8.21.2012

coisas perturbadoras de ler

Perturbador. Foi a palavra que encontrei para descrever "Jerusalém" de Gonçalo M. Tavares.
Numa escrita tipicamente europeia, algo cinzenta, quase preta, é um livro delicioso, de um rigor científico tanto na complexa rede de relações entre as personagens, quanto no enredo que se vai revelando ao longo da(s) história(s).
A edição é da Caminho que, no entanto, não faz jus à qualidade do conteúdo. Nota-se laxismo na composição, demonstrada tanto na rudeza do desenho, quanto no relaxe da paginação. De facto percebe-se alguma incompreensão por parte do editor em encontrar o melhor empacotamento para uma obra de grande carácter.
Se o conceito “livros pretos” é perfeito, a forma como o livro (o embrulho, não o conteúdo) é construído, é rudimentar, incomparável com composições como de “O Corvo” (sobre o qual postarei em breve) da Relógio d´Água ou como os volumes da coleção Clássicos da Cotovia.
A sua sucessiva reedição sustenta-se, quanto a mim , numa força de vendas maior, a da qualidade da escrita e da pujança do enredo.

Obrigatório passar os olhos.

8.17.2012

coisas de ler

"Recomendo-o sem qualquer tipo de reserva" lê-se em blogs e comentários de quem, como o quioske, rumina literatura de vez em quando.
O livro "Quando Lisboa Tremeu" de Domingos Amaral é bom exemplo de leitura de Verão, despreocupada. Porém, não me convence.
Não que eu tenha os pruridos intelectuais de uma decadente elite literária portuguesa. Nem que considere o romance histórico uma novela barata da TVI. Na realidade gosto muito do género e, quando com qualidade, é uma excelente forma de exercitar o desprendimento temporal e de contexto.
De facto, o livro apresenta bom enredo, boa articulação das personagens e uma envolvência algo aliciante de desespero, morte e sexo, sempre ao bom gosto "sangue, pão e circo" de que todos gostam.
A obra em torno do terramoto de Lisboa de 1755 e dos dias que o sucederam é uma obra algo interessante, com um final razoavelmente bom, mas, quanto a mim, mal construído.
Na realidade, apresenta-se repetitivo (talhava-lhe 5 ou 6 cadernos) na catadupa de eventos em torno de dois fugitivos do Limoeiro, de um rapaz órfão e de uma freira algo devassa condenada à fogueira. Apresenta alguns factos secundários interessantes, caracterizadores da época, mas a circularidade da ligação entre personagens, a limitação do espaço (a cidade de Lisboa) e a continuada repetição das descrições, tornam o livro maçador, como se estivéssemos a ler o mesmo vezes sem conta.
O final, relativamente inesperado, apesar de clássico, difere-o de romances históricos francamente fracos que já comentamos (p.e. A Estratégia do Bobo), mas não deixa de ser exagerada a reiterada repetição, como se, à falta de dados novos, fossem necessários exercícios gramaticais para prolongar o que já foi dito, páginas atrás.
Vale o preço que apresenta na edição de bolso, não é mau, mas a força do título merecia igual força do miolo.

8.10.2012

quiosque patrício

Patrício é um filho da puta. Não daqueles cabrõezinhos que dão a facada na primeira ocasião para fazer dinheiro. Não. Também não o é pela sua santa mãe que o alimentou, desde tenra idade, com dinheiros amassados à custa do corpo. Não.
É antes um filho da puta amoral. Um daqueles que pesa os escrúpulos quando à frente se colocam valores instituídos, mas que os quebra à primeira oportunidade. O seu quiosque de 1 por 1 reflete-o. É Patrício espelhado.
Único aberto até altas horas, é um quiosque noctívago, isto é, abre de noite, fecha de dia. Não pelas vendas aumentarem, longe disso, nem para poder fugir às rusgas legais que à porta batem em horas de pessoas normais. Não.
Abre para o engate. Para o engate. O homem do quiosque é conhecido por aplacar qualquer incauta que lhe vá na lábia.
Vende muito tabaco o quiosque do Patrício. Também já vendeu cerveja contrafeita, mas os donos dos bares da zona já trataram disso, os filhos da puta.
Agora vende tabaco, muito tabaco. De enrolar principalmente. E contrafeito, aquele sem etiqueta. Desse também. Vende muito desse o quiosque do Patrício. E há noite é melhor, não há tantas rusgas.
Há, mas são para fechar os bares. São os filhos das putas dos vizinhos que os chamam depois de atirarem sacos de mijo à cabeça dos bêbados filhos das putas que fazem pandega à porta dos bares.
Mas são uns filhos das putas amorosos esses bêbados. São. Compram tabaco. Às vezes cravam um. Não têm dinheiro, coitados. Percebe-se, foi tudo nos copos. Fica a vontade de mais um cigarro para aplacar a serradura lingual que fica no limbo pré-ressaca. E com o cigarro vem a saliva. E com ela o amainar do serrim seco que quebra os lábios e dificulta a fala. Sim. É isso que dificulta a fala. Não é a cerveja, é a lixa.
E com isso, lá dá um cigarro Patrício, para logo vender mais um maço. Um crava hoje é um cliente amanhã, pensa por vezes Patrício. Tirando, claro, os cravas profissionais. Mas esses já os conhece Patrício. São uns filhos das putas esses cravas convictos. Sempre a cravar, sempre a cravar. Filhos das putas é o que são.
Neste vai e vem de bêbados e cravas, lá aparece uma oportunidade. Dessas que acabam a noite excitadas mas sozinhas pela inércia de um qualquer filho da puta que não lhe soube dar a volta, pensa Patrício. E essas, pesca-as todas Patrício. É um filho da puta Patrício. Fecha a portinhola do seu quiosque, abre a braguilha. Todas quiseram. Disso todos têm a certeza. Até Patrício. E elas também, não há dúvida.
Por uma ou outra vez, por falta de melhor, lá foi um crava ao castigo. Fecha a portinhola do quiosque, abre a braguilha. Pronto. Esses cravas por norma não voltam. É uma boa tática, pensa Patrício. Afasta os mosquitos, diz Patrício.
Por cada novo entrante no quiosque, faz Patrício um traço no interior do seu quiosque. Filho da puta o Patrício. Algumas (e alguns) tentaram entrar de novo no seu quiosque afoito, mas Patrício não vai na conversa. Quer novidades, não quer mais do mesmo, o filho da puta.
Os porteiros dos bares da zona já o conhecem de ginjeira. É o Patrício, filho da puta. Não é nada de especial o rapaz, mas deve ter um instrumento de ouro, dizem. Todos o querem.
No final da noite lá fecha Patrício o seu quiosque. Por vezes (muitas) sem faturar. Outras, vai contente Patrício ajeitando as calças à macho. Vai dormir. Há noite tem de estar fresco para a faina.
Sabe Patrício que é um filho da puta. Mas não quer pensar nisso. Está bem como está. É o que é. E sobre isso, nada a fazer.

8.06.2012

pérolas do outro mundo

Não posso deixar de partilhar uma pérola histórica que acabo de ler numa tese de doutoramento acabada de ser defendida e APROVADA:
"Em Portugal a expansão do saber (...) desencadeou, a nível educativo, reformas e contra-reformas, das quais destacamos:
- A reforma pombalina que implementou a laicização do ensino, pela expulsão das Ordens Religiosas (...)"

Apresenta outras pérolas semelhantes, como a sugestão de que a ditadura militar teve como consequência o "aumento do nível da taxa de analfabetismo quando, em 1835, Portugal tinha sido o quarto país do mundo a decretar a escolaridade obrigatória".
 
Se isto fosse o Facebook, não clicaria em GOSTO, clicaria em GOSTO MESMO MUITO DE PÉROLAS ANACRÓNICAS E DISPARATADAS!

E assim vai a pujança científica nacional...

8.02.2012

mais coisas de ler

Pondo os comentários literários em dia (sou um gajo pretensioso), dedico-me agora ao "Afirma Pereira" de Antonio Tabucchi, o meu primeiro livro do autor.
Sumariamente, é um livro a não perder.
Adaptado para o cinema um ano após o seu lançamento, desenrola-se em lisboa, num verão tórrido de 38 e retrata uma cidade (e um país) acomodada ao regime Boca-Fechada-e-Pouco-Pio, que teima ainda em permanecer, focando-se no acordar paulatino de um solitário jornalista lisboeta.
A leveza das palavras é, quanto a mim, a principal eloquência do livro. Num contexto romântico urbano, pauta pela suavidade da escrita, pela incomparável fluidez do discurso e pela construção progressiva de um enredo que se adensa à medida que o texto avança.
De pasmar os diálogos fluentes e o jogo de palavras sugerindo uma transcrição de qualquer interrogatório policial perdido num arquivo central, tornando, assim, o final surpreendente.
Vale, por fim, pela implacável humanidade que encerra, afirmo eu.

7.31.2012

Coisas de ler

Depois de sucessivos adiamentos lá terminou "Baudolino". Começa a ser recorrente a leitura amputada para mais tarde terminar, mais amansado da agrura das palavras.
Não que não seja uma escrita fluente e com enredo interessante, mas o anúncio, à partida, de mais um Fernão Mendes Pinto, havia-me desinteressado do enredo.
É, na realidade, mais um livro de fôlego de Umberto Eco pontilhado por um rigor histórico que vaticina, para quem aprecia a carga mística do espaço mental medieval, uma real compreensão das questões estéticas e espirituais que rodeiam o pensamento e os atos do homem do séc. XII.
Amplamente imbuído de uma religiosidade e de uma conceção do mundo como resultado do pecado original, não esquecendo o complexo jogo geopolítico que caracterizou o período do império de Frederico I, a obra reflete um profundo conhecimento do bestiário e pensamento medieval, mediado entre um deus aurifico e um mundo de seres lendários que povoam o mundo desconhecido.
Aprecie-se especialmente, quanto a mim, as questões do surgimento das primeiras universidades, dos jogos de poder político-religioso entre Frederico I e Alexandre III, do pensamento teocrático medieval, da conceção do mundo paralelo de bestas indizíveis, dos jogos de poder do império bizantino, do culto das relíquias (e produção) e, pérola improvável, das questões do retomar do pensamento clássico hipaciano, preconizador do pensamento renascentista que séculos depois ir-se-á impor.
Destaco a requalificação que Umberto Eco faz da "Casa Dourada de Samarcanda" imortalizado por Hugo Pratt, prisioneiros míticos de Aloadin que aqui surgem magníficos.
Bom livro para quem aprecia alguma densidade do pensamento pantocratico do contexto medieval.

5.11.2012

Comércio e história inacabada do quiosque vermelho

Existe, há anos, um encerrado quiosque vermelho na praça Montevideu. Caduco, teve o seu auge nos anos sessenta, quando as principais editoras nacionais começaram a debitar literatura diária, à razão de dez por dia.

Tudo era publicável nesses anos de ávida vontade de ler e nessa cidade pretensiosa que agora despertava para a viagem solitária de sofá e em que se lançavam grandes escritores e fracassados incompreendidos.

No quiosque da praça reuniam-se em bancas de dois por dois as novidades livrescas do dia acabadas de chegar do forno tipográfico.

Anos depois, revisitando o seu descascado quiosque vermelho, Egídio lembra o mítico dia 5 de junho de 67 em que lançara o mais retumbante êxito de vendas. Hoje, nesta fria manhã de dezembro em que o varandim entaipado impede a passagem, Egídio é uma sombra vil do tentador de comércio que outrora convencia qualquer pelintra a esbanjar vinte centavos pela mais recente obra de Lucifer, “uma primeira edição de uma obra que valerá fortunas”.

Nesse fantástico dia de vendas, mal chegaram os 50 exemplares da obra que “venderia como ginjas”, logo esgotaram, tendo satisfeito os retardatários com outras obras “de igual ou superior valor e cujo investimento irá ser um dia recompensado”. Desta chusma de livralhada cinzentona fazia parte a obra de Samsa: “Dias assim são para sempre”.

Os 5 exemplares alguma vez vendidos, havia sido Egídio a despachá-las pelo que, neste gélido alvorecer invernal, já esquecido o extenso fracasso da obra, Samsa haveria de cumprimentar, com vigor, a mão de quem lhe tinha dado certo reconforto de eternidade.

Samsa era, com efeito, autor de um calhamaço falhado. Calvo, de trunfas laterais, sobrevivia de biscates de carpintaria que lhe iam aparecendo. Dos seus lábios curtos e cerrados saiam-lhe parcas palavras de chofre, dando-lhe certo ar lunático, assustador de gentes, e que lhe havia impedido qualquer companhia nas primaveras da vida. Não que fosse esquisito com género, etnia ou formato, mas porque, na realidade, as oportunidades não abundavam. Talvez por isso se recalcassem desejos e pensamentos plasmados no seu tom monocórdico, seco, rudimentar de trato.

Metódico e persistente como era, havia retratado, num longo diário de mil volumes, a sua placidez infantil e o seu cinismo adulto, que logo resumiu em trezentas páginas medianas, para publicação. Após várias tentativas de o editar e igual número de rechaços, tanto pela “precaridade linguística” quanto pela “incapacidade de pensamento”, um suficiente elogio de um novato editor abriu-lhe a porta tipográfica.

Na realidade, beneficiou Samsa de uma súbita falta de inspiração universal que o catapultou para a resma de manuscritos da caixa VIÁVEIS, depois de um rastreio mais apurado da arrecadação de fracassos rotulados.

Foi então com grande entusiasmo que viveu esses dias de provas, fotolitos e monos que precederam a ambiciosa edição de 500 exemplares.

No domingo do lançamento, 4 de junho, apesar de não convidar ninguém para o evento, arremessou, inocente, o seu exemplar com todas as suas forças.

Triste sorte a de Samsa, pois no mesmo dia haverá de sair o mais retumbante romance consagrado que escapou à baforada melosa dos ventos da apatia, anunciando a opressão das suas fluentes páginas.

No balanço de final do primeiro dia, barómetro da rapidez de escoamento das obras editadas, 5 únicos exemplares haviam sido vendidos, logo rotulando-se o livro como "falhado", recolhendo-se à editora e logo ali incinerando-se 494 cópias pela invisibilidade da capa e 1.325 papéis de burocracia regimental, justificada pela intransigência da escrita, pela inércia do autor e pela cobertura de custos extraordinários comparticipados pelo autor.

Assim, após anos de insana busca do herói vendedor, com o “quiosque vermelho” como única referência, encontrou, Samsa, o seu querido Elígio,no já decrépito pavilhão carmino da praça Montevideu na recôndita cidade fronteiriça de Concordía.

Recordariam, naquele rossio mal-amado, numa eterna conversa cumplice e desmedida, os anos de sucessos e fracassos, tanto do vendedor de coisas e vontades, quanto do compilador de causas próprias.

4.24.2012

se hace camino al andar

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

in António Machado, Canto XXIX
dos Provérbios e Canções dos Campos de Costela (1917)

4.09.2012

percebologia ou a boa arte de opinar

De percebologia, percebemos todos!

Veio-me há uns dias à memória, quando passava os olhos pela entrevista à Secretária de Estado do Turismo na revista Marketeer de março.

O eriçamento das minhas barbas trintãs atingiu o clímax na leitura do seu vasto currículo, reflectindo um político de profissão que vive na sombra do seu partido.

Não que o seu passado (e presente) seja definidor de uma veia profissional incapaz, mas por reflectir um contexto pouco dirigido e em que o que vale são os meandros retóricos partidários em que se navega e não as qualificações específicas para o cargo que se exerce.

Percebóloga, terá uma ideia preconcebida da área, mandará umas postas mais ou menos acertadas e muitas outras à água.

Mas, não somos todos percebólogos de profissão? É que todos opinamos sobre qualquer assunto como se o estudássemos a fundo, quer seja sobre bola, sobre política, sobre o que devia ser feito para o bem do país, enfim, sobre TUDO, baseado no que o outro disse, tornando-o nosso.

Os exemplos são imensos, desde os paineleiros de programas televisivos que encontram a verdade num qualquer trejeito de uma figura pública, passando pelo mister que tudo sabe sobre a equipa adversária, até ao bebedor de café que debita o que acabou de ler nas gordas de um qualquer pasquim.

Sem dúvida que todos têm direito à opinião, mas como dizia o uncle Ben: "with a great power comes a great responsibility".

De facto, acho que o direito à opinião é um poder pessoal grande demais para ser desperdiçado em bocas do barulho pouco esclarecidas e deveria haver um interesse pessoal mais generalizado em cada um cumprir o seu dever de se esclarecer antes de opinar.

É que isso de saber de tudo e sair verborreia, isso de se gerir o que não se conhece ou de negar a incapacidade para saber tudo sobre tudo, em suma, isso de ser percebólogo da treta, irrita-me comó caraças!

Mas isso é para mim que percebo das coisas.

2.27.2012

blogs e tralha

Na sociedade de consumo imediato, ninguém fica de fora. Twitter, facebook, google + sustentam-se, e bem, na mensagem rápida e fácil de consumir.

O quioske tem já alguns anos e por isso já passei pelo boom de acessos, pela análise da concorrência, pelo limiar dos 1.000, 2.000, 5.000.

O tempo molda-nos e, por isso, moldamos o que fazemos e como o fazemos.

Hoje este é um espaço sem premissas temáticas, de espaço, de ligações. É um diário / semanário do que me vai apetecendo escrever.

Isso é bom, torna o que escrevemos mais autêntico, mas íntimo, menos avesso aos comentários ou à necessidade de responder a temas quentes.

Talvez seja um caminho partilhado por tantos outros, como se a grande rede que nos une fosse também a grande rede que nos caracteriza.

Disse-me ontem um camarada dos velhos que em janeiro e fevereiro a venda de tabaco decresce muito pelas promessas de um ano novo livre do vício. É como se um pensamento coletivo nos caracterizasse a todos. Por caminhos diferentes fui embocar nessa magistral definição (acho que é de Eduardo Lourenço) de humanidade: uma replicação infinita de caminhos comuns, cruzados por vontades similares.

Neste contexto coletivista (sim, sou dos subscritores do acordo ortográfico, talvez em contraponto aos intelectualóides charolos como o pulidinho) o movimento bloguista tem perdido defensores, escritores, comentarista, percebólogos que agora viram baterias para outras plataformas.

Tornou-se mais intimista, mas também mais autêntico (apesar dos treinadores de bancada que de tudo postam), mais nosso, mais meu.

Menos arranjadinho, é certo, mas não somos todos menos bonitos um pouco do que a ideia do que somos, é?

2.21.2012

1.31.2012

bastardia

Com o passar dos anos tendemos a perder o brilho idealista que nos foi moldando o pensamento e dando corpo aos nossos atos, tornando-nos secos, imutáveis, perfeitos bastardos entre irmãos.
Ouvi esta frase, nestas e outras palavras, muitas vezes. Ouvia-a recorrente pela voz de experientes e bem sucedidos cordeirinhos que, disfarçados no rebanho, foram-lhe toldando o passo conduzindo-o pelo seu caminho mais seguro.
Nunca soube bem como designar essa veia normalizadora e segura que todos querem, nem como caracterizar sequer essa necessidade insana de nos vermos sentados no sofá e ver uma merda qualquer na TV à espera que a vida passe.
Também nunca soube, até hoje, como chamar a essa massa que compõe a opinião pública, feita de ideias preconcebidas, frases fáceis e com vontade de apontar o dedo para logo esquecer, mal novo escândalo o chame à atenção.
Costumava chamar-lhe o país de merda. Hoje, sei que não é assim.
Sei agora que a isso chamarei: a bastardia humana.
São bastardos bronzeados e de cabelo armado. São bastardos entendidos em faladura especulativa, sem fundamento, sempre com base nos que outros disseram. São bastardos os que o dizem, os que o comentam, os que o ouvem e os que o transmitem.
É bastarda a mensagem, o emissor e o receptor.
Sou bastardo, mas tu que o lês também. Não sorrias, estou a falar mesmo de ti.

1.06.2012

um país de claques - maço-quê?

Tal como em anos anteriores, o início do ano é altura da maçonaria marcar a sua existência. Normalmente uma entrevista ao grão aventaleiro faz as honras da casa, mas este ano quiseram primar pela orginalidade: deixar cair na opinião pública a "novidade" de que os aventaleiros são uma claque multifacetada que rema para o seu lado (haverá alguém que se tenha surpreendido com isso!?).

Depois do desaire Fernando Nobre, volta à carga agora em âmbito mais alargado, mas sempre com o mesmo pano de fundo: a assembleia da república, essa instituição em que claques ferrenhas e bem mandadas lançam impropérios doutrinados ao inimigo e em que a frase "muito bem" é primeira entrada do glossário deputóide.

Ainda que com menor frequência, faço parte da claque (sim, também faço parte delas) que passa os olhos na ARtv e que se delicia com os comentários infundados que lançam uns aos outros à espera que os media os transmitam em canal aberto.

Por entre declarações de voto que nada dizem e pedidos de defesa da honra que enterram ainda mais o difamado, é normal pensar que motivos aventaleiros, opus deiences, de cama-e-mesa ou de fruta madura tenham sido factores decisivos para as escolhas recairem sobre essa bela fauna que por lá polula.

Apesar disso, depois de marinar uns dias, lá voltaremos à normalidade entre crises e Cátias Vanessas, bem ao gosto da populaça.

12.26.2011

o monstro da ciência - tipos de documentos científicos






A publicação de ciência é o veículo para a partilha e validação do conhecimento produzido. Como referia Merton em 68 na Science: "for the development of science, only work that is effectively perceived and utilized by other scientists, then and there, matters".

Assim, os suportes de ciência apresentam-se como vitais para a difusão da informação aos pares assumindo 3 dimensões genéricas que Garfield em 1955 sistematizou: o livro - macro unidade (compilador de conhecimento), o artigo - micro unidade (produtor de ciência) e o índice - nano unidade (referenciador de conhecimento).

Dedicar-nos-emos apenas aos tipos de documentos micro, as unidades que, grosso modo, (re)criam novos formatos, comprovam ou desmentem paradigmas, que impelem o conhecimento a evoluir e deixando de lado as largas dezenas de formatos de publicação que os Subject Headings ou Thesaurus indicam.

De facto, o termo journal articles (original research, scientific letters, notes, reports, conference papers e reviews) resume os tipos de documentos científicos possíveis e que, não sendo exclusivos, em post posterior, iremos sistematizar.

Existem, de forma genérica, três tipos principais de artigos:

- investigação original, publicada em primeira mão em revistas de referência para a área científica ou em sites de especialidade e que apresentam formatação diversa, desde experimentação laboratorial, testes clínicos, estudos metodológicos, resultados de conferências, etc.;

- estudos integrativos, baseados no conhecimento já produzido e sistematizando conceitos ou revendo o conhecimento teórico já produzido, como são exemplos as revisões sistemáticas ou as guidelines;

- outros tipos de artigos, resultam de dados emanados da leitura e análise dos dois tipos anteriores ou de casos sistematizadores da prática e resultam em comentários, casos de estudo, editoriais ou cartas ao editor.

Por norma os tipos de documentos respondem a uma de três necessidades: explicar novos conhecimento, compilar conhecimento produzido ou comentar resultados anteriores.

Pretende-se responder à máxima de Merton partilhando conhecimento, mas, na realidade, fundamenta-se em factores bem mais complexos e a que me dedicarei em post autónomo.


12.21.2011

sombras de um vento catalão






Acabei, há dias, o refrescante livro de Ruiz Zafón, "A sombra do vento". Entre mistérios e cenas de género, correm páginas sem se dar por isso, num enredo entusiasmante que nos transporta para Barcelona dos anos 40-50.

Sem mácula, a mancha é agradável e a tradução de qualidade, deixando perceber, entre as palavras, a sonoridade catalã que lhe está no sangue.

Apesar de algumas soluções maneirinhas para a conclusão do livro, mantém sempre a coerência da história e uma lógica de facto-consequência que justifica os milhões de exemplares já vendidos.

O início da narrativa é francamente bom e a história desenrola-se num ciclo de vida que, no final, se torna evidente, num discurso divertido e consistente que dá vida às personagens que povoam o livro e salpicando os actores com uma fantasia latina entre a estiva húmida caribenha e a orvalhada glacial ibérica.

Boa escolha para as noites frias de Inverno.

12.14.2011

entre bispos, frades e heresias

Li há algumas semanas "A Estratégia do Bobo", um livro perdido de Serge Lentz, autor algo conhecido na França na década de 80 e que a Círculo de Leitores publicou há alguns anos.

A história passasse na Europa Piccolominesca da pré-reforma protestante, deambulando entre a devassidão humana que caracteriza as suas construções.

No coração da igreja católica de meados do século XV conta a história da ascensão-queda-ascensão de um jovem bispo e da visão libertária de um vivido frade, movedora de hordas populares.

O enredo é motivador e as personagens vivas e interessantes, caracterizando de forma entusiasmada a época e a populaça que a habita.

Não deixando de lado o formato circular do romance histórico, à medida que se aproxima do fim vai deixando transparecer a incapacidade da história evoluir, deixando à deriva algumas páginas e fazendo perceber um final decepcionante.

A qualidade do conteúdo que até aí o vai caracterizando, apesar de algumas incongruências, é debelado por um final previsível reflectindo a incapacidade do autor em perceber qual o caminho próprio que a história estava a percorrer.

De toda a forma, esquecendo as últimas 20 páginas, vale a pena dar-lhe uma vista de olhos.



11.21.2011

homem, o bom símio

"o homem, como bom símio, é um animal social, e imperam nele o amiguismo, o nepotismo, a trapaça e a mexeriquice como norma intrinseca de contuda e ética. É pura biologia."

Fermin Romero de Torres em "A Sombra do Vento" de Carlos R. Zafón.

10.18.2011

O monstro da ciência - países produtores




A ciência é, em larga medida, uma actividade em que a rivalidade com os pares está à flor da pele.

Apesar de penoso o processo produtivo e a dificuldade de reconhecimento do trabalho realizado em países da periferia, como o nosso, e apesar da dificuldade em entrar no restrito meio académico, a competição pela hegemonia científica está na ordem do dia, utilizando-se rankings científicos para avaliar a saúde científica das nações.

Utilizando uma das duas bases de dados referencial da qual resulta ranking de impacto: o Scimago Journal Rank, cedo percebemos a hegemonia americana apenas beliscada pela China, o Reino Unido, o Japão, a Alemanha e a França aos quais se segue uma longa cauda de 230 países produtores (Portugal surge num sofrível 34.º lugar).

Os números parecem claros. Apesar disso há que analisar a tendência geral de evolução da produção científica por países para percebermos para onde caminhamos.

Tomando por medida o número de documentos publicados (citáveis e não citáveis - comentários, erratas, etc.), fizemos um exercício simplista de análise da dinâmica de evolução da produção de documentos dos dois principais produtores mundiais: o EUA e a China.

Assim, se os EUA tiveram uma média de crescimento do número de artigos científicos de 0,22% ao ano, a China apresenta uma média de crescimento de 1,11%/ano, mais do que quintuplicando o crescimento científico relativamente à congénere, representado, os últimos 4 anos (2007-2010) 56,5% do total de registos publicados em detrimento de 31,9% do total de registos publicados pelos EUA.

Este tem sido uma das discussões recorrentes (scientometricamente falando), especulando-se ou encontrando-se evidência sobre quando poderá a China quebrar a hegemonia americana. A voz do barulho diz que a próxima década ditará o fim do domínio americano (também na produção científica), mas o proteccionismo científico (auto-citação), o contexto editorial e os incentivos à publicação (para além de outros factores menos claros) são variantes do mercado aos quais a produção nacional irá responder, tornando difícil um prognóstico.

Certo é o fim do domínio americano na produção científica, incerto o quando e quem o propiciará, se os países do BRIC a forçar a queda, se a Europa que parece ainda ter uma palavra a dizer nesta guerra científica sem quartel, entre nações.

9.29.2011

o monstro da ciência


É sabido que a ciência não está no topo da agenda das preocupações individuais (ou colectivas na nossa república das bananas) do comum dos mortais. Ainda que tenha dado origem à maior parte dos conhecimentos, aplicativos, produtos, meios e vontades que nos rodeiam, não reflectimos com frequência sobre o seu papel no nosso mundo.

Na verdade foi-se passando a palavra que ela revestia-se de uma inteligibilidade complexa, dando-se motivos obscuros, idealistas ou fantasiosos para a sua produção.

Talvez por isso o mecanismo mental que despoleta os sentidos tenha aplicado, à ideia de ciência, uma carga negativa (ou pelo menos pesada) que impedirá tantos de tentar perceber os processos básicos de produção científica, não os conteúdos, apenas os motivos da sua produção, dos formatos de disseminação ou das batalhas de gigantes que a impelem a evoluir.

Todos nós nos lembramos dos calhamaços intragáveis que nos faziam marrar nos melhores dias de verão e talvez por isso tenhamos desenvolvido uma aversão natural a esses infindáveis glossários de fórmulas, de palavras, de frases intrincadas, só acessíveis a alguns e que nos têm afastado do verdadeiro formato e sentido em que é produzida a ciência.

Muitos se têm dedicado ao tema mas poucos terão prestado atenção ao que esses seres estranhos têm dito, criando um ruído difícil de transpor e tornando os seus produtores atores secundários num limbo entre a criação impar de valor e a desvalorização coletiva do seu trabalho.

O monstro da ciência passará a ser um conjunto de ideias próprias que partilharei sobre os formatos, motivos e tendências da ciência atual, desmistificando-a aos meus próprios olhos.