10.16.2006

quando o tempo passa

Quando crescemos, raras vezes damo-nos conta dos anos passarem.
Só quando um acontecimento nos chama à razão, reparámos que já não somos quem éramos, não temos a mesma idade. Somos diferentes, esquecemo-nos dos laivos do passado para os ocupar com a celeuma do presente.
Passam os dias sem nos darmos conta da tal metamorfose.
Os problemas, questões, dúvidas, vão-se esfumando no tempo, à medida que ele continua o seu passo incessante.
Estranho como, por vezes, somos chamados à razão. Uma bofetada de tempo leva-nos a pensar no passado, no que fomos e como somos diferentes.
Talvez seja este o momento da passagem, aquela que tantos receios causam ao comum do mortal: o e-n-v-e-l-h-e-c-i-m-e-n-t-o.
Agora sou diferente. Mais enrugado pelas tormentas e ponderador pela força das vidas passadas, enfrento uma verdade: caminho apressado para a velhice.
Hoje aconteceu o inevitável: fui abalroado pelo peso da idade quando uma mulher disparou a pergunta fatídica: Não foi meu professor no 7.º ano?

A minha cara de pânico parece ter causado mossa, pois replicou um penso, como se quisesse desculpar a pergunta pelo facto de EU estar VELHO e de me fazer descer ao meu lugar.

Parece-me ter-lhe ouvido um sussurro: Pega na bengala oh velhinho! Mas, estranheza dos diabos, a sua presença continuava à espera que lhe dissesse algo sem movimentar um músculo. Replicou depois, qual ventríloquo: A reumática é fodida ah!?

Depois de cerrar os dentes e descobrir a máscara de ferro, com a carquilha à mostra, rosnei: Realmente a sua cara não me era estranha! Enquanto pensava numa chusma de palavras vis para lhe atirar.
Nada mais digno saiu que não frases de circunstância.
Faço então o anuncio público da minha passagem para a outra banda, antes dos intas e dos entas, pareço uma velha alcaparra ao sol.
O período da dor de costas, das insónias, do trabalho desenfreado e da terrífica, da monstruosa estabilidade parecem estar a chegar.

Penso regressar, menos rabugento, dentro de 37 anos.
Entretanto, ature-me quem conseguir!


3 comentários:

Anónimo disse...

Já começo a perceber como isso é, boa semana.

Hugo Brito disse...

Claro que foste professor dela. Do 7º ano. Mas foi o ano passado. :D

Miguel de Terceleiros disse...

Professor o séimo anûs?!
Seu biltre!!!
Ainda por cima não conseguiste mexer um músculo, sua alimária!