5.06.2013

A Tábua de Flandres


Obra viciante de Arturo Pérez-Reverte. Já me tinham avisado que era um valor seguro. Percebo agora porquê.
Policial de primeira que apetece continuar, bem estruturado e envolto em mistério. A narrativa enreda-se em torno de uma obra de Van Huys, primitivo flamengo de quinhentos e os seus intérpretes, em novecentos. A história desenrola-se numa trama de crime e a arte que vai fluindo por intermédio de um misterioso jogo de xadrez, a lembrar Nabokov. Primoroso na rede sempre cativante que cria, com final improvável, de qualidade, sem fronteiras definidas entre o bom e o vilão. Delicioso.

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3.25.2013

crítica da razão ausente

Acabo de passar os olhos pelo "Crítica da razão ausente" de António Manuel Baptista (AMB). Um livro de 2002 na continuidade da guerra aberta a Boaventura Sousa Santos (BSS). Há altura designada por guerra da ciência, é uma obra divertida de ler por ser uma crítica a BSS no seu "Um discurso sobre as ciências". Na crítica algo feroz ao entendimento que BSS faz de ciência, parece-me mais um manifesto contra a politização do discurso científico (apesar do próprio AMB ser acusado disso mesmo, numa ótica do toma-lá-com-o-que-me-acusas-para-ver-se-gostas).
Tal como no jornalismo em que o discurso é deturpado com objetivos algo dissimulados, também na obra de BSS AMB vê motivações obscuras para a sua produção. Carlos Magno, Prado Coelho, Vasco Graça Moura, são alguns exemplos ao estilo BSS que, ainda que noutras áreas, vão impregnando o leitor de termos complexos e algo dúbios, cheios de salamaleques, para irem cravando ora o cravo (claro) ora a ferradura.
Ainda que com provas dadas, é particularmente irritante essa vontade constante de criticar, para logo agradar, mantendo-se nas boas graças do rotativismo vigente.
Lembro-me, de facto, quando estudava, de ouvir falar do livro de BSS, sempre num tom algo seminal, mas, pela densidade das citações e da terminologia arrevesada, nunca passei da capa. Hoje, passei os olhos sobre o seu pequeno livro. Aliás, acho que é o mais curto calhamaço que li...
Na altura, talvez o reduzido tamanho do livro de BSS tenha-me chamado à atenção. Hoje, ensonou-me.
Interessam-me as questões do comportamento da ciência, das redes de criação científica, da forma como se mapeia o conhecimento, mas, por favor, não me chamem para teorizações do estilo todo-o-conhecimento-científico-natural-é-científico-social ou todo-o-conhecimento-é-auto-conhecimento.
Sinceramente, deixa-me com muito sono. Já o seu contrário, a crítica cáustica, essa é sempre bem-vinda.

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1.25.2013

A casa de papel

Movendo-se no universo de A Biblioteca de Babel e do Cemitério dos livros esquecidos, o pequeno livro, entre o romance e o conto, de Carlos María Dominguez, é delicioso.
Com enredo muito interessante, desenvolve-se em torno de um esquecido, viajado e cimentado livro.
Deixa perceber uma técnica algo erudita, mesclada com o toque sensual do castelhano sul-americano.
Receita:
Servir Casa de Papel com clericot.

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1.10.2013

um deus passeando pela brisa da tarde

Ainda com a nostalgia que os bons livros nos deixam, mal os terminamos e, por isso, com a história à flor da pele, não posso deixar em claro a agilidade com que foi escrito e a clareza do enredo, fundamentado nos primórdios do paleocristianismo no contexto da lusitânia romanizada de finais de ocupação.
É um livro delicioso que justifica a quantidades de reedições já impressas (tenho notícia de pelo menos 12).
Ladeado entre os ritos da vida privada e o direito romano, descreve magistralmente o quotidiano e a estratificação social clássica, deixando antever os primeiros passos de uma seita que, séculos depois, se tornará dominante.
Romance histórico muito bem escrito em estilo autobiográfico (do dúunviro Lúcio Valério). A aparente desilusão de, na abertura, referir que "nunca existiu", dificulta a leitura dos primeiros parágrafos, que logo é secundada pela impressionante articulação das várias componentes da história.
Mário de Carvalho mostra como, a partir de uma boa fundamentação do contexto e com escrita clara e liminar, pode ser tão gratificante a leitura.
Uma composição da editora Caminho que, como já me havia habituado, não prima pela excelência do design, mas pela qualidade da escolha editorial.

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1.02.2013

e mais coisas de ler

Ao contrário da capa da mini-série de Joaquim Leitão, a encadernação do "Até amanhã, camaradas" é algo insipida, bem diferente do miolo cativante que reveste.

Do editorial Avante, que sempre nos chama para o vermelho vivo doutrinal, apresenta composição gráfica de uma sobriedade tocante dando, até, certo corpo ao enredo que num fôlego se folheia.

É um livro austero. Sem querer ser um instrumento de propaganda, não deixa de a fazer, numa ambiência de permanente conluio anti-fascista que nos trouxe até aqui.

Aprecie-se, por entre a trama inquietante dos homens sem nome, tanto as descrições da sociabilidade rural e simples da populaça, quanto os apontamentos místicos que envolvem as personagens revolucionárias.

Para quem, como eu, não viveu esse tempo, fica um retrato muito interessante do país que me gerou, não só pobre e comezinho, mas também lutador diário, ora por batatas, ora por ideais.

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12.18.2012

outras coisas, boas, de ler

O Corvo da Relógio d'Água é uma obra magistral.
Não que seja um aficionado da poesia, longe disso, mas pela qualidade do génio criativo de uma obra a três vozes, em torno desta obra de Nevermore de Poe.
É genial a edição tanto no toque, quanto na paginação, no design, na imagética, na composição de interpretações (não consigo usar o termo tradução) de Fernando Pessoa e Machado de Assis e na opção de incluir Anabel Lee (versão original e interpretação de Fernando Pessoa) como adenda final, encorpando o livro. 
Percebeu o editor que o comprador é sensível ao tamanho da lombada e por isso os cerca de 12,00 € são uma pechincha para quem está habituado a comprar cenas-duvidosas menores por bem mais alto preço.
Qualidade editorial notável que dá ao texto uma roupagem merecida.
Obrigatório!

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11.16.2012

linha amarela I

Então belo marinheiro, partes?
Sou costeiro, não sou daqueles que criam raizes.
 
Continua Corto Maltese a buziná-lo.
 
Pelo caminho, vai com as palavras, chamada para a mudança: seguir sem rumo pelo mar aberto, seguir a costela portuária que o caracteriza, render-se à genética de aventura que o impele para o mar. Talvez assim seja, uma genética de mar que o envolve mais do que essa genética de homem que o martiriza.
Talvez também essa genética de mudança o impila ao mergulho no mar bravio, fora do caminho ritual de todos os dias, pela linha amarela, derivando da realidade, seguindo-se, quem sabe, sem linha.
Disse, um dia, que o sonho é o único espaço verdadeiramente livre que tem. Como se tudo o resto fosse condicionado por contextos, enfados, maneiras, gestos que o torna bipolar social, consoante o meio em que marina.
Sou um ser agrilhoado, diz, a quem o quer ouvir. No consumo, na rotina, nos vícios, nos constumes, nas obrigações e no caminho, curto, que percorre todos os dias até ao destino para logo voltar, comer, dormir, trabalhar, voltar...
Parece esperar a morte. Anda sem sentido deixando que a vida passe sem dar por ela.
Passa o rio douro e, tal como ele, corre pela linha para o fim, impassível, resignado.
É que cada um faz o que quer da vida, pensa. Mas, na realidade, a vida guia-o ao caminho que tem de percorrer, sem grande critério ou método.
No metro, na linha portanto, os olhares, sentados, aguardam o destino. Mas também aguardam a derradeira viagem olhando, sem critério (também eles) os transeuntes, tentando encontrar, nos reflexos das janelas, outro olhar, gesto, intenção, olhar, gesto, intenção... 
Pensa todos os dias que em 100 anos a linha irá vazia de todos os que lá vão. Como um metro fantasma para a eternidade, condenado a percorrer a linha, amarela, com os que vão sobrando até esvaziar-se do último homem e continuar caminho, fantasmagórico, numa linha que de amarelo terá já pouco, de esverdeado, muito.