothpastefordinner.com

Li algures que os cafés do Porto conjugam memórias de bairro com vivências cosmopolitas. Concordo plenamente, são locais de encontro de gerações, sensibilidades, de vidas sem nenhum ponto comum que por um momento se cruzam, ou que se cruzam pela primeira de muitas vezes.

Como o diz o meu amigo Hugo, George Steiner escreveu algures que a Europa, enquanto espaço quotidiano comum, já existe nos cafés.

O Porto não foge à regra. Aqui, os cafés são locais de debate, de cultura, de vida partilhada, de conversa desmedida, entre mesas onde o que é poderoso e frágil aflora o palato através da chávena e onde a palavra escorre, descomplexada.

1.20.2011

Coisas sobre Cafés no Porto IV (e afins)



Localizada no Cabo do Mundo, a Casa de Chá da Boa Nova, de autoria de Siza Vieira, é afastado do centro da cidade. É um espaço virado para o promontório avassalador que nos mostra a força do mar e a persistência da pedra.
Uma escadaria limitada por muros altos faz-nos subir ao cimo do afloramento rochoso de onde se contempla o inexorável destino das ondas, a costa. Desconcertante caminho esse, não sobe, ao invés, desce, como que submergindo.
À entrada sobressaem os rasgos dominadores que nos mostram o silêncio do mar. Lá por dentro, revestido de madeira, estamos, de facto, numa cabana de praia.
Aqui beberica-se um café com maresia e a introspecção toma conta de nós. É indescritível, nem sequer coragem há de interromper o lânguido encontro das ondas com a pedra.

12.16.2010

Coisas sobre Cafés no Porto III

photo at Gala´s Night (ver post - porreiro e sentido)


O Café Ceuta, situa-se, tal como os anteriores, nas ruas quentes da nova noite portuense. É hoje, porém, uma leve sombra do brilho da sua abertura em Julho de 1953. Frequentado pelos "habitués" das livrarias das redondezas, é ainda ponto de encontro de gentes activas de ontem, com tempo para reviver, agora.

O edifício é caracterizador do tempo da fundação, com friso de pintura a fresco da autoria de Coelho Figueiredo e lambris forrados a mármore onde encaixam os espelhos cristalinos, já embaciados pelos inúmeros arranjos de cabelos de donzelas casamenteiras e alinhamentos de gravatas de senhores de outrora.

12.14.2010

Coisas sobre Cafés no Porto II

O Café Aviz é um sítio singular.

Fundado por volta da década de 50, apresenta o ambiente típico do Porto. Local de paragem de estudantes, como comprovam as placas dos muitos finalistas universitários que por ali passaram, e outros portuenses passantes, continua a ser reconhecido como local especial para provar a típica Francesinha.

A caminho dos 60 anos é caracterizador dos espaços novos que na altura recriaram o ambiente de café em meados do século XX, agora com novas atracções. O salão de jogos onde os obstinados batoteiros vinham acalmar (ou animar) os ânimos após a labuta diária, destaca-se pelas suas mesas à antiga e o seu baú de memórias, envidraçado, a reclamar a sua história de vidas partilhadas, namoros rompidos, gargalhadas compartidas.

É um lugar onde ainda se respiram as memórias surdas do maralhal que por lá passou e ainda passa a reunir hostes antes da noite que se avizinha.

Surpreendente foto reportagem sobre o Café Aviz em A Cidade Surpreendente

11.29.2010

Coisas sobre Cafés no Porto I


O Café Progresso, aberto em 1899 foi “fundado por meia dúzia de consumidores que, cansados de explorações, resolveram prescindir de quem lhes fornecia géneros avariados para eles os fornecerem, óptimos para si e para os outros” (diz-nos um autor coevo).


Era à altura o “Botequim Progresso” que reuniu nas suas mesas, colocadas em banda, personalidades distintas e individualidades anónimas que debatiam, em torno do mítico café de saco (que ainda produz), temas quentes do dia e outros mexericos de levantar voz.


Dizia Manuel Porto em 1958 que o “café ficou conhecido por nele reunir quotidianamente a fina flor do professorado portuense”. De facto, poderá tal ter ocorrido já que, não raras vezes, era determinado café ponto de encontro de gentes com afinidades profissionais que lá debatiam questões à sua actividade relacionadas, em torno dos inúmeros jornais corporativos que pululavam no Porto.


Em 1963 passa a ser classificado como “café” dando algum lustre aos uniformes brancos dos serventes, que se multiplicavam nas solicitações ao negro néctar e às afamadas torradas, sob a égide do aroma suave a tisnadas bagas doces.


Após uma lenta decadência, comum a vários cafés do Porto, em 2003 celebra a sua reabilitação, dando jus ao brilho de início do século, tendo celebrando, em 2009, as comemorações de respeitosos 110 anos de vida.


Mais sobre o Progresso em: http://www.cafeprogresso.net/
Design do cartaz por: TripleDesign

8.06.2010

A Árvore Generosa ou "Da forma da Arte"

Da arte descomplexada, verdadeira.

De como ser matemático [arte = forma + conteúdo]

De como a literatura não ser densa, bizarra ou alternativa.

De como os clássicos o serem, sem rodeios, nem pudores livrescos.

De como ser intemporal.

De como ler sem complexos.

De como ser cão, burro ou árvore, como nós, sem palavriados recriadores da verdadeira criação, nem discriminação da espécie (esta é intrincada, mas sentida).



A Árvore Generosa [Shel Silverstein] [Espantosa edição da Bruaá Editora]
Platero e Eu [Juan Ramón Jimenez] [Edição de bolso da Biblioteca Editores Independentes]

5.19.2010

Sono, tenham MUITO sono

9 da manhã, sono, MUITO sono!

A edição de Maio da National Geographic Portugal dedica uma meia duzia de páginas às questões dos distúrbios do sono e outras maleitas relacionadas.


Apesar de interessante, chamou-me à atenção uma caixa de texto algo do género:

"Após 24 horas sem dormir, a capacidade e rapidez de resposta a problemas, será semelhante à da ingestão, numa hora, de três copos de whisky"

Alguns dirão que isso é brincadeira de crianças, 3 a 5 copos por hora seria o normal de uma noitada de copos encharcada e se ainda por cima levar com gelo na coisa, não há que temer... mas e se o tipo trata gente e está ao serviço!?

Sobre os efeitos da falta de sono na classe médica, o artigo refere ainda os problemas relacionados, concluindo que (se bem me lembro) 20% dos respondentes da amostra (indivíduos em internato médico) admitiram que isso poderá ter tido repercussões na morte de um paciente...

Bom, que dizer dos turnos brutais que médicos e enfermeiros teimam em fazer nos hospitais portugueses? Bom para a carteira, bom quando não há que fazer e dá para uma soneca, mas e o tipo que chega partido às urgências, será que vai ter alguém apto para o remendar?

Na minha opinião, claramente, não.

24 horas de trabalho ininterrupto dará para ganhar uns trocos extra ao final do mês, mas em profissões em que recai a responsabilidade de manter a corda a bambolear sem partir, parece-me criminosa a manutenção deste sistema que, aliás, é usual por todo o mundo.

Então, qual a utilidade em manter o sistema? Parece-me que a utilidade amplamente responde aos interesses de todos:

. médicos e enfermeiros ganham trocos acrescidos e ainda podem dormitar entre emergências;

. administrações deixam de contratar mais gente para suprir falhas de pessoal deixando de gastar em segurança social e mais a catrefada de treta que paga por contratar;

. ordens e associações vêem alguns dos seus membros satisfeitos;

. o ministério deixa de gastar mais algum com financiamentos inusitados no poço da saúde e a diluir os prejuízos com a má prestação de cuidados na relação custo-benefício em saúde.
O único que perde é o tipo que poderá precisar de cuidados, mas esse, não conta nada, depois de uma queda e de umas quantas escoriações, um anestésico qualquer acalmará os berros para que o pessoal possa pôr o sono em dia e se não houver nenhuma pilula mágica, nada como 3 copos de whisky para lhe aclarar as ideias... mas sem gelo!

5.18.2010

ILGA, ELGA, MILGA e TAL: Eu Manifesto-me

Um dia depois da promolgação do casamento gay, inúmeras reacções têm feito manchete nos jornais.
Partidos congratulam-se, movimentos fazem luto, uns festejam enquanto outros desesperam, ao mesmo tempo que alguém tenta berrar em surdina:
"O Povo é Sereno, não se friccionem socialmente!"
Eu diria antes:
"O Povo é Manso, beijem-se e apalpem-se como puderem e se quiserem casem-se, mas muitas vezes! [para não explicitar ainda mais]"
É que, isto de discutir se alguém é igual ao outro, é de bocado de terra pequenino, charolo e insano, que se diz democrático e igualitário;
Isto de conversar e decidir sobre a possibilidade de alguém ter direitos é de tacanho povo que se deixa enganar pelo blá-blá-blá de um qualquer retórico;
Isto de alguém se insurgir contra qualquer coisa que não lhe diz respeito é de cochicheiro-bate-no-peito, beatedo de um raio, que anda em rebanho atrás de um qualquer pastor de quico na tola.
Por isso, força ILGA, ELGA, MILGA ou lá o que é!

4.12.2010

um quente cheiro a bolo

O bucólico monte verde pintalgado de branco sujo dominava a vista fria da manhã invernal em que o sol se havia afinal mostrado, enquanto o som cadente a chocalhos de ruminantes livres entoavam o canto do campo.
Teimavam na ladainha compassada só interrompida pelo abrupto badalar avisando da chegada do corpo de Graça.
O hálito gélido que queimava entranhas não abrandava na glacial igreja em que, em surdina, velhas megeras urdiam histórias pérfidas de uma vida de devaneios passados da defunta, entre arranques e lamentos de quando em vez aliviados por um rol de tossicares anciãos, em catadupa.
Graça andara de boca-em-boca desde que havia levantado a mão frente ao couro retesado que lhe toldara o lombo, anos a fio. Havia fugido, lambido as feridas profundas de um amor mal amanhado, e vivia agora, lorde de bairro, do seu trabalho ocasional de rodo em punho quando sobreveio a morte, sem interlúdios, no final de um qualquer dia de esfrega e piaçaba.
Ainda pairava o cheiro a bolo quente de chocolate novo quando arremeti pela cozinha logo interrompido pelo corpo hirto de tez suave pontilhado de uma solitária pinga de sangue.
O cheiro, o cheiro a bolo quente, acabado de cozinhar, havia sido testemunha e derradeiro refúgio solitário no chão frio em que exalou o último bafo seguro, sem explicações, só, quando premonizava uma vida de bolos feitos, esturricados, comidos, festejados, vividos.
O cheiro a quente bolo feito inundou a casa, escoltou o legista, acompanhou-a na longa estrada até à perdida aldeia e puxou saliva aos convivas nas exéquias, dissipando-se por fim no cortante vento que recebeu Graça no cemitério ao fundo do vale.
O silêncio sobrepôs-se ao frio universal e o quente cheiro a bolo, o fedor adocicado de bolo feito esfumou-se lentamente, acompanhando o arrastar peremptório da boa terra atirada sobre o feliz corpo de Graça.

5.03.2009

ossos de um quiosque vivo

- Sinto algo muito estranho, Balu... É como se os meus olhos ardessem. Nunca me tinha acontecido. Estarei doente?

- Não, Mogli. São lágrimas - disse Baguera-. Algo que nós nunca poderemos sentir, só os humanos...

E, deixando rolar aquele fogo dos seus olhos pelas faces, Mogli dirigiu-se à aldeia.

As lágrimas dos homens... as lágrimas dos homens... pensava enquanto debitava mecânico o final da história.

Também aquele fogo havia rolado de meus olhos, anos antes, quando finalmente degolara a culpa atribuída que me pesava a consciência.

Do choro nascera a raiva que, com o tempo, transformara-se em tristeza profunda. Foi-se suavizando até se tornar macia... intocável... indiferente...

Mas o peso da culpa que atribuía por décadas de silêncio incorruptível, avassalador, (in)transposto, matinha-se macerador, remoendo os ossos do quiosque vivo de miudezas que tanto custava a vender.

Tudo mudara quando, num insuspeito dia soalheiro de verão, as abandonadas palavras romperam, trôpegas, pelos lábios moribundos do insano culpado.

"Sinto algo estranho" pensei, no momento em que o fogo rolou pelas faces, em catadupa, tal o peso da libertação.

Tudo mudara! Da indiferença brotaram portuguesices sentimentais. Compaixão e piedade arrumaram o rancor e arrefeceram o fogo...

Mas apagá-lo, libertar das cinzas o quiosque em fogo vivo, não. Talvez o fim das suas miudezas possam aliviar o espaço, dedicando-o ao rescaldo de labaredas acesas noutras frentes.

A ressonância da culpa degolada, de quando em vez, volta, para lembrar que lá está, nunca debelada, sedosa ou indiferente.

Mantém-se enraivecida, mas escondida, pelo intercalar da memória em declínio.

3.10.2009

A improvável história de Dona Ana e sua rija fibra de bem-querer descomposto


“De que fibra és feita?” Havia sido a questão de abertura para a história que agora se conta, de boca em boca, no longínquo Castelo Rodrigo de ontem, da altura do gigante Salomão e sua viagem para lá dos Alpes.

Anos passados desde a última vez em que gentes insalubres da raia tinham apontado o dedo a belzebu em pele de mulher, agora volta o clérigo à carga, para culpar Dona Ana de rija fibra pelo seu bem-querer fértil que puxava homem.

Tudo havia começado pela falta de resposta de Dona Ana em confissão. O puro levita a havia condenado, no sermão periódico, a abraçar a pureza e renegar o pecado.

Dona Ana não havia respondido. Sem pressa, puxou-se para longe da fria abadia, entre olhares acusadores, para nunca mais voltar.

Alvo de amores desalinhados que em brasa punham o povoado, de sumptuosos odores à passagem, Dona Ana de rija fibra levantava ventos tempestuosos de desejo e de intempérie, que regavam a aldeia, mal à janela se punha.

“Vento demoníaco” sussurrava a invejosa gentalha por o mesmo não poder esconder. Ciciavam ao ver a improvável tez morena de sorriso suspenso pelo olhar profundo, que antevia segredos inomináveis e vontades saciadas de soslaio.

Gomo de lânguida tensão pulsante, gemia com seus amores de fortuna, sem receio pelo coscuvilhar que profetizava maleita rogada, botada pela pudica bambochata dominical.

Castas palavras a culpavam pelo único amor verdadeiro da cerca. Pela benquerença de si e do momento, pelo verdadeiro saciar de afectos precisos, pelo autêntico acariciar de si própria, pelo ultraje de brandir a sua liberdade de bicho, de mulher, de gente.

Angelicais orações a condenavam ao ardor do inferno, ao caldeirão tártaro, ao vil desprezo da expulsão, à irada crença de pecado, luxúria, gula e mais outros tantos, dos capitais.

Encantadoras beatas de coração partido pelo tresmalhar de uma alma, a exorcizam com o sotaina. No calor da lareira de casa, gemiam sós, abandonadas pelo acre cheiro mofado que as envolvia enquanto os sagrados consortes roncavam.

Dona Ana e seus anónimos bardanas, incólumes à zelotipia detonadora de ódios, libertam-se da frugal roupagem de preconceitos para se dedicarem à bestialidade, ao desejo, ao gemido, ao amor, deixando no passado a inveja insana do povo.

Escapula-se Dona Ana, do Castelo Rodrigo de má memória, para fazer do incerto sua morada segura, do fortuito forma de vida, da liberdade uma certeza.

Tempos funestos em sítio agreste, esse em que Dona Ana viveu, sem sequer um mísero quiosque seguro como abrigo.

12.23.2008

linda elísia e seus dois quiosques

Elísia de róseos dedos, qual aurora de outros tempos, desponta devagar para mais um derradeiro dia no mar de prisões que a libertam das grilhetas.

Fotografias centenárias chamam por ela, dia após dia, no soturno quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois dos anos idos em saurées e vestidos esvoaçantes, lilases e carmins, de decotes tentadores e olhares de soslaio.

Elísia de tez suave desiste do desabrochar, quer mais um minuto do sonho lindo de madame que insiste em aparecer, dia após dia, no melancólico quarto de vão de escada que lhe dá guarida, depois de décadas de ordens dadas e vontades satisfeitas, de vénias à sua passagem, de salamaleques pela sua presença, de anuências ao seu desejo.

Elísia perfumada de si mesma volta-se no cafre, espalhando o hálito quente do macilento lençol, que dia após dia é sua companhia de solidão, depois de minutos de fama, horas de glória e dias de júbilo pela sua existência, matriarca das gentes, criadora do céu e da terra, glória de todos os tempos, vontade de todos os homens.

Elísia de esguio pescoço, deixa-se cair na almofada granulosa, depois de tempos idos de vã glória, de mandar, de querer e receber.

Acorda linda Elísia! És livre agora - diz para si.

Acordou linda Elísia no seu casebre de vontades, desejos e quereres, no seu quiosque de verdade.
Acordou linda Elísia, livre do estigma e da vontade alheia.
Acordou linda Elísia com seus olhares enigmáticos e aterradores pela possibilidade de ver cá dentro, como nunca ninguém viu em todos os tempos paralelos.
Acordará linda Elísia, uma e outra vez, sem interrupções, livre, radiante e sonhadora. Renovará o acordar de todas as Elísias passadas, presentes e futuras até adormecer finalmente, embalada pelo relojoeiro universal.

10.01.2008

Luz verde para amar, no quiosque de D. Maria

"Luz verde para amar" anunciava o letreiro bamboleante, dando as boas vindas no quiosque de D. Maria.
Poucos havia que se lembravam de aí ter funcionado um mal amanhado cafofo que alentava o cliente sorridente, lânguido e ronronante nas noites da lua monumental.
D. Maria nem sabia sequer da existência desse pardieiro de desamores. Apenas manteve a sibilante ferraria por apreciar a permonição de mau tempo pelo guincho estridente do seu bambolear.
"Aí vem borrasca!" repetia vezes sem conta, sem exalar um som, à matrona tagarela que sempre parava o passo, pelas sete e trinta, antes de picar o ponto no matadouro do fundo da vila.
D. Maria de olhos cansados pelo acumular de rodopios da tabuleta ferrujenta e encavados pelo ar rarefeito que se respirava no mofado quiosque, era mítica (pensava) pela vermelhidão de suas bochechas, luzidias e cerosas, que faziam antever noites bem dormidas de celibato, sem apuros de razões nem mal refreadas pelejas corpo-a-corpo.
Nos infindos anos de solidão, do quiosque vazio fez morada, da casa-maldita-de-congosta lar, do beiral térreo pardieiro, do olhar tristonho máscara de todos os dias, da sua inexistência verdade.
Sonhos houve que a acordaram com suores gélidos pelo vazio de conteúdo. Sem passado nem futuro, sem mercadoria para comerciar, nem perspectiva dos dias depois de amanhã, mantinha uma estranha convivência consigo mesma, ora metralhando longas e profundas conversas com o horizonte, ora ensimesmada nos seus ingénuos olhares focados na mente.
D. Maria É gelo, É vida cortada, É sim e não, vontade sem braços, sexo sem orgasmo, verdade sem mentira, nem sabe sequer o que É.
Existe, claro, mas não deixa memória, de cabelos curtos e silhueta anafada, de sons interiores bem audíveis, olhares esperançosos mas bafientos, ninguém se lembra do timbre, do cheiro do seu hálito, da pronúncia dos seu "ais" ou da memória de seus dentes parcos.
Espera que a vida passe sem demasiada vontade, com vagar. Silencioso sopro de existência quer-se deixar ir para na próxima, de novo, tentar viver, D. Maria de boa memória.
17/05/2008

12.28.2007

sabores perdidos no quiosque quelimane

Nas fraldas do penedo de São João, em terras de demónios escondidos em gente de bem, o encerrado quiosque quelimane subsiste de fantasias e sonhos de volta ao passado de Arménio Jerónimo.
De tez calcinada por aventuras desmedidas e estórias fantásticas, o velho esquecido e solitário tornado à pacatez do berço deixa fugir, às 16.30 de todos os dias, antigas lendas e mitos de feitiços, caçadas e mezinhas que recria, teimosamente, na tasca do zé manel. Revê-se nos antigos sabores agressivos do whisky destilado em baldaria de segunda a que se havia habituado nas longas viagens pela planura dourada da savana sobrevoada.
Retornado do caldo bojudo e arisco nessas lonjuras da áfrica portuguesa, é uma ténue imagem de si: um colono improvável e autoritário que impunha posturas e eliminava sem mágoas todo a escaruma que lhe impedisse o passo.
Revoltado pelo fim do paraíso colonial de que se lembra ter vivido, é hoje um tocador de pífaro na filarmónica de Esbojães, para reviver, ao som da melodia cega, sons e cheiros que nunca mais sentiu, que espera renominar nos segundos finais, quando a vida esvoaçar em daguerriótipos escurecidos diante si.
Revolvido pelo presente impessoal e tacanho da aldeia natal que nunca foi de verdade sua, deixa à banda o bibaque azul, sentindo o que outrora fora o resguardo suado da brasa que por lá se impunha.
Relembrando o odor pestilento e viciante de sangue animal em terra virgem, deixa-se levar pela brisa outonal do fim de tarde silencioso nas montanhas musgo e ouro, quebradas pelo chilrear dos últimos sobreviventes do adormecer de Dezembro. Tenta inspirar o leve hálito que a terra humanizada ainda exala, lembrando a quem a agarra que ainda sobrevive a senhora do lago.
Sobrevive, enlutado e sem garra, teimando nas lembranças que ainda resistem aos lampejos de esquecimento cada vez mais frequentes, fazendo-o desesperar por menos um dia na balbúrdia da civilidade.
Arménio Jerónimo resiste, teimosamente, ao esquecimento lembrando a terra autêntica, original, sem mácula nem cultura que subsiste em fantasia. Lembra a remota áfrica nossa, onde a verdade humana é real, onde a vida circula ao som da natureza e não ao toque de caixa da humanidade. Onde tudo é autêntico, frio, cru, sedento de sanguíneas realidades e alvo de trastes humanos. Onde a natureza funciona, não como por cá, em que aldeias pitorescas, recalcadas de tantas outras, nunca deixarão memória de si. Serão nada, serão vazio, serão uma côdea mal amada, uma terra de ninguém.
Arménio Jerónimo fantasia, interioriza, enlouquece e morre, por dentro e por fora, deixando a saudade voar pelas imagens dos últimos baques.

12.07.2007

do quiosque salamano

O velho parasita deixa-se levar pela revoada intransigente que o conduz estrada abaixo, para os confins da aldeia obscura em que habita há setenta e tal anos.

Periclitante, arrasta-se entre pedras talhadas ao acaso da marreta, que limitam a congosta húmida e fria, calçada com granito persistente e escorregadio pelo uso.

O frio aperta, gela o nariz enquanto o bafo não o conforta. Deixa um leve ardor no respirar e deixa exalar um hálito fumegante que rápido se dissipa na folhagem despenteada que surge, mal Remoinhos termina.

O velho estafermo continua sem rumo na bruma que se põe e que o impede de ver o destino. Décadas depois de ter sido parido nessas paragens, "no mato, por entre feras e demónios", como tinha ouvido vezes sem conta a sua parideira ressentida, caminha para a morte, depois de atazanar a aldeia com as suas devassidões de mastro à mostra e de fornicações animalescas.

“Puta que pariu o velho!” Era a frase que andava de boca em boca nos últimos 15 anos, desde que caiu da cadeira em que se apoiava para aviar a égua. Desde lá, só o cajado lhe permite deambular, sem rumo e sem amor, pelas ruelas frígidas desse asilo de velhos que esperam a morte, na serra vazia.

“Que o diabo o carregue para de onde veio”, ouviu sair do quiosque Salamano, antes de se perder no caralho do nevoeiro.

“Que o diabo vos carregue comigo, cabrões lambe-cus!” disse nostálgico antes de se perder no manto branco.

6.22.2007

o domínio do delírio e da alucinação

Sinto em mim, neste momento, qualquer coisa de estranho, de perturbante...

A fantasia sobre alto, a regiões inacessíveis, em cavalgaduras valquirianas, para além das nuvens, a perder-se na penumbra do infinito. Vou seguindo, involuntariamente, trajectórias que não obedecem a regras ou traçados. As luzes do bom senso começam a extinguir-se.

Não ouvem? Não sentem o estropear dos ginetes, o guizalhar dos truões, as gargalhadas dos bobos, as arruaças dos estriões, o ruído das matracas, o grito estridente das trombetas, um clamor jazebândico de agressivos sons?


É o cortejo que surge!


Fez-se silêncio.

Não vêem? Abrem alas. Todos se dobram reverentes. Sobre tapeçarias de bizarras cores, avança a passos resolutos, na indumentária de cerimónia do advento do século de Quinhentos, uma dama altiva, de vestido branco, longas mangas perdidas, gola cingida sobre encaixe agaloado, capacete bordado a pérolas...


É sua Majestade a Loucura!


A fanfarra e o séquito debandaram...


Apenas a acompanha um homem baixo, cuja fisionomia me não é estranha, sem a sua gorra escura, nem a sua face vincada de traços firmes e vigoroso. Fitam-me, de relance, os seus olhos azuis que lembram oriem nortenha. Oculta-se atrás da figura esbelta da dama que avança. Pede atenção. A Loucura vai falar.

In Moniz, Egas (1948). O Domínio do Delírio e da Alucinação. Centenário do Hospital Miguel Bombarda - Antigo Hospital de Rilhafoles (1848-1948). p. 233.

6.20.2007

fast facts


A Troubled Beginning
Photograph by Karen Kasmauski

Just minutes old, a baby in Bangladesh faces an uncertain future. With a low birth weight by international standards—less than 2,500 grams, or about five and a half pounds (2.5 kilograms)— this baby is much more likely to get sick and to succumb to disease than a newborn of normal size. More than 50 percent of babies in Bangladesh start out underweight.

In National Geographic

6.12.2007

majulah singapura

Minúsculos e impotentes, deambulam sem rumo nas ruas oprimidas pelos altos prédios que impedem a brasa de crepitar na pele.

Assim acontece desde os saudosos tempos de Thomas Raffles, quando cá aportou para colonizar, domar e modernizar esses marginais bárbaros que impediam a ordem e o progresso.

Quase 200 anos depois Ramanathan rege com o mesmo perfil: domar, modernizar e colonizar a economia mundial, tentando impor alguma ordem no fernesim de gente ensimesmada que, tóxica, impede o olhar desviado daquele insano transeunte que insiste em mandriar.

Raios e metal colidem estridentes no turbilhão de sons partilhados pela maralha incógnita. É um barulho implacável o que se ouve a milhares de quilómetros e que dá à cidade uma áurea de insalubridade deprimente.

As entranhas revoltam-se com o manjar disponível em uma qualquer banca do comércio tradicional. Farfalhos e arranques impedem de saborear os viscerais petiscos a que temos acesso.

Nada distrai o estômago da entoação acre, da fragrância oleosa das iguarias exóticas que saúdam o viandante ingénuo nas artérias abismais, seguindo o rebanho atarefado rumo ao conforto da cadeira laboral.

É um mundo paralelo o do comum singapuriano, lançador profissional de rojões crepitantes em alturas do Deepavali.

É uma vida modernizada, colonizada e domada a do incógnito malaio que por cá sobrevive.

É uma existência ensurdecedora, alietória, impessoal, intransigente e categoricamente descompensada, a da Singapura global em que habitámos.

5.31.2007

pontos em andamento

Pontos imensos, multidimensionais sobrepõe-se coloridos para formar a paisagem fluvial que faz gesticular o banheiro ao chamar pelos pequenos reguilas saltitantes, do alto tronco ao azul celeste.

São fontes de luz que se aglutinam para criar a realidade, não paisagem mas cena de género. Esvai-se ao fechar as pálpebras sonolentas, iniciando a viagem nessa corrente de luz que cedo chegará à funda catarata criando o feixe enclausurado no negro fio.

O lume sem sombra rodopia, qual bola de fogo, em amena brisa que nos embala ao som do silêncio zumbidor. Espera a faísca cortante para impelir ao pensamento.

Constrói vontades indesejáveis. Electrocutado, torna-se elementos criador, concebe e deixa nascer a vontade de construir.

É a verdade indesejável do tom azul que à casa torna após a longa viagem rumo ao lar. Água e luz, pedra e cal alimentam-se a si mesmos para se criarem de novo. Não nascem, parem-se uma e outra vez, já dizia Leão XII.

2.28.2007

...

E digo-vos que a vida é de facto obscuridade
Excepto onde há arrebatamento,
E todo o arrebatamento é cego excepto onde há saber,
E todo o saber é vão excepto onde há trabalho
E todo o trabalho é vazio excepto onde há amor.

E o que é trabalhar com amor?
É pôr em todas as coisas que fazeis
Um sopre do vosso espírito.

Khalil Gibran

2.21.2007

espaços suspensos

Espaços!

Espaços reais, visíveis, são todos aqueles que a retina alcança.

Todos os outros, aqueles que nunca revelámos também o são. Aliás, são-no ainda com mais força, nunca visualizados e por vezes incompreendidos, são abstracções formadas por conceitos vagos que se vão transfigurando num universo sensível ao toque e ao pensamento.

Livres são esses hologramas.

Verídicos!? Com certeza ou sem ela existem pela qualidade real que encerram e pelas infindas possibilidades de montagem que propiciam. Ora fixos, ora amovíveis, são estas as verdadeiras celas que nos encerram, que nos enclausuram.

Sem darmos por isso absorvem o intelecto para dele sobreviverem. Os espaços ilusórios são assim, parasitas insaciáveis que se alimentam do olhar para acrescentarem mais uma vida ao espaço suspenso. Deixam-nos vegetar no leito X da camarata global.

São imperativos e autoritários, escorregadios e incompreensíveis, desconhecidos e irreconhecíveis. Bebem do real para crescer até ao infinito.

Dão-nos a volta. Fazem de nós o que querem. Às vezes dão-nos pistas da sua existência mas logo as apagam para que o seu crescimento seja contínuo e imparável.

Propiciam-nos uma visão a cores da existência para a consideramos autêntica, una, mas constantemente mutável pela sua força.

Espaços e qualidades provadas deixam de ser as que conseguimos compreender, passam a ser virtuais, ilusórias.

Sofrónia, nome irreal que me parece ter sido um dos que alguma vez foi mencionado, deixa pensar, reflectir, julgar, avaliar, mas desaparece mal prenunciam o seu nome.

2.02.2007

"O acto sexual é para ter filhos" dizia o Morgado...

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.


Natália Correia - 3 de Abril de 1982

12.26.2006

leituras

Em tempos de acalmia nada como uma viagem com Corto, por entre canais e pontes escusas, rumo a vielas perdidas de um labirinto sem fim...

12.14.2006

espaços verdadeiros

Radiante ar o que rodeia aquele espaço idílico em que tudo é verdejante e bucólico, habitação do vitorioso soldado desconhecido.

De belas formas, esvoaça de vestes transparentes que fazem perceber lânguidos movimentos sugestivos. Vitorioso mas cego, antes acéfalo, deixa-se admirar pelo idólatra anónimo sem lhe cobrar o olhar.

Com ele segue a verdade, esse figurino dúbio que se acosta à vida, mas cujo vislumbre limitado é apenas apanágio dos que a levam, sempre com imaculada ironia. De facto, não difere da mentira, experimentada no que se não tem e tantas vezes no que se conta.

A descrição fantasiosa do real não é mais do que o irreal verdadeiro ou o autêntico falseado. Daqui resulta o poder da visão e de ela reconhecer na verdade, a certeza ou a ambiguidade, nunca confirmando as formas para lá dos panejamentos.

Assim é Olívia, essa cidade fantástica em que tudo parece ser e nada é, realmente, como soía.

12.11.2006

colores me gustan a mí


Descentrado revivo num limbo de suspiro e inquietação, ora porque tudo está bem, ora porque algo de diferente se passa no cosmos novo e desconhecido da duplicidade.

Já não sou o que sou, sou o que se é, não fosse ser o mesmo depois de me transfigurar num pequenito ser que vasculha o olhar alheio à procura de respostas, no estranho mundo das pequenas coisas.

50 centímetros e meio depois, revejo-me em sons e gestos que em nada se repetem, mas que pobre imprudente, reverto em sinais de um tempo em que já o fomos também.

É isto, um constante nó na garganta, uma permanente lembrança, um incessante cuidar e um desassossegado marinar horizontal, à espera do próximo titubear encarniçado, não vá o joão-pestana pegar.

11.20.2006

Maria João a Preto e Branco


Qual Sebastianista, Maria João surge da penumbra para mostrar-se ao mundo!

Sem querer ser parcial, é bem bonita a petiz, com aquelas bochechitas arredondadas... a quem sairá!?

Cenas de uma crónica há muito iniciada, mas só agora vislumbrada...

11.01.2006

novas do passado

A não perder a reportagem Menina de Dikika, este mês na National Geographic Magazine.

Viveu há cerca de 3.3 milhões de anos no território que é hoje a Etiópia. Os seus ossos fossilizados fornecem pistas valiosas sobre uma fase decisiva da evolução dos hominídeos.

Texto de C. Sloan
Fotografia de K. Garrett

10.23.2006

Q...Q..CO.....COOFF!!!

.... a espinha saiu... intento em regressar já já!

Al alba vincero!

10.16.2006

quando o tempo passa

Quando crescemos, raras vezes damo-nos conta dos anos passarem.
Só quando um acontecimento nos chama à razão, reparámos que já não somos quem éramos, não temos a mesma idade. Somos diferentes, esquecemo-nos dos laivos do passado para os ocupar com a celeuma do presente.
Passam os dias sem nos darmos conta da tal metamorfose.
Os problemas, questões, dúvidas, vão-se esfumando no tempo, à medida que ele continua o seu passo incessante.
Estranho como, por vezes, somos chamados à razão. Uma bofetada de tempo leva-nos a pensar no passado, no que fomos e como somos diferentes.
Talvez seja este o momento da passagem, aquela que tantos receios causam ao comum do mortal: o e-n-v-e-l-h-e-c-i-m-e-n-t-o.
Agora sou diferente. Mais enrugado pelas tormentas e ponderador pela força das vidas passadas, enfrento uma verdade: caminho apressado para a velhice.
Hoje aconteceu o inevitável: fui abalroado pelo peso da idade quando uma mulher disparou a pergunta fatídica: Não foi meu professor no 7.º ano?

A minha cara de pânico parece ter causado mossa, pois replicou um penso, como se quisesse desculpar a pergunta pelo facto de EU estar VELHO e de me fazer descer ao meu lugar.

Parece-me ter-lhe ouvido um sussurro: Pega na bengala oh velhinho! Mas, estranheza dos diabos, a sua presença continuava à espera que lhe dissesse algo sem movimentar um músculo. Replicou depois, qual ventríloquo: A reumática é fodida ah!?

Depois de cerrar os dentes e descobrir a máscara de ferro, com a carquilha à mostra, rosnei: Realmente a sua cara não me era estranha! Enquanto pensava numa chusma de palavras vis para lhe atirar.
Nada mais digno saiu que não frases de circunstância.
Faço então o anuncio público da minha passagem para a outra banda, antes dos intas e dos entas, pareço uma velha alcaparra ao sol.
O período da dor de costas, das insónias, do trabalho desenfreado e da terrífica, da monstruosa estabilidade parecem estar a chegar.

Penso regressar, menos rabugento, dentro de 37 anos.
Entretanto, ature-me quem conseguir!


9.27.2006

sem sal, se fizer o obséquio

de mãos nos bolsos vazios e sem lumes, assim se vai andando, sem tempo, no mundo do tudo cheio de não ter nada que fazer!

sem títulos, sem fala, sem brinco, não se está assim, por cá.

sem maiúsculas e sem pressas, sem nada que dizer, porque perdeu-se a fala na frase anterior, nada se faz, sem se sussurrar um suspiro, símbolo da surdez dos homens.

isto tudo para dizer que a letra "S" sibila e sustém uma posta sem nexo.

9.18.2006

chinesices

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada!

Não peças, não faças isso! Para além de te fazer mal ao miolo, como se pode notar, podem não ter e então é que é, ficas como o tipo que fuma mas não tem lume, qual piada homofóbica de baixa densidade.... Tu vê lá.... não caias na tentação!

- Tem lumes?

- NÃO!

Eu bem te disse! E agora, o que será de ti!? Ah, que vais fazer agora que nem lumes nem amor próprio tens!? Pois é, nunca tenho razão, mas lá está, no final sou eu quem paga as favas! Pelo menos, podias comprar um esqueiro, não caías nas más línguas...!

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada! Ao menos não gastas dinheiro num esqueiro que nem para 1534 cigarros dá!

- Vende esqueiros!?

- Sim! Quale quele!?

- O do Porto!

clinc, clinc, clinc!

- Funciona pelfeitamente!

- Obrigado, quanto é?

- 75 cêntimos pole favole!

- Cá está, boa tarde!

- Obligado e volte semple!

clinc, clinc, clonnncc!

Pede lumes.... pede lumes!! Vá lá, não custa nada!

Não peças, não faças isso! Deixa de fumar... isto foi um sinal divino! A gastar 75 cênt. por cigarro, acabas na miséria e depo........

9.13.2006

abertura de hostilidades

Depois de tempos infindos e malabarísticos em que o passado, o presente, a realidade e a perfídia se misturam numa estranha corrente de vida alheia e própria, novas notas sem interesse brotarão da mente decrépita daquele transeunte anónimo que deambula pelas ruas de uma qualquer Edina.

Já se cruzou contigo, já viveu vidas transviadas e infundadas, já podia ter sido, mas não foi, podia não ser, mas é!

É a mente borbulhante que gira por entre realidades difíceis de digerir.

É a vontade insana de continuar vivo na multidão.

É a vida alheia condensada numa só palavra.

É querer dizer o que não se quer e calar quando se não deve.

É ser verdadeiro na improvável veracidade do momento.

É rai's partam os feixes de energia!

É .... é... é....

É só para dizer que estou de volta....

8.12.2006

Vidas cruzadas

Sentir o torresmo áspero e estival dos caminhos lusos, implica o impacto visual nas matrículas amarelas dos filhos pródigos que a casa tornam.

As festas pululam o interior um pouco por todo o lado, mas o êxodo ruma a sul, ao calor blasfemo algarvio, rumo a mais uma praia congestionada da bela costa.

Que belo exemplo de multiculturalismo se manifesta, por entre pronúncias sibilantes e rústicas, lá sai um vacances aqui, um d'habitud ali e que musical mescla se cria entre o português vernáculo e o francês rebolado, quando se ouve um "Miguel vien pour la barracá, le soleil le queime!"

Ahhhh que bela e bonita a feliz ignorância do pequenismo envergonhado em que vivemos.... lá está, são essas certas e determinadas coisas inexplicáveis!

7.21.2006

teorias (in)fundamentadas


O consumo excessivo de álcool, como todos sabemos, destrói os neurónios, mas naturalmente ataca primeiro os neurónios mais lentos e fracos.

Neste sentido, o consumo regular de cerveja elimina os neurónios mais fracos, tornando o cérebro uma máquina mais rápida e eficiente.

O resultado deste profundo estudo neurológico verifica e confirma a relação causal entre as borgas de fim de semana e o rendimento dos economistas, consultores, matemáticos, engenheiros, advogados, políticos, etc.

De igual modo explica o sucedido poucos anos depois de acabado o curso e contraído matrimónio, a maioria dos profissionais não conseguem manter os níveis de rendimento dos recém saídos das universidades.

Só os poucos que mantêm o estrito regime de voraz consumo alcoólico conseguem manter os níveis intelectuais que alcançaram durante os anos em que eram estudantes universitários.

É uma chamada às armas!!!

Enquanto o país está a perder o seu potencial intelectual nós não podemos ficar em casa sem fazer nada!!

Vamos para as tascas!!

Ocupemos os bares!!!

Vamos beber litros e litros!

O teu governo, a tua empresa e o teu país necessitam que estejas no teu melhor, sem limites para o teu potencial criativo e intelectual.

Corta as tuas amarras e dá o litro!!!

Contamos contigo!

Recebi por mail de J.P.Miranda

7.14.2006

pensamentos transviados xix

Ao invés de certos animais, o homem só se reproduz em cativeiro.

GARÇÃO, Pedro Mayer (1972). Esculápio diz o que pensa. 2.ª ed. Lisboa: s.ed. p. 51.

7.11.2006

7.05.2006

prisões douradas

Deambular pelas expressões e sentidos implica deixarmos sempre um pouco de nós. Mesmo quando tentamos ser imparciais ou isentos, sempre fica a réstia de um contexto imbuído de valores (a)morais que nos impelem a sermos ora condescendentes, ora titânicos.

Esta é a essência humana como a vejo, quando chamada a tomar partido ou a revelar opinião social. Mas será que isso mesmo interessa!? Será que a opinião quanto a factos é, de facto, factual e fundamental para a manutenção do vegetar civilizacional em que nos encontramos!?

Ter, dar, manter um diálogo e uma opinião formada parece ser a base da coexistência. De facto ela não é mais do que limitadora do livre arbítrio verbal que, quando atingido, reflecte a verdadeira essência do caos mental com que lutamos todos os dias.

Ideias, notícias, verdades e conceitos, entrecruzam-se mediadas por descargas de energia que visam manter a ordem. Como se de uma prisão se tratasse, esses feixes impõe uma regra, mantendo a lucidez e a clarividência, apenas ultrapassados em momentos extremos.

Esse caos mental por vezes alcançado, é dúbio: se libertador das correntes sociais, prognostica o pânico, carcereiro da visão plena e livre.

Apesar de sensitivos e pensantes, somos prisioneiros de nós mesmos – do nosso contexto e da nossa verdade.
Temos vontade de ver, vontade de ser, vontade de sentir, mas esquecemo-nos de viver, sem rodeios, o presente.

6.21.2006

memórias partilhadas pela avó

A memória tem destas coisas, a inata vontade de se extravasar sem querer que os segredos inauditos do seu portador sejam partilhados.

Quando vividos flúem sem se aperceber que estão a ser absorvidos por outros, atentos à vontade alheia.

Assim acontece com a avó Micas de que já mencionei a chegada.

De tez carregada e hálito quente, deixa transpirar pequenas gotas que reanimam tempos idos, anos em que os passos ecoavam nas noites solitárias da gélida aldeia que a viu desabrochar.

Por lá, essa tal Macondo escondida, as festas eram em honra de são joão, épocas de folia e de libertinagem.

Porém, para ela, nem sempre foi assim.

Tempos houve em que se escondia entre lençóis incógnitos, amedrontada com a parafernália de sons retumbantes sem fim e com essa estranha visão de luzes incandescentes que teimavam em surgir vindas do nada.

Para aliviar o seu fado vagabundeante e mal quisto pela populaça, deixava-se levar pela mão suave que reconfortava as suas lágrimas escusas.

As festas não são para todos, são para aqueles que têm a quem deitar a mão, dizia, enquanto trejeitos forçados impediam o pingo de verter.

Nada mais saiu senão olhares vagos e miares imperceptíveis enquanto movimentos incontrolados franzem a bochecha casquilha e ternurenta, aqui ao lado.

6.16.2006

pensamentos fundamentados

Na sociedade cibernética, a função principal do ensino passa pela compreensão e relação de dados, em detrimento do processo de ensino vertical que tantas vezes ainda subsiste. A docência no âmbito da inteligência colectiva, tem como fundamento o acompanhamento e a gestão de aprendizagens, permitindo a troca de saberes através da mediação relacional e simbólica.

Do e-business e e-commerce, ou seja, da virtualização das empresas e serviços, passou-se, já ontem, para o e-knowledge, ou seja, para a virtualização do conhecimento, bem patente nas redes científicas e culturais que dão, já, largos passos com sucesso, possibilitando a adequação das necessidades laborais às competências formativas adquiridas.

O ciberespaço, pela sua abrangência e actualidade poderá ajudar a colmatar esta dificuldade de interrelação entre conhecimentos e necessidades do mercado, pelo que a gestão de competências (AdC) em ambiente digital surge como uma potencialidade de balanceamento entre oferta e procura.
A não perder:
LÉVY, Pierre (2000). Cibercultura. Lisboa: Piaget, 181-198.

6.09.2006

alegorias cavernosas

Um dia Mimi acordou e viu que tudo o que havia defendido até aí tinha-se desvanecido. Valores e conceitos mantiveram-se, agarrados ao medo de mudar, mas o mundo era outro, um que desconhecia e que se tinha adaptado a novas ideias e novas formas de convivência.

Esse mesmo, mais democrático, permitia fazer o que se quisesse da própria vida. Nessa manhã, Mimi, infeliz, viu um mundo que desconhecia. Viu uma verdade inegável mas que ela não compreendia.


Nesse manhã morreu Mimi, nasceu Micas Coxa, a avó de toda a humanidade.

5.29.2006

Nomes inusitados

Porto, anos 50, gentes fluíam pelas ruas movimentadas da baixa, guardando, em si, nomes insondáveis, aqui alumiados por essa mesma lâmpada de tungsténio que me dá vida.

Todos originais, fazem parte de um livro de termos de onde retirei esta lista impar de nomes inusitados.

Para vocês, cá vai o top 25 das anónimas celebridades que aqui alcançam a imortalidade.

Gemialde Celeste E.
Hortênsia M.
Leontina S.
Zina B.
Bernardette A.
Maria Georgette B.
Quitéria R.
Zulmira C.
Arlette C.
Ortelinda O.
Azuil G.
Claudemiro T.
Porcina F.
Aldegundes L.
Filinto C.
Balbina G.
Isolete Laura S.
Bertila S.
Judia Morena F.
José Isménio J.
Dorinda S.
Benilde S.
Georgette S.
Leopoldina M.

5.19.2006

Confidências de um transeunte

As representações sociais envolvem-nos sem sequer darmos por isso.

Gente há que nos julga pela aparência, pela profissão, pela atitude ou simplesmente pela sugestão de passados vividos.

No mundo das ilusões, somos confundidos pelo que fazemos. E é ver gente entrar e sair a cochichar pela estranha indumentária que usamos ou pela cordialidade com que tratamos o transeunte anónimo.

Se somos simpáticos, ouvimos, à saída, um piropo sobre a nossa postura descontraída. Se rimos e mostramos empatia pelas dificuldades alheias, somos bafejados pelo estranho aroma do desabafo pessoal.

Toda a gente gosta de ser ouvida, adora que se lhe preste atenção. Porém, um pouco de q.b. é fundamental para que não nos tomem como fonte dos desejos e nos transformem em conselheiros matrimoniais.

Pela idade, também percebemos diferentes métodos de análise psicológica do eu escondido.

Novatos, extasiados por verem alguém diferente no lugar do morto-vivo, dão risadinhas intrigantes e irrequietas enquanto tentam manter uma postura o mais séria possível.

Trintões, tentam uma abordagem cool, não querem dar parte de fraco diante de um igual, tratam-nos pelo nome e entram com uma ou outra palavra mais informal para desanuviar o ambiente.

Entradotes, admirados com a laroquice do receptor, ficam na ponte das palavras, entre um seu e um teu, apalpando terreno enquanto esperam pela resposta, para depois replicar à altura.

E nisto tudo, ninguém conhece o ser por detrás da faceta.

- Gostava de ser assim, sempre com um sorriso sincero...

Mas que raio, conhecem assim tão bem o outro para o dizer de ânimo leve?

Quem sabe se por trás do sorriso não está outro qualquer abestalhado que espera a oportunidade para sorver mais uma ou outra inconfidência?

É que, por detrás da máscara trivial, sou um coleccionador de sonhos, não alheios, mas próprios.

5.18.2006

5.10.2006

pensamentos transviados xviii

Cuidado com as ideais boas e novas! É que as boas normalmente não são novas e as novas normalmente não são boas...

Anónimo

5.08.2006

Floresta do degredo

Um coelho corria pela floresta quando viu uma girafa a acender um charro:

- Óh girafa! Pára de fumar essa cena que te faz mal e vamos correr pela floresta!
Vais ver como te vais sentir muito melhor!!!

A girafa pensa e responde:

- Tens razão, coelho, bora nessa!

Assim, deixou o charro e foi correr com o coelho.

Mais à frente encontram um urso a cheirar cola.

Olham-se e o coelho replica:

- Óh urso, deixa essa merda! Essa treta só te faz mal, vem mas é
correr connosco e sentir o ar puro dentro dos teus pulmões!

De um salto, o urso junta-se aos dois, até que encontram um elefante a snifar cocaína.

- Óh elefante, estás maluco! Dás cabo de ti com essas merdas! Vem connosco correr pela floresta!

O elefante pensa um pouco e resolve juntar-se ao grupo, que metros à frente encontra o leão a injectar heroína.

Mais uma vez, o nosso amigo coelho pára-o dizendo:

- Óh leão, deixa-te de merdas e vem correr...

Ainda falava quando leva uma patada do leão que o põe KO.

Os outros animais revoltados perguntaram:

- Estás maluco? Por que fizeste isso? O rapaz a cuidar da nossa saúde e é assim que se trata o pobre coelho?

O leão, magânimo replica:

- Sempre que o cabrão do coelho toma ecstasy, faz-me correr feito um idiota pela floresta !!!


Enviado por e-mail por JPMiranda

5.04.2006

Novas do passado

Em pleno século XVI, Antonio de Mendoza, nomeado 1º vice-rei da Nova Espanha (1535-1550), envia para a corte de Carlos V uma descrição da história e sociedade dos povos nativos do México, designado por Codex Mendoza (c. 1541).

Este documento ilustrado, guardado na Bodleian Library em Oxford, traça os usos e costumes dos Aztecas desde o estabelecimento de Tenochtitlan, c. 1325, até às conquistas bárbaras de Córtez (1519-21), passando pela formação da Tripla Aliança Azteca.

Combinando grafismo autóctone com escrita latina, foi elaborado por nativos sob a direcção de anónimos frades, com o aval do bispo do México - Juan de Zumárraga. Relata aspectos quotidianos da sociedade mexicana, incluindo dados políticos, militares, etnográficos, dando uma imagem global do dia-a-dia dos indígenas.

Dividido em três partes, o manuscrito é considerada a pedra de roseta da civilização Azteca.

4.30.2006

Raise bitch, a new age has began!

Norma de conduta social, moralidade repartida, fervorosa fé. Definições redutoras e, para mentes menos zelosas, desactualizadas desse maço encadernado definido por bíblia.

Novos tempos, vontades diversas, nova norma, exige uma reestruturação do livro para que as massas o possam entender, vede como:

Reescrever o manual de procedimentos requer paciência e vontades inusitadas de que apenas algumas formulações mediáticas são detentoras. O 4º canal da TV da Árvore dos Estapafúrdios tem tudo isso: casos de vida, ensinamentos sexuados, moralidade desviante e até algo de sadomaso rosa choque, que alcança shares de fazer inveja ao tipo dos pregões aos peixes.

Pois então, palavra puxa palavra e a ideia surgiu: nova era digital merece outro livro de cabeceira, formato actualizado, pentateuco desconstruído, salmos hard core e evangelhos recauchutados, para uma melhor leitura. Proponho, até, uma formulação em rima simples, para facilitar a compreensão de rapers e afins.

Por isso exorto à criação, levantai-vos e abraçai a causa, uma Nova Era começou!

Begone and create a new square book, were people can see the suffering and feel the pain, eating pop corns and drinking cola in the chesterfield!

For me, a bottle of rum will be fine, bitch!
ideia: miguel s
3ª de mão : kiko
criador da expressão bitch: cavaleiro dos nimbelunguen

4.26.2006

32 anos depois

A revolução saiu à rua, exigiu direitos e deveres igualitários, verteu lágrimas de alegria por ver-se sobrepor à tirania e desvaneceu lentamente enterrada num qualquer sofá, de comando na mão.

O sonho esvoaçou entre iguais, tentando sobreviver contra vontades inauditas e escusas. É a sede de poder, o conformismo do sonho fácil, a competitividade, o motivo pelo desvanecer de uma fantasia.

Era um sonho de vida, colectivo, imberbe e incapaz de calculismo político. Era um devaneio de futuro, prognosticando a força da voz e o poder das massas. Era uma quimera de felicidade, pensando no bem comum e na possibilidade de igualdade. Era uma ilusão verbalizada, clamada, carpida, por tudo o que tinha ficado por dizer.

É um sonho adiado, individual, introspectivo e confortável, incapaz de manifestar a discórdia e a divergência. É um devaneio sem futuro, prognosticando o vazio social, a manipulação das gentes, o poder da retórica sobre a verdade. É uma quimera silenciosa, sibilante e esquiva, sem capacidade para se fortalecer, minada à partida.

O poder do sofá é avassalador. O crédito permite mais um upgrade à parafernália de maquinaria que nos torna mais sedentários e inertes sociais.

Temos outra vez o pão e o circo, o fado e o futebol. Tudo para nos fazer viver uma realidade perpendicular à verídica, sem precisarmos de nos alterar.

Temos a mordaça, temos a censura, temos a mesquinha inércia.

Temos tudo o que sonhamos, tudo roda à volta do poder do povo, faccioso e maleável, ao sabor dos dotes do orador e do grupinho politizado a que pertence.

Temos tudo, uma vida de sonho, irreal, paradisíaca, etérea e acomodada, vazia de conteúdo e de palavras.
Temos tudo, idealizamos uma realidade igualitária... mas vivemos um pesadelo manipulador.
Temos tudo, menos o sonho.

4.24.2006

Meia branca

A bela meia branca é uma instituição em Portugal.

É ver o lindo sapatinho negro, de pala, com a meia de desporto a reluzir por entre o vinco impecável da calça de fazenda.

Era esta a minha visão da mítica luva ortopédica vulgo pé de gesso até que deparei com o contrário:

Bela tarde de sol, na sua zundap, vejo o zé povinho com a sua calça rosa coçado e meia preta!

Ora, com o seu blazer branco e calça rosada, nada melhor que uma meia branca a combinar com o blazer, já o preto destoa.

Lá está nem toda a meia branca ofusca, nem toda a preta reluz!

Não é um provérbio lituano, mas serve para o gasto!